O tema da exploração de gás ao largo da costa sul de Portugal é visto por muitos num registo de tio Patinhas com símbolos de euros nos olhos e a nítida noção de que este será o caminho para trazer receitas e influência para o país a ponto de nos sentarmos à mesa com os países mais ricos do mundo.
De todo o modo, sendo sempre legítimo sonhar, a realidade não é assim tão excêntrica e antes que acordemos num pesadelo convém vê-la de forma mais nua e crua.
As questões da exploração do gás com elevado grau de competitividade colocam-se em zonas de anterior elevado potencial petrolífero. A natureza gera este gás em quantidade em zonas onde antes foram extraídas essas quantidades significativas de petróleo. Assim, não tendo conhecimento que ao largo da nossa costa algum dia tenha sido considerado viável ou sequer detetado alguma zona com geologia simples e profundidade adequada que nos tivesse trazido o dito bilhete cor-de-rosa, qual Euromilhões, creio que as prospeções que agora estão em curso se cingem a uma realidade gasista com competitividade marginal no quadro do voraz mundo do «Oil and gas».
Desta forma, tudo leva a crer que este banco de gás será de difícil acesso, apesar da profundidade da costa ser baixa, e de dimensão reduzida (caso contrário teria ganho potencial no mundo do petróleo noutros tempos e noutras crises).
Assim, o custo desta exploração aparece-nos como muito significativo, mais ainda quando em concorrência num mercado de gás em que os preços descem diariamente fruto do efeito do gás de xisto nos Estados Unidos e cuja exploração é simples, barata e sem grandes precauções com o impacto desta exploração nas populações de proximidade.
Dado que o gás não se transporta pelo ar a dúvida assola-me: como se retirará este gás de quantidades reduzidas desta plataforma? Através de gasoduto? Com entrada em Espanha, que é o terminal mais próximo ou vai para Sines para assegurar que entra no sistema gasista português e que todos os consumidores portugueses deste podem beneficiar? Ou é liquefeito e transportado em navios tanque de GNL pelo que não devemos desconsiderar elevado custo desta operação, sobrecarregando uma vez mais a competitividade do gás daqui extraído?
Os contratos padrão deste tipo de exploração preveem contributos de, no máximo, 1%, senão menos, para o país cuja zona explorada é afetada! Que eu saiba só houve mesmo um «Sr. 5%».
Importa então ter em conta que, sendo o Algarve uma das regiões que no contexto nacional maiores receitas gera através do turismo para o PIB do nosso país, é particularmente relevante saber com clareza se foi comparado o custo/benefício de dois cenários: Algarve com exploração «Oil and gas» versus Algarve com Turismo, Agricultura/Pescas e inovação? Qual o «rendimento»/remuneração do Estado Português a 20 anos da atividade Turismo e Agricultura e Pescas versus a remuneração do «Oil and gas»? Estamos a falar de que valores?
Assim sendo, não tendo ainda sido possível conhecer os detalhes deste contrato importa sublinhar que perante este cenário e as quantidades marginais de extração potencial, com os elevados custos de exploração e com tantas limitações para a retirada da gás do local, este, já de si muito pequeno contributo para o país, será calculado com base numa receita que estará todos os dias a ser reduzida e será tudo menos um grande negócio para o país e para a região.
No meu entender, com o avançar deste processo, se não forem tomadas as devidas cautelas, fica claro que para o país e para a região ficará o “osso”, ou seja, o lado ainda oculto, para muitos, dos riscos do que tudo isto significa. Neste sentido, importa então sublinhar que é crítico assegurar o retorno para a região, se de facto este potencial se verificar, em fundos que permitam investigação sobre os fundos marinho e tecnologias do mar desde a fase de prospeção e claro a criação de uma comissão de acompanhamento de base científica e com o envolvimento da comunidade local que possa proceder à análise, desde já, do custo – benefício financeiro e socioeconómico e a monitorização dos riscos na eventual exploração.
Antes que se deite fora o bebé com a água do banho convém analisar com cautela e ponderação tudo o que está em causa, com urgência, pois para Portugal e para o Algarve a riqueza do mar é, e muito bem, outra!