Jorge Rocha | Artista Visual e co-fundador da Rizoma Lab
Sim. Dependerá da construção de uma oferta diferenciadora e de um verdadeiro trabalho em rede, envolvendo municípios e agentes culturais. A sazonalidade terá que ser combatida a partir de dentro, ou seja, envolvendo as populações numa perspetiva de desenvolvimento transversal dos hábitos culturais. O acréscimo de Turismo que procura oferta cultural será sempre uma consequência da projeção da imagem coletiva das comunidades que visitam, pelo que programar para entreter o Turismo é, a meu ver, um erro crasso. É nesse ponto que a sinergia entre cultura e turismo pode fazer a diferença. O Algarve tem sofrido um processo de transformação dos modos de organizar a cultura, com entidades a se destacarem. Olhar os bons exemplos e replicá-los parece ser o caminho a seguir. Este programa pode funcionar como plataforma de sinergia em iniciativas conjuntas entre entidades privadas e públicas, entre agentes criativos do Algarve e fora dele. A sazonalidade da economia combate-se criando estabilidade para quem cria oferta cultural, porque sem isso, não existe desenvolvimento a longo prazo.
Constantino Jordan | Empresário
O conhecido Guia Michelin atribui a sua classificação da seguinte forma: uma estrela significa vale a pena uma paragem; duas estrelas vale a pena fazer um desvio (detour); três estrelas vale a pena uma viagem! E assim deve-se entender as palavras work in progress da comissária Dália Paulo. Porque só com a terceira estrela se pode dizer: missão cumprida. Para chegar lá, o desafio mais difícil é provavelmente oferecer não o que se consegue produzir com os recursos habituais, mas sim o que os visitantes realmente querem experimentar. A iniciativa é excelente, o orçamento bastante razoável para o primeiro ano. Mas ouvir, aceitar, inovar e evoluir serão as palavras para o sucesso, como também o «pensar fora da caixa» (ou thinking out of the box, como se diz em inglês). Porque mais do que alguma outra coisa, também queremos ser inspirados.
Vítor Cabrita Neto | Dirigente associativo e empresário
É uma iniciativa positiva. Pode contribuir para atenuar a sazonalidade turística no Algarve. O fenómeno é complexo e exige um conhecimento sério. Se não existir uma estratégia global correta não há «atividades» que salvem a época baixa. Deixo algumas notas para reflexão. Primeira: é diferente o grau de sazonalidade nas chegadas dos milhões de turistas internacionais que se deslocam pelos continentes. Em quatro (Ásia, Américas, Médio Oriente e África) esse grau é muito atenuado. Apenas num continente é bastante acentuado: Europa. Segunda: a curva de sazonalidade na Europa é sensivelmente igual à de Portugal (OMT). Nas grandes cidades – Paris, Londres, Roma, Madrid, Lisboa – que são destinos de «turismo urbano» – a sazonalidade é menor. Também em Portugal é assim. É menor no destino urbano Lisboa, do que no destino de férias/lazer Algarve. Terceira: se analisarmos a evolução nos destinos de alta sazonalidade (Europa) verificamos uma coincidência: ela agrava-se nos anos de quebra de crescimento anual e portanto de quebra também da época alta; diminui quando o ano é «bom» e, claro, a época alta também. Seria perigoso não perceber esta dinâmica. Importa trabalhar para não errar.
Teresa Fernandes | Marketeer
Estamos perante um programa cujo investimento é bastante interessante 1,5 milhões de euros, o qual nos permite ter algum conforto e margem de manobra para que a região possa “brilhar”. Note-se que estão previstos realizar mais de seis centenas de espetáculos em todos os 16 concelhos da região, entre Outubro deste ano a Maio de 2017, i.e., que começam daqui a pouco mais de 1 mês. É imprescindível a garantia e manutenção das melhores relações e organização entre todas as entidades envolvidas para que possamos ter um Algarve organizado e convidativo aos turistas. Mas não basta, trazer as pessoas até cá e dar-lhes animação. É importante cativar, permitir-lhes experienciar a região, apaixonando-os e consequentemente motivar o retorno de cada um destes, no próximo ano, nas próximas férias, ou apenas para uma “escapadinha”. Acredito que o Algarve o conseguirá e que em pouco tempo, deixaremos de ter uma curva tão acentuada de sazonalidade, muito marcada ainda pelo Sol e Praia que embora maravilhosos, não são suficientes.
Elidérico Viegas | Dirigente da AHETA
Sem pretender colocar em causa o mérito do programa, nem ofender os seus promotores, importa referir, desde logo, que apoios financeiros para eventos, normalmente já existentes, no montante de 1,5 milhões de euros, envolvendo vários organismos regionais e locais ligados à cultura, terão um impacto real na procura turística durante a estação baixa igual a zero. O Algarve precisa, de facto, de uma estratégia de animação para enfrentar com sucesso a sua maior fragilidade – a sazonalidade –, traduzida em meia dúzia de grandes eventos âncora que possam afirmar-se progressivamente nos calendários das grandes realizações internacionais, gerando e atraindo fluxos turísticos importantes nas épocas de menor procura, funcionando ainda como meios privilegiados de promoção e divulgação da nossa região, atendendo à cobertura mediática dos mesmos. Em suma, este não é, certamente, o programa que a região precisa para enfrentar com sucesso a sua maior fraqueza, independentemente das intenções nobres dos organizadores. Contrariando o politicamente correto, reconhecemos alguma ingenuidade no que respeita aos objetivos anunciados. Tendo em vista evitar que a culpa morra solteira, dava jeito uma avaliação independente no final do programa.
António Branco | Reitor da Universidade do Algarve
A qualidade da comissária, Dália Paulo, e o profundo conhecimento que tem da nossa realidade cultural e socioeconómica criam a expectativa de que este programa não venha a cair nos erros do «Allgarve» de má memória (literalmente, para inglês ver) e que, pelo contrário sirva para alicerçar a atividade de criação dos agentes culturais numa extensão do território que vá para além dos maiores centros urbanos do litoral. Se assim for e se a perspetiva for duradoura (e não se tratar de mais uma iniciativa pontual que, depois de concluída, não deixe rasto), estou em crer que, a par de muitos outros fatores, este programa poderá contribuir para atenuar os efeitos da sazonalidade.





