Fernanda Melchor escreve sobre e a partir de um sítio há muito desaparecido, antes de haver tudo à disposição e nada havia para fazer além de usar a imaginação.
Procurávamos OVNIs no céu, imaginando extraterrestres a avisar-nos isto não pode continuar, cansados de ver pelicanos afogados em petróleo e guerras idiotas, até nos fartarmos e desistir como desistimos da banda de garagem, outrora a nossa favorita, por se ter tornado famosa, pois o interesse dos outros determinava a perda do nosso.
Algures entre o jornalismo e a ficção, sem se sentir na obrigação de escolher, em Isto não é Miami, a autora mexicana Fernanda Melchor, propôs-se a contar da forma mais honesta possível, histórias que ilustram a forma como o narcotráfico interfere com o rosto de uma cidade.
Embora carregue vestígios do seu espírito, o México milenar de Melchor não é a Argentina do séc. XX de Borges, mas as figuras reais destes contos realistas, impregnados de cocaína, onde piropos a empregadas de mesa convivem com desempregados à procura de trabalho no cais, seitas anarco-satânicas e clandestinos como os de Lampedusa, poderiam facilmente ser a continuidade do universo dos contos borgianos, cuja fatalidade é a da inescapável sobrevivência das classes baixas.
São personagens simultaneamente enrijecidas sem perder o sentimentalismo, confundindo possessões demoníacas com bad trips, homens com alma de estivador e coração de trovador, vivendo sob o mote work hard, party harder e reduzidos ao único sonho possível: ser narco, por nada mais haver.
Surgem no centro assombrado de uma Veracruz na viragem do milénio, cada uma com o seu léxico próprio, jamais desligado do tom comum, constante em todas as histórias, onde os acontecimentos se sucedem em cadeia, terminando inevitavelmente em tragédias maiores do que as anteriores.
Habitam invariavelmente lugares onde os criminosos não são tão criminosos como os detentores do poder, denunciando o contrato social como bluff, pois no quotidiano é dessa forma que surge.
E no fim do dia, o que resta é a festa e qualquer pretexto serve.
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Fernanda Melchor
Penguin
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Hugo Filipe Lopes (Cobramor)
Autor. Tradutor. Editor.
Antitudo.
Copy criativo. Sociólogo.
O necessário para um precário