O caminho das estrelas começa numa freguesia isolada do concelho de Portimão. Onde termina uma estrada rural, o céu não é o limite. Há mais de 20 anos que o discreto casal britânico Bev e Jan Ewen-Smith fundaram o Centro de Observação Astronómica do Algarve (COAA) numa colina abrigada do vento norte. Apesar da longevidade do projeto, que combina ciência com alojamento local, a procura tem sido estável. Todos anos, recebe estudantes de matemática e física, astrónomos amadores avançados, principiantes, famílias em férias e até físicos teóricos do universo, que nunca tocaram num telescópio.
«Quando começamos em 1988, é inacreditável, mas não havia iluminação pública por perto. Não havia candeeiros, aquelas luzes laranja, não havia nada. Agora existem, mas mesmo assim, a visibilidade, quando temos noites limpas, é melhor do que em qualquer outro lugar da Europa do norte», explica Bev Ewen-Smith ao «barlavento». Durante toda a entrevista, faz questão de falar português com sotaque algarvio.
«No princípio, oferecíamos instalações e equipamentos que eram superiores aos que a grande maioria dos astrónomos amadores tinha. Hoje em dia, com os avanços na tecnologia, os mais avançados já têm material igual ao nosso, que agora tem um nível relativamente humilde», brinca. E quem está interessado na astronomia? «Há muita gente que tem um interesse casual. O problema é que hoje há grandes áreas do mundo ou pelo menos da Europa, em que não se consegue ver nada por causa da poluição luminosa. É por isso que a astronomia não é mais popular», justifica.
«Antigamente toda a gente conhecia o céu noturno. Agora, as crianças perguntam: o que é isso das estrelas? Em Portugal ainda é possível fugir da poluição luminosa. Claro, seria melhor ficarmos numa aldeia deserta do Alentejo, mas a maioria dos nossos visitantes também quer aproveitar as praias» do Algarve «e, por isso, não seria tão atrativo».
E mais. Para Bev, os tempos complicados que a autarquia portimonense atravessou contribuíram para melhorar a qualidade do céu noturno. «Nos últimos anos, com os problemas financeiros de Portimão, o nível de iluminação desceu significativamente. Isto porque, às vezes, os candeeiros falham e como não há dinheiro para os substituir» ficam apagados.
A crise, no entanto, nunca bateu à porta do Centro. «Para nós? Talvez uma queda pequena, mas temos visitantes de todo o mundo e nem todos países foram tão afetados como Portugal».

Aliás, este gigante foi usado na descoberta do asteróide 8225 Emerson, em agosto de 1996, numa altura anterior às pesquisas profissionais e regulares de objetos em órbitas perigosas para a Terra. O crédito foi para um estudante da Universidade de Edimburgo, que, na altura, fazia voluntariado no COAA. Atualmente, o número de asteróides conhecidos ultrapassa os 200 mil. «Que eu saiba foi a única descoberta feita em Portugal», diz Bev Ewen-Smith, doutorado em Física pela Universidade de Cambridge.
O Centro abre no princípio de abril e encerra no final de outubro para descanso e manutenção. Perguntamos qual a melhor altura do ano para mergulhar no cosmos? «Depende. A parte mais luminosa da Via Láctea é visível no verão e no inverno, mesmo por cima das nossas cabeças. Tem enxames de estrelas e nebulosas interessantes. Mas, sendo a nossa própria galáxia, esconde todas as outras», explica. «Excluindo o fator clima, é difícil responder qual a altura mais interessante para explorar o céu. Todas oferecem algo».
Não é obrigatório ser hóspede para ter acesso às observações. «O período normal são duas horas a partir do princípio da noite (astronomical
twilight), normalmente às 21h45, quando o sol já desceu 18° abaixo do horizonte e está escuro. No fim de junho, começamos às 22h30». As noites de lua nova (mais escuras) são reservadas com frequência por pessoas que querem acesso exclusivo aos telescópios.
«Em geral, é necessário acompanhar o que acontece. Nós fazemos todo o setup do material. Mesmo os astrónomos mais experientes não estão familiarizados com os nossos equipamentos. São todos diferentes na maneira de operar e de dirigir. Fazemos toda a preparação e ajudamos os visitantes a aproveitar tudo da melhor maneira. Imagine alguém que quer fazer astro-fotografia, nós vamos otimizar a focagem e a exposição. Temos de programar os computadores para manter os telescópios alinhados. Fazemos toda a parte difícil», explica. «A diferença aqui é que cada pessoa paga 40 euros por noite, incluindo pequeno-almoço. Nos EUA há centros como este, onde se pagam milhares de dólares pela estadia».
«O telescópio maior é o mais difícil de utilizar. Ou seja, quanto maior é o telescópio, menor é a zona visível na ocular. Serve para observar objetos muito fracos. Os telescópios mais simples também são interessantes, porque as pessoas podem operá-los sem a nossa ajuda», compara. «Podemos observar planetas, mas não é a nossa especialidade». O desafio é encontrar as gemas mais ténues do universo.
Além de todo o software especializado, este astrónomo têm sempre à mão os almanaques e guias como o «Burnham’s and Webbs Celestial Handbooks».
«No início deixávamos as pessoas ficarem a noite inteira ao telescópio. Fazia sentido, porque queriam tirar o máximo partido da estadia. Sobretudo os ingleses, que, com sorte, têm uma noite boa para observar por mês». Mas, «ao fim de duas ou três noites sem dormir, ficavam fartos de astronomia e não aproveitavam o dia! Não queremos que fiquem tão cansados e também eu não quero gastar toda a minha energia, porque tenho de trabalhar durante o dia. A verdade é que quase ninguém reclama desta regra das duas horas», brinca.
Bev Ewen-Smith admite que poderia ter mais visitantes exteriores, «mas o problema é sempre o transporte. A maioria dos taxistas não sabe cá chegar. Conhecem a zona, mas estamos bem escondidos numa estrada que segue para lugar nenhum».
Para as observações visuais, chega a ter 12 pessoas na cúpula maior. «É mais interessante em grupo porque cada pessoa vê um pormenor diferente e podemos discutir. Muitas coisas que observamos estão no limite da visibilidade entre uma coisa fraquíssima e o nada absoluto. As pessoas têm que aprender a distinguir ambas». O preço de cada observação é de 20 euros por pessoa e inclui a tutoria.
Num painel de azulejos, Bev mandou pintar um Salmo biblíco, com talvez a questão que o inquieta e que quem o visita levará também consigo: «Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas, que tu criaste: que é o homem para te lembrares dele?»…
Algarve oferece 15 graus de céu extra
À medida que o ano avança, há mais céu para explorar no Algarve do que mais a norte. Por causa da latitude da região (37°N) é possível ver objetos a culminar no horizonte até 53°S de declinação. No Reino Unido, o limite é apenas 38°S. Comparativamente, há mais 15° de céu noturno recheado de objetos interessantes para explorar. Por exemplo, na primavera, a perfeição de Omega Centauri (NGC 5139), o maior e mais brilhante enxame globular (ou aglomerado globular) da Via Láctea é fácil de observar, embora nunca fique acima do horizonte na Europa do norte. Durante o verão, a constelação de Escorpião (Scorpius) surge completa no céu algarvio, enquanto em Inglaterra, apenas é possível observar uma parte. No inverno, mesmo no limite, é possível ver Canopus (Alpha Carinae), a estrela mais brilhante na constelação Carina do hemisfério sul, e a segunda estrela mais brilhante no céu. Teoricamente esta estrela é marginalmente visível apenas na parte sul do Algarve, em condições muito específicas.
Alqueva cria reserva para o céu noturno
A região de Reguengos de Monsaraz, no Alentejo, tem vindo a apostar forte no astro-turismo. Em média, por ano, tem 284 noites límpidas e escuras para observar o universo, em condições semelhantes às dos nossos antepassados, quando batizaram as estrelas e as constelações. As contas são de Apolónia Rodrigues, a principal mentora do projeto Dark Sky Alqueva, criado em 2009. Na prática, trata-se de uma reserva que pretende conservar a qualidade do céu noturno.
«Este é um território com uma área de três mil quilómetros quadrados que integra seis municípios em torno do Lago de Alqueva, no qual desenvolvemos um programa para a sustentabilidade. Entre outras medidas, implementamos ações de combate à poluição luminosa, de promoção da eficiência energética amigável para a astronomia, de proteção do ambiente e de criação e melhoria de uma rede de serviços para os astro-turistas. É o primeiro destino do mundo a obter a certificação Starlight Tourism Destination, pela UNESCO e pela Organização Mundial do Turismo, em dezembro de 2011», explica. Aliada à reserva, há uma série de produtos turísticos pensados para atrair astrónomos amadores, astro-fotógrafos e turistas entusiastas dos segredos do cosmos, vindos de toda a Europa.
«Em termos turísticos, o Alqueva estava vocacionado para o turismo náutico, no grande lago que a barragem formou. Os investimentos para o seu desenvolvimento tardavam, contudo, em surgir. Assim, os empresários locais de turismo rural procuravam uma alternativa, algo que tivesse impacto e criasse atratividade em toda esta zona. Estudámos as tendências de mercado, e o céu surgiu como uma grande oportunidade. Metade da população mundial que vive em cidades e nunca teve acesso a um céu escuro», explicou Apolónia Rodrigues, mentora do Dark Sky Alqueva. Hoje «temos muitas e diferentes atividades noturnas para oferecer. A experiência mais extraordinária é sem dúvida desfrutar da imensidão deste céu pejado de estrelas. É possível fazer uma canoagem à noite com observação astronómica e ceia. Temos uma rota de passeios noturnos pelas oliveiras milenares do Alentejo. Há ainda outros percursos orientados para a observação de fauna noturna, como raposas, por exemplo. Recomendamos ainda os passeios a cavalo e as provas de vinho, night harvest, atividades que podem ser feitas com céu escuro ou com lua».
«Uma das ferramentas mais importantes que temos usado para promover o Dark Sky Alqueva é o trabalho do nosso astro-fotógrafo oficial. As imagens captadas pelo Miguel Claro têm corrido o mundo através de publicações internacionais de astronomia. Mostram a beleza da nossa paisagem e do nosso céu criando empatia e desejo de o visitar», disse Apolónia Rodrigues ao «barlavento». No futuro, «queremos desenvolver outros projetos complementares, como o Parque do Céu e dos Lugares Místicos, dedicado à arqueoastronomia».
Ciência traz turismo ao Alentejo
O recém-inaugurado Observatório do Lago Alqueva mostra bem o investimento que está a ser feito no Alentejo no astro-turismo. Localizado na Cumeada, é um investimento privado considerável por parte da Biosky, uma empresa que nasceu no âmbito do projeto Dark Sky Alqueva. Funciona em pleno desde junho, com uma equipa técnica residente e o apoio regular de um astrofísico. Vai estar aberto durante todo o ano e promete envolver «quer a população, quer as escolas».
«Dispõe de telescópios profissionais de última geração. Temos a possibilidade de fazer as observações no campo, com os nossos guias do céu certificados, mas nas plataformas ao ar livre, com binóculos ou no interior, com o equipamento sofisticado», que estará ao dispor dos visitantes. A nível científico, «contamos com o apoio de várias organizações, quer públicas, quer privadas, como a Associação Portuguesa de Astrónomos Amadores. Contamos com o apoio dos empresários locais, que permitiram implementar a primeira rota do céu e os primeiros Guias do Céu certificados. Mas também temos o apoio de vários experts que nos permitiram atingir o atual estado de desenvolvimento, como a Universidade de Évora, o Centro de Astrofísica da Universidade do Porto, o Centro Português de Iluminação, o Planetário Calouste Gulbenkian, entre muitos outros», explicou Apolónia Rodrigues.


