Carlos Gouveia Martins defende estudo técnico de dois nós viários como primeiro passo para uma estratégia de mobilidade a 25 anos.
São oito da manhã. Um pai sai de casa com os filhos para os deixar na escola antes de seguir para o trabalho. O trajeto devia demorar cinco minutos. Demora vinte e cinco. Entre a V6, a ponte velha e os semáforos da Penina, perde-se tempo todos os dias. Não é um incidente. É rotina. E essa rotina repete-se, com pequenas variações, em milhares de famílias portimonenses, todas as manhãs, todos os dias úteis do ano.
Foi a partir desta realidade quotidiana que a Câmara Municipal aprovou recentemente uma proposta que construímos para avaliação técnica de dois nós viários particularmente críticos na cidade: a zona conhecida como rotunda «da PSP» e a zona conhecida como rotunda «da Mercedes» na Pedra Mourinha.
Importa ser claro sobre o que esta proposta é e o que não é. Não aprova obras. Não cria despesa imediata. Não impõe uma solução fechada. Manda apenas estudar. Tráfego, segurança rodoviária, circulação pedonal, acessibilidade, estacionamento, sinalização, impacto urbano. Para que qualquer decisão futura assente em dados, e não em impressões.
A reação dos munícipes nas redes sociais, depois da publicação desta proposta, foi reveladora. Em poucas horas, surgiram dezenas de comentários sobre outros pontos críticos. A V6, a ponte nova, a zona da Casa Inglesa, a Rua Guanare, a saída para o Parchal, os acessos à Praia da Rocha, a ligação a Alvor, a entrada pela Avenida Paul Harris, a Pedra Mourinha, o Chão das Donas, os acessos à EN125.
A falta de estacionamento ordenado. Os carros abandonados na via pública. A ausência de transportes públicos à altura das necessidades da cidade.
Este debate, longe de ser ruído, é um sinal positivo. Quando os cidadãos comentam, criticam e apontam problemas concretos com o detalhe de quem vive a cidade todos os dias, estão a participar na sua construção. A política local tem o dever de ouvir essa inteligência coletiva. Não de a desvalorizar como queixa dispersa. De a ler como diagnóstico.
E o diagnóstico é inequívoco. Portimão não tem apenas um problema de trânsito. Tem um problema de planeamento acumulado ao longo de décadas.
A cidade cresceu. Recebeu mais população, mais turismo, mais comércio, mais automóveis, mais pressão urbana e mais intensidade no seu dia a dia. Mas a rede viária, os transportes públicos, o estacionamento e o desenho urbano não acompanharam esse crescimento ao mesmo ritmo. O resultado está à vista todos os dias. Qualquer pequena deslocação revela uma cidade que cresceu mais depressa do que alguma vez foi pensada.
Seria um erro responder a este momento com remendos isolados. Resolver uma rotunda sem pensar nas restantes, intervir num cruzamento sem o integrar numa visão de conjunto, é tratar o sintoma e ignorar a causa. A mobilidade não pode ser gerida ponto a ponto, sob pressão do comentário mais recente nas redes sociais. Tem de ser pensada como sistema. Entradas e saídas da cidade, vias estruturantes, estacionamento, transportes públicos, segurança pedonal, escolas, zonas comerciais, freguesias, turismo, centro histórico, Praia da Rocha, Alvor, Mexilhoeira Grande e a ligação à região.
Porque mobilidade não é apenas sobre automóveis. É sobre o tempo das pessoas. A qualidade de vida. A economia local. A segurança nas ruas. O ambiente. O acesso aos serviços públicos. A justiça territorial entre o centro e as freguesias.
É esta a lógica que sustenta o programa Portimão 2025-2050. Uma visão a vinte e cinco anos, e não decisões pensadas apenas para durar um ciclo eleitoral de quatro.
Uma cidade onde a revisão séria do Plano Diretor Municipal, a conclusão das vias estruturantes V2, V5 e V10, a gestão inteligente do trânsito através de dados e tecnologia, o reforço dos transportes públicos através do MobiPortimão e de um passe intermodal integrado com a VAMUS, a CP e até a criação de uma futura gare intermodal, as ciclovias contínuas, os passeios largos, as bolsas de estacionamento e a nova centralidade a norte da EN125 deixam de ser projetos avulsos. Passam a ser peças do mesmo desenho urbano.
Avaliar tecnicamente dois nós viários críticos não resolve, sozinho, os problemas de mobilidade de Portimão. Mas é o primeiro passo correto. Estudar antes de decidir. Decidir com dados, e não com impulso. Inserir cada decisão concreta numa visão mais larga da cidade que queremos construir. Estudar não é adiar. É o método de quem leva a sério o dinheiro público e o tempo das pessoas.
Daqui a vinte e cinco anos, alguém vai sair de casa de manhã para levar os filhos à escola. Um trajeto simples. Cinco minutos, não vinte e cinco. É essa a imagem que me move. Uma pessoa que já nem se lembra de que, um dia, Portimão discutiu rotundas nas redes sociais, porque a cidade deixou de viver de remendos. Aprendeu a pensar-se a si mesma. Foi isso que escolhemos fazer, com paciência, com método, sem medo de estudar antes de agir.
É esse o Portimão que vale a pena construir. Decisão a decisão. Estudo a estudo. Com a coragem de fazer bem aquilo que, durante demasiado tempo, se fez à pressa.
Portimão não precisa de mais remendos. Precisa de rumo.
Carlos Gouveia Martins