Reforçar a ligação à Ria Formosa e afirmar o Real Marina Hotel & Spa, em Olhão, como referência turística associada a um dos mais importantes patrimónios naturais do Algarve, é a missão do diretor Jorge Neves, que ocupa o cargo há cerca de um ano.
barlavento: Desde quando está no Real Marina Hotel & Spa e o que encontrou quando chegou? O que já mudou sob a sua direção?
Jorge Neves: Cheguei no início deste ano, após um convite da administração para abraçar um novo desafio. Para mim foi muito estimulante, porque implicou também uma mudança de vida. Vivi muitos anos em Lisboa e mudar-me para o Algarve era um sonho que tinha. Encontrei um hotel com uma equipa incrível, que me acolheu muitíssimo bem. Muitas das mudanças que já implementámos, e que hoje são um sucesso, devem-se claramente à equipa. Receberam-me de forma extraordinária e perceberam rapidamente a visão que tenho para esta unidade.
A sua principal ideia passa por afirmar o Real Marina como o hotel «oficial» da Ria Formosa, certo?
Sem dúvida. Trabalho neste grupo há 17 anos e não foi a primeira vez que visitei este hotel. Sempre achei que a Ria Formosa era uma das grandes maravilhas de Portugal. Este hotel tem vários fatores diferenciadores, mas a Ria Formosa é claramente o principal. Esta paisagem tem de ser o grande ativo do Real Marina. Queremos que a Ria seja uma extensão do hotel e que o hotel seja uma extensão da Ria, permitindo aos nossos hóspedes conhecer e desfrutar deste património natural, sempre com uma forte componente de sustentabilidade.
Isso passa por criar experiências ligadas a esta zona única?
Existe um enorme sentido de pertença neste hotel, tanto em relação à Ria Formosa como à cidade de Olhão. Temos muito orgulho na nossa identidade local e promovemo-la de várias formas. Organizamos visitas ao mercado de Olhão, passeios na Ria Formosa, sunsets, experiências gastronómicas com ostras, visitas às salinas, percursos ligados às lendas da região e muitas outras iniciativas. Todas têm um ADN profundamente local. O objetivo é transformar a estadia dos nossos hóspedes numa experiência autêntica, permitindo-lhes viver aquilo que esta região tem de único.

Tem sido um desafio vender a Ria Formosa junto dos turistas? Afinal, não tem a notoriedade de destinos como Vilamoura ou Praia da Rocha.
A Ria Formosa é, precisamente, o nosso fator diferenciador. Naturalmente, muitos clientes procuram praia e nós não somos um hotel em frente ao mar, daqueles em que se sai a pé para a praia. Isso cria desafios interessantes. Mas conseguimos equilibrar essa realidade através do posicionamento do hotel e da forma como contamos a nossa história. Temos praias extraordinárias do outro lado da Ria, que considero das melhores de Portugal. São praias com uma beleza natural incrível, pouco massificadas e muito autênticas.
Ao mesmo tempo, mostramos que o Algarve é muito mais do que praia. Há destinos onde o golfe e os grandes eventos estão fortemente consolidados. Nós queremos afirmar-nos através de uma oferta diferente, assente na natureza, na gastronomia, na cultura local e em experiências únicas. O birdwatching é um excelente exemplo. A migração das aves é um fenómeno extraordinário e procuramos comunicar esses momentos como parte da experiência que oferecemos.
Parte dessa estratégia passa também pela gastronomia e pelo Marina com Noélia?
A oferta gastronómica de Olhão cresceu muito e creio que estamos muito bem posicionados. A parceria com a chef Noélia Jerónimo foi uma escolha muito natural. A visão gastronómica que temos para o hotel encaixa perfeitamente na sua filosofia de cozinha. Estamos prestes a entrar no terceiro ano desta parceria. A Noélia representa muito daquilo que queremos valorizar: orgulho no Algarve, ligação à Ria Formosa, produtos frescos, sazonalidade, peixe e marisco de excelência. É um encontro muito feliz entre duas visões que partilham os mesmos valores.

Como pretende aprofundar esse caminho?
Se o Real Marina pretende afirmar-se através da Ria Formosa, dos Mercados de Olhão, dos produtos frescos e da identidade local, então, isso deve refletir-se em toda a nossa oferta gastronómica. As cartas de snacks, os menus para eventos, os banquetes, os casamentos e os batizados devem incorporar cada vez mais os sabores da região. Estamos também a reforçar essa estratégia com a chegada do chef Pedro Arranca, que acaba de integrar a equipa. É um profissional com experiência em várias unidades hoteleiras de referência a nível nacional e desenvolveu também projetos próprios na restauração. O seu percurso e a sua visão gastronómica encaixam perfeitamente no caminho que queremos seguir. Tem uma forte ligação ao peixe, ao marisco e aos produtos frescos, que são precisamente os pilares da identidade gastronómica que estamos a construir.
Como está o hotel este ano em termos de procura?
Temos um equilíbrio de segmentos e mercados que nos permite combater parte da sazonalidade, que continua a ser um dos grandes desafios do Algarve. Trabalhamos com diferentes segmentos, diferentes nacionalidades e diferentes níveis de produto. O ano está a decorrer em linha com aquilo que tínhamos perspectivado. Existe, contudo, um abrandamento face aos ritmos de crescimento que o setor registou nos últimos anos. O contexto macroeconómico internacional, a instabilidade geopolítica, o aumento dos custos de vida e dos combustíveis têm impacto no comportamento dos consumidores. Ainda assim, graças às estratégias que temos implementadas, estamos a cumprir os objetivos definidos para este ano.
Portanto, não há uma quebra preocupante?
Não. O que verificamos é um crescimento menos acelerado do que aquele a que o setor se habituou nos últimos dois ou três anos. É uma realidade que resulta sobretudo de fatores externos.

Considera que este hotel é competitivo no segmento em que se insere, sobretudo com tanta oferta na região?
Considero. A proximidade ao Aeroporto de Faro é uma vantagem muito importante para nós. Naturalmente, existem grandes grupos internacionais presentes no Algarve com outra dimensão e outra capacidade de investimento, mas considero que o Real Marina é um hotel bastante competitivo. Temos uma boa capacidade de alojamento, uma componente muito forte para eventos, com salas que permitem receber mais de 600 pessoas, distribuídas por três pisos, spa, uma oferta gastronómica diferenciada, zonas exteriores atrativas e uma localização privilegiada. Tudo isso cria um produto bastante equilibrado.
O facto de terem apartamentos também ajuda a diferenciar a oferta?
Muito. Temos não apenas quartos de hotel, mas também apartamentos, o que nos permite responder a diferentes perfis de clientes. Conseguimos servir tanto quem procura uma estadia mais tradicional de hotel como quem prefere um modelo self-catering, com apartamentos que vão de um a três quartos. Isso é particularmente importante para famílias e para hóspedes que pretendem estadias prolongadas. É um segmento muito procurado, sobretudo por mercados do Norte da Europa e pelo mercado britânico. Nos apartamentos chegamos a ter estadias superiores a 40 dias, especialmente durante a época baixa.
Ou seja, são clientes que procuram passar o inverno no Algarve?
Exatamente. Muitos destes hóspedes vivem em países com condições climatéricas mais exigentes e procuram o sul da Europa durante os meses mais frios. O Algarve oferece um clima muito agradável e isso torna-se um fator decisivo. É um segmento que trabalhamos muito bem e que ajuda a reduzir os efeitos da sazonalidade.
A ligação às ilhas-barreira é uma componente importante da experiência dos hóspedes. Como funciona essa oferta?
Trabalhamos há muitos anos com Ricardo Badálo e a empresa Passeios Ria Formosa, que é um parceiro estratégico do hotel. Dispõe inclusivamente de um balcão no próprio hotel, o que facilita muito o contacto com os hóspedes. Temos soluções para diferentes perfis de clientes, desde bilhetes individuais para passeios regulares até experiências totalmente personalizadas.
É possível criar programas à medida de cada cliente, por exemplo, para grupos, empresas ou eventos privados?
Absolutamente. Podemos organizar desde um simples passeio para um casal até ao aluguer exclusivo de uma embarcação durante um dia inteiro. Em conjunto com o nosso parceiro, desenhamos experiências totalmente personalizadas, adaptadas aos interesses de cada cliente. Essa flexibilidade é uma das grandes mais-valias da nossa oferta.
Recordo-me de lhe ouvir dizer que este hotel tinha sido muito bem pensado. Mantém essa opinião?
Mantenho. As áreas públicas foram bem desenhadas, os espaços são confortáveis e existe uma sensação permanente de tranquilidade. Naturalmente, a vista sobre a Ria Formosa ajuda muito, mas acredito que a experiência global proporcionada pelo hotel é extremamente positiva.
Este hotel, contudo, é frequentemente associado a um público de faixa etária mais elevada. Pretendem atrair clientes mais jovens?
Sim, queremos continuar a atrair públicos mais jovens, mas a verdade é que as faixas etárias variam muito ao longo do ano. Na época baixa, sobretudo nos apartamentos, recebemos muitos hóspedes do Norte da Europa e do Reino Unido que permanecem connosco durante longos períodos. Naturalmente, trata-se de um público mais sénior. À medida que nos aproximamos do verão, o perfil dos clientes altera-se. Começamos a receber mais famílias e mais crianças. Temos um kids club, animadores e um conjunto de atividades adaptadas aos diferentes públicos. Procuramos que a experiência seja adequada a todas as idades, independentemente da época do ano.
Se pudesse mudar uma coisa, qual seria?
Talvez aumentasse um pouco a piscina. É uma piscina muito bonita e agradável, mas, se pudesse ser ligeiramente maior, seria perfeito. Fora isso, considero que continua a responder muito bem às expectativas dos nossos hóspedes.
Falou também da sustentabilidade como uma prioridade. O que está a ser feito nessa área?
É uma enorme responsabilidade de toda a indústria do turismo e da hotelaria. Os hotéis têm um impacto significativo ao nível do consumo de recursos e da produção de resíduos. Por isso, temos de assumir um papel ativo nesta matéria. Já implementámos várias medidas e continuamos a trabalhar diariamente para reduzir a nossa pegada ambiental.
Que medidas concretas estão a ser adotadas?
Procuramos privilegiar produtores locais e fornecedores de pequena dimensão, reduzindo cadeias de transporte e promovendo a economia da região. Temos também várias iniciativas relacionadas com a gestão da água e com os processos de lavandaria. Mas existe outro aspeto muito importante: envolver os hóspedes. Tentamos explicar aos clientes que eles também podem fazer parte da mudança. Um exemplo simples é a reutilização das toalhas. Se utilizamos uma toalha uma única vez em casa, normalmente não a colocamos para lavar de imediato. Nos hotéis devemos promover a mesma lógica. Quando os hóspedes compreendem que estas medidas fazem parte de um compromisso ambiental sério, tornam-se parceiros dessa mudança.
O facto de estar junto uma zona húmida sensível aumenta essa responsabilidade?
Claro. A Ria Formosa é o principal ativo deste hotel e isso traz-nos uma responsabilidade acrescida. Somos um dos principais embaixadores turísticos desta zona e devemos utilizar essa visibilidade para colocar as questões da sustentabilidade na linha da frente. Não basta promover a Ria Formosa. Temos também de contribuir para a sua preservação.
Quantas pessoas emprega atualmente?
Aproximadamente 120 colaboradores. Temos um rácio de pessoal equilibrado para a dimensão do hotel e para o volume de clientes que recebemos. Conseguimos manter níveis de serviço compatíveis com aquilo que os hóspedes esperam e, ao mesmo tempo, assegurar a sustentabilidade do negócio. O equilíbrio entre qualidade de serviço, eficiência operacional e rentabilidade é essencial.
Como é visto o Real Marina dentro do grupo?
Tem uma história muito interessante. Acabou de completar 16 anos. Quando o grupo decidiu avançar com um hotel de cinco estrelas em Olhão houve opiniões muito diferentes. Algumas pessoas elogiaram a ousadia do projeto. Outras consideraram que era uma aposta demasiado arriscada. Mas a verdade é que sempre acreditámos neste produto e neste destino. Ao longo dos anos, tem apresentado indicadores de crescimento muito sólidos e consistentes dentro do grupo, o que nos dá enorme satisfação.
Acha que pode vir a ser a joia da coroa da marca?
Acho que tem potencial para isso. Felizmente, o Real Hotels Group tem unidades extraordinárias. Temos o Grande Real Villa Itália Hotel & Spa, em Cascais, que é uma referência histórica do grupo, e temos também o Grande Real Santa Eulália Resort & Hotel Spa, em Albufeira, que é um produto de enorme prestígio. A concorrência interna é saudável e estimula-nos a melhorar continuamente. Se será ou não a joia da coroa, o futuro o dirá. O que posso dizer é que este hotel ainda tem muito espaço para crescer e para se afirmar como uma referência nacional.

Existe competição entre os vários hotéis da insígnia?
Existe uma competição saudável e informal. Mas, acima de tudo, existe partilha. Partilhamos experiências, boas práticas e conhecimento. Essa colaboração entre diretores e equipas é uma das grandes forças do grupo.
Há oportunidades de progressão de carreira?
Eu próprio sou um exemplo disso. Este é o quinto hotel onde trabalho dentro da empresa. Temos vários casos de colaboradores que começaram como estagiários e hoje ocupam cargos de responsabilidade. Quando identificamos talento, dedicação, humildade e vontade de aprender, procuramos criar oportunidades de crescimento. Faz parte da cultura do grupo.
Como é a relação desta unidade com as escolas de hotelaria e turismo e com a Universidade do Algarve?
É de grande proximidade. Temos consciência de que as escolas representam o futuro da nossa indústria. O setor enfrenta dificuldades ao nível da mão de obra e precisamos de continuar a atrair novos profissionais. Por isso, procuramos manter uma relação muito próxima com os estabelecimentos de ensino. Ainda há pouco recebemos uma visita de estudo de cerca de 30 alunos. Tiveram oportunidade de conhecer o hotel, visitar as diferentes áreas e conversar connosco sobre oportunidades de estágio e de emprego. A colaboração tem de funcionar nos dois sentidos. As empresas precisam das escolas, mas as escolas também beneficiam de conhecer as necessidades reais do setor. Vivemos um período de grande transformação tecnológica e é importante que os conteúdos acompanhem essa evolução.
Está a referir-se, por exemplo, à Inteligência Artificial (IA)?
Sim. A IA está a entrar em praticamente todas as áreas de atividade e a hotelaria não é exceção. O grupo percebeu há bastante tempo que esta era uma área estratégica e tem investido em várias ferramentas digitais. Hoje conseguimos monitorizar praticamente todas as áreas do negócio, desde as vendas à manutenção, passando pelas compras, gestão de equipas e operação diária.
Isso significa menos pessoas e mais tecnologia?
Não. O objetivo não é substituir pessoas. O objetivo é aumentar a produtividade, melhorar a eficiência e permitir que as equipas se concentrem naquilo que realmente acrescenta valor ao cliente. A tecnologia deve servir para apoiar as pessoas e para tornar os processos mais eficazes. Esse será, seguramente, um dos grandes desafios da hotelaria nos próximos anos.



