
Abrigado pelo escuro da noite de 12 de abril de 1917, o Seiner Majestät Unterseeboot 35 (U-35) atravessou o Estreito de Gibraltar rumo a oeste, vindo da sua base no Adriático (atual Montenegro). Ao comando vinha um homem destinado a ser lenda: Lothar von Arnauld de la Perière (1886-1941), o ás dos ases da Marinha de Guerra Alemã.
Até hoje detém o maior número, em toneladas, de afundamentos por um submarino. Aos primeiros raios de sol da manhã do dia 24, deu início à caçada, entre Lagos e Sagres. Até ao final da tarde, quatro embarcações foram ao fundo.
«Foi um ataque feito à superfície, muito, muito à vontade. O comandante alemão tinha consigo o registo da Loylds e sabia exatamente o que estava a afundar. Ao contrário do que acontecia no Mar do Norte, ele mandava parar os navios, verificava a documentação e dava tempo às tripulações para se porem a salvo antes de abrir fogo. Foi o que aconteceu no Algarve. Já não tinha torpedos, pois gastou-os pelo caminho. Aqui usou a peça de artilharia, ou então, mandou os seus homens a bordo dos alvos, colocar cargas de explosivos».
Foi assim que há 100 anos caíram nas garras do U-35, o cargueiros a vapor «SS Nordsöen» (dinamarquês), carregado de arenques, o «SS Torvore» (norueguês), com o porão cheio de tijolos de carvão ferroviário, o «Vilhelm Krag» (norueguês), sem carga, afundado junto à Praia da Luz, e o bergantim italiano «Bienaimé Prof. Luigi», que transportava minério caulino, a cerca de 10 milhas a sudeste do Cabo de São Vicente. Pelo meio, os alemães ainda se envolveram em escaramuças com navios espanhóis e um francês. Resultado: um morto e um ferido civis. A única embarcação portuguesa que defendia a costa, o rebocador a vapor «Galgo», ao serviço da Marinha, ainda tentou, em vão, fazer frente ao inimigo, bastante superior em poder de fogo.
«A verdade é que não tínhamos meios para controlar esta importante zona de passagem entre o Mediterrâneo e o Atlântico. Em abril de 1916, quando entramos na guerra, os ingleses ajudam-nos a montar uma estrutura defensiva. Notaram que estávamos mais preocupados com os espanhóis do que com os alemães. Isto porque, Afonso XIII era apoiante dos monárquicos e pensava-se que poderia bombardear Lisboa a qualquer momento», conta ao «barlavento».
Segundo Augusto Salgado, «todo este estudo começa em 2014, no âmbito do programa das Evocações do Centenário da I Grande Guerra do Ministério da Defesa, em que foi pedida a nossa participação. Já havia quem estivesse a trabalhar na questão das trincheiras da Bélgica e, portanto, queríamos algo diferente. Em teoria, os navios afundados pelo U-35 no Algarve já estariam identificados, mas não tinha sido feita uma análise científica aos destroços. Hoje sabemos, através de diversos indicadores, quer pelas dimensões, quer pela maquinaria, a sua verdadeira identidade», explica.
Numa primeira fase, os coordenadores do projeto, Augusto Salgado e Jorge Russo, embarcaram no navio científico «NRP Gago Coutinho», em maio de 2014, para usar o ROV (Remotely Operated Vehicle) «Luso» da Estrutura de Missão para a Extensão da Plataforma Continental. «Fomos ao sítio que estava identificado no diário de guerra do submarino para ver se encontrávamos o bergantim italiano, a 650 metros de profundidade. Pela primeira vez, o ROV fez trabalhos de arqueologia subaquática», conta. Os trabalhos não deram frutos diretos, mas permitiram perceber as capacidades e limitações destes meios.

Até ao final de 2015, a equipa fez várias campanhas. No conjunto, o naufrágio do «SS Torvore» é o que se encontra em melhor estado de conservação. Salgado lamenta que os salvados tenham sido «limpos» por empresas algarvias durante as décadas de 1970/80 que se dedicavam a recuperar os metais nobres, como o bronze, deixando pouco mais do que «ferros no fundo». E também que esta história tenha sido esquecida. Talvez por demasiado tempo.
«Agora, 100 anos passados, estes navios ficarão abrangidos pela Convenção de Proteção do Património Cultural Subaquático da UNESCO de 2001. Até aqui, foram pouco considerados. A nossa historiografia preocupa-se muito com os Descobrimentos, mas estes casos da história contemporânea são muitas vezes vistos, entre os investigadores, como jornalismo».
A pegada cultural da história
Augusto Salgado salienta que o mais importante é a «pegada cultural, ou seja, tudo aquilo que tem a ver com o lado humano. Encontrámos um descendente, um sobrinho-neto do artilheiro do submarino alemão, que vive nos Estados Unidos da América. Deu-nos um álbum de fotografias único. Encontrámos uma neta de um tripulante do rebocador «Galgo» e, no Museu de Lagos, estão duas medalhas que terão sido atribuídas a elementos da guarnição. Têm a data de 24 de abril de 1917. E ainda encontrámos o neto de um tripulante que tinha navegado num dos navios afundados. É para nós fundamental aumentar esta teia de contactos», sublinha.
Abril de 1917 foi o mês em que foram afundados mais embarcações dos aliados, em todo o conflito. «Isto toca-nos muito. Prova que a guerra não aconteceu apenas na distante Flandres. Aliás, naquele dia, um dos navios atacados andou à deriva e encalhou nas rochas em Sagres. Os alemães tiveram de subir a bordo uma segunda vez para o fazer explodir. Estiveram a metros de pisar solo português. E este episódio que durou apenas horas, envolveu quase oito nações», destaca.
«O comandante do U-35 refere no seu diário que havia pessoas nas falésias. Há quem diga que atiraram pedras. O navio-patrulha «Galgo» estava em Lagos, onde se ouviram os disparos alemães», ruídos alarmaram e motivaram a infrutífera perseguição. «Também encontrei escrito num documento da Marinha, em Lisboa, uma queixa engraçada: mas não havia ninguém na Guarda Fiscal com uma arma que desse um tiro aos alemães?».
À data, «não éramos um povo germanófilo. Temos registo de um caso em Esposende, de contrabandistas portugueses, que iriam levar centenas de ovos a pescadores espanhóis para abastecer os submarinos alemães. Foram condenados. Aquilo que o professor António José Telo demonstrou num estudo recente, é que os ingleses não nos queriam nesta guerra. Sabiam que se fossemos, teriam de tomar conta de nós, de nos dar armamento e transporte. E sabiam que internamente, as nossas tropas estavam desmoralizadas. Havia instabilidade na estrutura hierárquica. Não nos queriam lá. Mas nós forçámos a nossa entrada na guerra. Os ingleses sabiam que seria um massacre e foi o que acabou por acontecer».
Conhecer para proteger
O programa da próxima segunda-feira, 24 de abril, começa às 9 horas no Forte do Beliche, com uma breve apresentação inicial do projeto «Ações do U35 no Algarve». Na ocasião será lançada uma monografia (livro evocativo) e assinada uma adenda ao protocolo entre o município de Vila do Bispo e a Escola Naval. Será descerrada uma placa, no porto da Baleeira, em português e inglês, e seguir-se-à uma visita aos locais onde jazem os destroços, pelas entidades oficiais. A iniciativa termina com um mergulho ao «SS Torvore», às 16 horas, comemorativo da batalha que o afundou há 100 anos.
Augusto Salgado sublinha que a Câmara Municipal de Vila do Bispo «desempenhou um papel fundamental, desde que fomos bater à porta pela primeira vez». Este tipo de iniciativas «são fundamentais para dar a conhecer à população um património que não veem, mas que é seu. Conhecendo o que têm, vão ajudar a protegê-lo», opina. E explica porquê: «durante uma saída de campo encontrámos um grupo de estrangeiros que iam explorar o parque Ocean Revival, em Portimão. Mas tinham tirado algum tempo para mergulhar em Sagres, porque sabiam que ali foram afundados navios pelo maior ás da Primeira Guerra Mundial. Ou seja, estamos a dar História aqueles pedacinhos de ferro». No futuro, serão disponibilizadas imagens digitais para um mergulho virtual e é vontade da Marinha continuar os estudos, no âmbito da Segunda Guerra Mundial. Por fim, Salgado agradece a Luís Sá Couto e à equipa da Subnauta, «que nos permitiu alcançar um patamar que idealizamos, mas que seria muito difícil sem o seu apoio. Também ao Tenente-General Mário de Oliveira Cardoso, por acreditar neste projeto, à Mar Ilimitado, à Cipreia Lagos, ao ISN de Sagres, à Sopromoar e ao Centro Náutico de Lagos pelo apoio dado». Para mais informações está disponível o website http://projectu35.wixsite.com/projectu35/a-missao—–the-mission
Programa
Dia 24 de abril de 2017 – Vila de Sagres
09h00 – Receção aos convidados (Forte do Beliche)
09h30 – Boas vindas e intervenções das entidades oficiais (Presidente da Câmara Municipal de Vila do Bispo e Representante da Marinha Portuguesa)
10h00 – Apresentação do Livro Evocativo (Forte do Beliche)
10h45 – Assinatura de Adenda ao Protocolo com a Escola Naval (Forte do Beliche)
11h45 – Descerramento de Placa Comemorativa (Porto da Baleeira)
12h00 – Visita das Entidades Oficiais aos locais dos destroços (Partida e Chegada do Porto da Baleeira)
16h00 – Mergulho em destroços (Porto da Baleeira)
(atividade sujeita às condições marítimas e a inscrição prévia) *
Dia 28 de abril de 2017 – Vila do Bispo
10h00 – II Seminário – Potencialidades de um concelho – O mar de Vila do Bispo
* Para mais informações e inscrições para mergulho (até dia 20 de abril): Centro de Interpretação de Vila do Bispo – 282 630 600 ou
[email protected]



