Começo o texto com uma frase que ouvimos durante uns tempos, a propósito dos desmandos da nossa governança. Como desses já muito se tem falado, apesar de estarem na origem de muitos dos males que nos afligem, não vou por aí. Hoje quero pegar na maior ameaça que a economia algarvia enfrenta, a par da exploração de hidrocarbonetos. O famigerado modelo hoteleiro «Tudo Incluído».
Há uma procura, grande, por este modelo, não nego isso. São as «tendências». É um modelo que serve para países com problemas de segurança, de saúde pública, de abastecimento de água. Países onde sair de um resort e ir conhecer a aldeia mais próxima é perigoso. Onde ir a um restaurante é perigoso. Países onde sair do resort e comprar água em qualquer lado é perigoso.
Nada disso se aplica ao Algarve. Somos um país seguro, a nossa água, mesmo da torneira, é potável e de boa qualidade, os restaurantes recomendam-se, e os passeios de descoberta impõem-se. Acordar com pequeno-almoço à beira da piscina, almoço junto ao mar, jantar na serra, jogar golf sobre arribas com o Atlântico como pano de fundo ou a olhar para o Guadiana são experiências possíveis. Ou então, experimentar a beleza selvagem da Costa Vicentina ou as águas cálidas de Monte Gordo. Esta excelência do Algarve comprova-se pelos inúmeros prémios atribuídos à região nos últimos anos.
Somos o melhor destino da Europa. O turismo no Algarve não é um turismo que precise de redes de arame farpado e guardas armados às portas dos resorts. Na Grécia também não era preciso. Mas insistiram no modelo «Tudo Incluído» em inúmeras ilhas.
Peguemos no exemplo de Creta. O efeito eucalipto gerado por este tipo de empreendimento turístico conduziu ao encerramento da maioria, grande, da oferta de bares, cafés e restaurantes da ilha. Negócios estes que empregavam famílias inteiras, que são a base da economia local, que gera riqueza e paga impostos localmente. Que assegura a existência de vilas e aldeias.
O Algarve oferece uma oferta imensa, rica, fantástica, o nosso modelo não deve, não pode, ser esse. O «Tudo Incluído» não gera riqueza, não gera empregos, é inimigo da economia algarvia e dos algarvios. Destrói todos os negócios à sua volta, insiste num modelo baixo preço, de parca escolha, que em nada nos interessa. É inimigo da nossa excelência. O nosso turismo deve assentar noutra premissa, a da criação de riqueza, de produtos de alto valor acrescentado.
A experiência turística no Algarve não é, sequer remotamente, parecida com a dos resorts dominicanos ou mexicanos. É outra coisa. Para mim, esta é a maior ameaça que hoje enfrentamos enquanto algarvios, à nossa prosperidade. Todos, enquanto comunidade, temos de refletir sobre que modelo económico queremos. Isso apenas será possível fazer se todos contribuírem.
Concelhos que andam há décadas de costas voltadas, operadores, empresários, hoteleiros ou não, enfim, todos aqueles que aqui vivem e trabalham têm de assumir, de uma vez, que a comunidade algarvia tem de se entender e funcionar como uma entidade que partilha interesses comuns. Porque se não o fizermos, ninguém o vai fazer por nós.
Opinião de José Eduardo Sousa | Militante do CDS