Foi com honrada satisfação e enorme orgulho, mas ao mesmo tempo com extrema cautela que aceitei este generoso convite do meu bom amigo e excelso jornalista Bruno Filipe Pires para a elaboração duma pequena historia do nosso tão estimado e ilustre Aeroporto de Faro. Digo “cautela” pois sinto um bocado nos ombros o fardo de não querer ser nem maçudo nem demasiado simplório, para mais agora que a Meca da aviação a sul do Pais comemora o seu meio século de gloriosa existência.
Apesar de ser o meu local de trabalho desde 1992, primeiramente na versão OTL – os tais famosos programas que haviam nos 80’s e 90’s para os mais jovens (Frutos da então CEE)-, e se calhar ainda hoje podem perdurar com outro nome qualquer (confesso não ter a certeza), passando ainda como colaborador do Aeroclube do Algarve, Técnico- Oficial de Placa na então TAP-Handling, ate aos Serviços de Operações Aeroportuárias, onde hoje laboro desde Outubro de 1997, na empresa ANA-Vinci, já desde muito cedo que sentia ser este espaço da cidade de Faro, e do Algarve em si, a minha segunda casa, alem duma enorme paixão nutrida e carinho muito especiais.
As minhas primeiras recordações remontam talvez a uns meados dos 70’s. Era com um grande brilho nuns olhos de menino nos seus 4 a 5 anitos, e que ainda ecoam pelos confins mais recônditos do meu limiar mental, que observava apaixonadamente as silhuetas tão características dos nossos esbeltos e saudosos Caravelles da TAP, ou Caravelas, assim baptizados apos recepção na companhia lusa, o barulho bem vincado dum Trident duma BEA ou ate um nostálgico Comet da Dan-Air com o seu tão bem vincado arrastar da rotação à descolagem.
Destas alturas recordo-me francamente bem dos dois Constellations e um Dakota semi-abandonados, fruto da triste e sanguinária Guerra do Biafra, durante a qual o nosso AFR ainda serviu uns bons anos como placa giratória de aeronaves e respectiva maquina logística e humana… havia até uma expressão nos Farenses que moravam perto da zona da Arábia (nome do terreno onde fora inaugurado em 11 de julho de 1965 o nosso querido aeroporto) que quando se ouvia um barulho de avião a hélice nos anos seguintes ainda se costumava dizer “Olha, la vai um pr’ó Biafra”… lembro-me bem disto!
Desde estes 5 aninhos ate talvez à altura que tirei a carta em 1991, foram poucos os fins de semana que o meu Pai não me levava ao Aeroporto para eu ver os “meus” aviões. Sim, era como que uma acção de graças obrigatória e sentia-me profano se o não fizesse para a seguinte semana de escolinha que se iniciava logo após esses passeios de Domingo. Verdade, os meninos da minha rua jogavam ao berlinde e à bola, eu deliciava-me com os meus 707 da TEA, 737 da Britannia e Caravelles da Sterling.
Ou como amiúde o dizia, se não fosse ou num Sábado e/ou num Domingo ver os “meus aviões” já sabia que aquela semana me iria correr mal. O papá lia o jornal, a mamã umas vezes ficava por casa, outras levava o seu estojo e tão bem recordada com saudade aquela sua caixinha da costura, e la ia fazendo as suas rendas, tricots e crochets enquanto este fedelho pequenote se deliciava a ver aterrar e descolar DC8’s da KLM, 707’s da British Airtours, DC10 da Laker, etc, e por detrás deles num montinho situado num ponto onde hoje seria mais ou menos o stand 18, controlava também nas minhas costas, em alturas de inactividade aérea e com uma enorme vontade de rir, os respectivos maridos ensinando as suas esposas a conduzir, qual Carrocel Mágico, num vasto recinto empoeirado que servia basicamente só nas épocas altas para la colocar alguns carros de aluguer das Rent-a-Cars, onde se situa mais ou menos o Terminal 1 hoje em dia… enfim, outros tempos e tão bem recordados na esfera temporal, que não voltam mais.
Era tudo tão belo, tão puro e simples. Muitas vezes devido á proximidade que estava da placa e com o sopro dos reactores apontando para esse já falado “montinho” onde eu “vivia” horas a fio, -uma espécie de encruzilhada onde todos os caminhos do aeroporto iam dar-, não era rara a vez que após me ir colocar mesmo atrás dum arranque dum DC8 ou Boeing 707, chegasse a casa e tivesse de mudar de camisa/blusa, pois o pivete a Querosene-Jet A1 incrustado na minha roupa era notado à distancia pela senhora dona Mãe… eu cá gostava, era o meu perfume…de resto mais ninguém achava piada (nunca o soube bem porquê)??
Haviam dias de verdadeira romaria, ás vezes ate a meio da semana e da escolinha, vulgo as manhas de segunda e tardes de sexta devido a serem estes os dias que vinham os primeiros Boeings 747 JumboJet a Faro, respectivamente os da KLM com o seu azulinho tão belo e inconfundível, tal como inconfundível era o gigante trevo branco a fundo verdinho nos Jumbos da irlandesa Aer Lingus, estes os das sextas.
Outros dias que para mim era bem especiais e onde o nosso AFR-Aeroporto de Faro vibrava de energia e brutal actividade, eram aqueles dias em que Lisboa fechava devido a mau tempo ou nevoeiro e vinham parar ate Faro “pássaros” raros que eu so conhecia por ver na TV e revistas… sim, porque nos 70/80’s não havia internets e afins.
Era puro e duro, mas com muita dedicação…basicamente, era esperar para ver o que me poderia sair na rifa, tipo pescador na mordidela do isco.
Tantas mas tantas vezes mesmo estava eu na minha quentinha cama, plena invernia e ali pelas 4 e pico, 5, 6 e 7 da manha começava a ouvir o tão saudoso, magico e imperial silvo dos reactores dos 707s, sinal de que Lisboa estava fechada e iríamos pelo menos
ter ate hora de almoço um dia festivalesco de aeronaves raras abarrotando a modesta placa ate aos caminhos de circulação do nosso Aeroporto. Eram esses TAPs todos que principalmente vinham dos “mil e um origens/destinos” que outrora ainda tivemos em África, tais como Congo, Zaire (então), Zâmbia, Zimbabwe, etc etc…
Obviamente pelas 8h00 da matina já eu estava a pé ao lado da caminha dos papás implorando a sagrada ida ate ao aeroporto…e bolas, que bom e belo era ver SP’s da SAA, 707s da TAAG, 747 da Iraqi Airways no seu estonteante e catita verdinho, DC10 da SAS e LAM, L1011 da TWA, DC8 da Viasa e CPair, um ou dois Varigs-Cargo e de passageiros, entre tantos outros.
Lembro-me tão bem já nos meados dos 80’s num dia de nevoeiro em Lisboa quando vi pela primeira vez a “olho vivo” e presente eu no aeroporto, um aparelho soviético, desta vez um Tupolev 154 da Romena TAROM. Já agora a título de curiosidade o primeiro Tupolev a aterrar em Faro, fabrico soviético como atrás referi, foi um mais pequeno mas robusto, um Tupolev 134 Jugoslavo, duma companhia chamada Aviogenex numa escala a caminho das Canárias, isto se não estou em erro por voltas de 1983.
Vi-o a meio de um teste de matemática da minha janela algures numa sala virada para a pista, da Escola Secundaria. João de Deus. Ate que chegava o tão saudavelmente relembrado e grandioso Verão de 1985! E isto porquê, perguntai vós? Começava na Primavera desse ano de 85 um dos maiores Booms de que há memoria na historia do nosso aeroporto.
Sucessivamente atá meados desse Verão eram cada vez mais as companhias estreantes em Faro, principalmente e originado pelo também enorme aparecimento de novas charters britânicas, aliadas a diversos e muito variados tour operators de terras de Sua Majestade. Britânicas e não só, seja dito por abono da veracidade.
Algumas dessas referidas companhias não viriam a durar mais dum par de anos, por vezes ate menos, mas ao menos operavam para Faro enquanto que “curtinhas e vivas”.
Outra coisa também bastante curiosa na historia do nosso aeroporto era o facto de quase sempre que se estreava uma qualquer companhia charter que fosse aqui no nosso velho continente, um dos destinos estreantes englobava quase que como obrigação Faro, isto já para não falar nos modelos de aviões nas frotas quando acabadinhos de receber. Por exemplo, o primeiro voo dum 737-300 feito na Europa foi entre Londres e Faro, operado pela Orion, 757 da Air Europe e Monarch ambos se estrearam na Europa da Grã-Bretanha para Faro, um MD11 da Finnair tambem se estreou entre Helsínquia e Faro, etc.
Os dias de semana basicamente eram tipificados por Mercados/Países, desde os 1970’s até hoje, mas bem vincados nestas alturas de 1980’s, 1990’s e inícios dos 2000’s. Segundas = Holanda e Escandinávia, Terça = Escandinávia, Quarta = a chamada “Invasão” Germânica, Quinta= De novo uma invasão mas britânica e por fim as sextas maioritariamente divididas entre Irlanda, Holanda e Bélgica. Os fins de semana esses sempre foram uma mescla de tudo um pouco mas em dose extra.
Haviam aviões que nestas alturas eram autênticos Cavalos de batalha a nível de transporte, como que os Troianos para os turistas, destacando aqui o Boeing 757, 737, Bac111 e o sempre saudoso Lockheed L1011 Tristar.
Muitas vezes quando o vento soprava dos lados do aeroporto para a cidade de Faro, sabíamos logo que estava um Tristar a “lançar” motores na placa pois o seu zumbido abafado e vibratório fazia ecoar a cidade inteira.
Anos antes dizíamos isso dos 707 e DC8, não devido ao ruído e vibrações, mas sim ao tão saudoso, e bem “saudável” (ao menos para mim), cheiro a querosene/JETfuel puro que estas maquina emanavam aquando do lançamento dos motores chegando bem à cidade, sendo muitas vezes visíveis a olho nu chamas por detrás aquando da respectiva ignição dos 4 reactores um por um.
Ao longo dos anos, Faro também recebeu aeronaves bastante peculiares, tais como o Magnânime Concorde duas vezes (Air France nos 70’s e o da BA nos 90’), o Gigante C-5 Galaxy da USAF umas 3 ou 4 vezes e o também gigante russo Antonov 124 da Polet Airlines em 2001 trazendo uma “perfuradora” gigante que depois iria via terrestre para as minas Neves-Corvo, entre outros.
A titulo de curiosidade Faro sempre manteve uma estreita relação para mais nas décadas
de 80 e 90 com a Royal Air Force (RAF).
Haviam semanas muitas vezes seguidas, devido a mau tempo em Gibraltar e respectiva divergência para cá, ou mera escala já programada, onde recebiamos inúmeros aparelhos de RAF, desde Bombardeiros a Helis pesados Chinook, Canberras a Tornados, desde Bucaneers a Jaguars e Hunters, desde Nimrods a Hércules, e por aí.
No entanto e apesar de nos finais dos 80’s termos assistido pelo menos ao aparecimento de três novissimas companhias nacionais baseadas em Faro, a Air Atlantis, a Air Columbus e a Air Sul, todas elas operando com Boeing 737 (somente a Atlantis também teve também o 727 e o 707 e a Columbus o 727), ao fim duns aninhos e devido maioritariamente à crise que atravessava a Europa, em parte devido à primeira Guerra do Golfo, fazendo disparar preços e tabelas dos barris do oiro negro, todas elas e a par de muitas outras estrangeiras, viriam a sucumbir e ver as suas operações infelizmente findas.
Além destas três nacionais, pelo menos, duas gigantes britânicas também tombavam caso das Air Europe e Dan-Air-London. E tal como hoje em dia, outras “fundiam-se” irmanamente numa só.
Mas com umas que iam la vinham aparecendo outras novas…era uma realidade diferente de hoje em dia, o conceito LCC-Low cost carrier ou LF-Low Fare ainda somente era conhecida na Europa através do ensaiado projecto Skytrain, e que bem vingou no Atlântico Norte, autoria de Sir Freddie Laker e a sua tão famosa e saudosamente nostálgica na aviação, a Britânica Laker Airways.
Tirando isso o conceito de ferias na Europa remontava basicamente aos ITC-Inclusive Tour Charters e daqui e dali a um ritmo de aparecimento infernais, mas que como já atrás referi, muitas delas só faziam “meia dúzia” de voos e fechavam logo.
Importante salientar um mercado que basicamente sempre se manteve fiel a Faro. Falo do Canadá e que desde os seus DC10 da extinta e laranjinha CPair às quartas feiras de 1983, ate hoje sempre (e se a memoria não me atraiçoa) se manteve fiel todos os anos desde aí ao nosso AFR, com várias aeronaves e companhias diversas tais como os actuais Airbus 310 da conhecida Air Transat ao tempo dos saudosos e idos velhotes DC8’s da Nationair e WorldwaysCanada, num mero par de bons exemplos.
Tal como os voos canadianos que ainda hoje se mantém, mas em menor numero, no inicio dos 2000’s tivemos ainda uma excelente aposta de turismo de leste desde voos diários para a Polónia e República Checa e ainda algumas origens/destinos como Rússia, Hungria e Republicas Bálticas.
Num desses Verões chegámos mesmo a ter operando numa base semanal umas seis companhias russas diferentes para/de vários destinos desde Moscovo a São Petersburgo, e ainda voos semanais para Kiev na Ucrânia.
Nesses anos de pico dos 80/90s também era presença comum pelas madrugadas de sábado, domingo e segunda muitos voos da Irlandesa AerLingus, que durante o dia operava as suas aeronaves nas rotas regulares, e nas noites de/para Faro.
Mas viriam os anos 2000’s e com eles numa nova filosofia Europeísta o encerramento do nosso aeroporto entre as 00:00 horas e as 6h00 da manhã, apanágio das novas mentalidades e dicotomia sociedade versus aviação baseando os seus alicerces em recentes conjecturas aeronáuticas pertencente à Velha Europa… e com ele viriam as Low Costs, as Low Fares, e ir-se-iam embora aos poucos e poucos as famosas ITC e Charters, que foram o fruto e sumo dos movimentos do nosso AFR desde as primeiras décadas, se bem que algumas ainda se vão mantendo numa base de grupo tal como a TUI e a Thomas Cook, por exemplo.
A Placa não mais resplandecia com a multi-facetada e alegres imagens de caudas de varias cores, companhias, nacionalidades, na medida em que nos afastávamos desses gloriosos anos.
Hoje em dia, e num contexto pós-9/11, numa base semeada na doutrina Low Cost tudo quase mudou…Temos Ryanair, EasyJet, Air Berlin, Transavia, Aer Lingus, Monarch, e algumas mais, tendo mesmo uma mão cheia destas e de outras tentado uma ousada aproximação aos moldes LCC, sacrificando por vezes o seu bastião tão próprio e histórico de Flag Carrier e Charter (ITC) Carrier.
Mas a aviação tal como tudo na nossa Sociedade tem as suas próprias sinergias, e numa Europa actualmente despida de poder de compra em larga escala, é normalíssimo o enorme triunfo do fenómeno (low-cost carrier).
Mas a aviação é como sempre foi, é e certamente o será, uma extensão da própria sociedade onde se insere, do seu país, continente, e para a nossa tão bela região algarvia, ilustra-nos com tudo isso o nosso querido e importante Aeroporto Internacional de Faro, que a dia 11 deste mês comemora a bonita idade de meio século.
Muitos Parabéns com muita Aviação e por muitos, longos e vastos Anos!!!
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Cesário Fernandes, 44 anos, natural de Évora, tirou o curso de piloto comercial em Tires. Trabalha no Aeroporto de Faro desde 1992. É um grande entusiasta e estudioso da aviação.