O que recorda desse dia 24 de abril e dos que o precederam?
António Pina – Estava em casa e foi através de um telefonema feito a partir do quartel na noite de 24 de abril que soube. Foi-me transmitida a informação que estava em marcha um golpe militar e que me devia apresentar de imediato no quartel. Embora sem parte ativa ou estratégica na execução do golpe em curso, o Regimento de Infantaria nº4 de Faro, na generalidade, apoiava a operação. Foi um dia, ou melhor, uma noite que mudou completamente a face de Portugal. Um golpe necessário para pôr travão a um regime fascista, que através da repressão e do medo envenenou este país. A conquista da liberdade foi, e é, um bem inestimável, conseguida graças à intervenção de um punhado de grandes homens, o Movimento dos Capitães. No Algarve, que eu saiba só em Lagos alguns capitães estavam ao corrente do golpe. Não tivemos parte ativa ou estratégica na operação. No dia seguinte, e já com o golpe consumado, voltei a casa e passei, por coincidência, junto ao Palácio da Justiça, onde se concentravam muitos olhanenses. Parei para ver o que se passava. Estava fardado e, de repente, fui levado em ombros até ao topo da escadaria do Tribunal com as pessoas a aplaudir e lembro-me que falei ao povo. Já não me recordo bem do que disse, mas terei falado da liberdade e da alegria que todos sentíamos, seguramente. Ainda na sequência da Revolução de Abril de 1974, mas aí já com indicações e ordens dadas pelo comandante da minha Unidade de Faro, e como militar no ativo, discursei em maio, junto com outras pessoas, no Largo da Igreja, em Olhão. Ainda enquanto alferes, em junho/julho de 1974, tive outra intervenção pública no aniversário da companhia RI4 a pedido do meu superior, e falei perante os meus camaradas na parada. Não resisto a confidenciar este episódio acontecido horas antes desse discurso: fui chamado pelo comandante, que me disse mais ou menos isto: Sei que já não há censura, mas permite-me que dê uma olhadela no seu discurso?. Anuí, ele leu, e no final disse-me: «gostava só que por favor acrescentasse: não se esqueçam de andar sempre bem fardados»…
Que pensava o jovem António Pina sobre o regime vigente até então?
Tinha atividade política antes do 25 de Abril? Eu já tinha uma forte consciência política, até porque, sendo estudante universitário, trazia comigo os comunicados e os papéis das lutas universitárias e das greves que fazíamos. Panfletos que deixava nos cafés da vila de Olhão, achando eu que ninguém via, porque o fazia muito cedo, às vezes de madrugada. Mas viam. Viam e iam contar ao meu pai, que trabalhava no Grémio das Conservas e quando eu chegava a casa dizia-me para eu ter juízo. Talvez nunca tenha sido preso por sorte e porque alguém muito chegado à polícia política avisava o meu pai para «eu não me esticar». Nunca fui preso, nem sequer interrogado. Já depois de consumado o golpe e de vivermos em democracia, enquanto militar no ativo, fiz parte do grupo que foi buscar os «pides» a Faro e os transportou para o quartel. Depois, voltámos lá para apreendermos o material que eles tinham. Foi quando soube que tinha ficha na PIDE, e que a mesma dizia: «António Pina, não afeto ao regime e tratado como camarada Pinov»… Houve um episódio que muito me marcou e que foi a principal razão para eu ganhar consciência política. Existia em Olhão, um café na esquina da Avenida da República com a Rua 18 de Junho, frequentado apenas pelos «senhores industriais», e que até tinha porteiro. Um dia, eu devia ter uns 15 anos, entrei nesse café com colegas meus de escola, filhos desses industriais. Houve um desses senhores que mandou o porteiro pôr-me na rua, porque eu era filho de um empregado e, como tal, não podia estar ali. Este episódio marcou-me muito. Foi o dia em que ganhei verdadeira consciência política.
Como era a vida em Olhão antes da revolução?
Vivia-se mal. A exceção eram os industriais conserveiros. Esses sim, até se davam ao luxo de comprar propriedades, mas não tinham dinheiro para pagar aos operários. O povo, sobretudo os operários conserveiros, tinha consciência política da mesma forma que tinha a barriga vazia. Quantas vezes, e sempre que as sirenes das fábricas soavam, lá iam, e o que havia para comer era uma algibeira de figos. As pessoas tinham consciência que o regime os calcava todos os dias, a toda a hora. O Partido Comunista, sobretudo no meio operário, fazia o seu trabalho e muito bem feito. Eram gente de fibra, com um perfil muito próprio, e a quem a democracia muito deve. Poucos foram os industriais que souberam, no pós-25 de Abril, dar o passo em frente, modernizarem-se e assumirem outra postura. A propósito – e quanto orgulho tenho disso – aquele «senhor» que me mandou pôr na rua, e outros tantos, passaram, após a revolução, a falar comigo nos melhores termos. Retribuo da mesma forma, porque os democratas não são, nem nunca foram, revanchistas. Lembro aqui alguns olhanenses, grandes lutadores antifascistas que conheceram o terror da cadeia e os métodos da PIDE: entre outros, o Farracha e o Jaime alfaiate. Havia também um padeiro cujo nome não me recordo e o industrial Manuel Rodrigues Pereira.
Uma das grandes conquistas de Abril foi o poder local eleito. Como olhanense, agora afastado da política ativa, que mensagem pretende deixar ao atual presidente da Câmara Municipal, quando se celebram os 43 anos da Revolução dos Cravos?
Ao atual presidente, que por acaso é meu filho, desejo que tenha, como até aqui, sempre presentes os valores de Abril, que continue a partilhar a informação com todos, nomeadamente com a oposição, porque é isso a Democracia. Que continue procurando e lutando pelas melhores soluções para os olhanenses seja por cá, na região ou em Lisboa. Aos olhanenses, nunca ninguém deu nada de mão beijada. Foi sempre a nossa força de vontade que prevaleceu. E viva Abril!
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Nota da direção: esta entrevista foi realizada pelo Gabinete de Comunicação da Câmara Municipal de Olhão e publicada na agenda de abril do município. Foi gentilmente cedida a pedido do «barlavento» com o objetivo de prestar homenagem a António Pina, colaborador de longa data deste jornal e também aos valores da efeméride que se comemora hoje, os quais o «barlavento» subscreve e defenderá sempre.
