Há 85 anos, Manuel Teixeira Gomes, o exilado Presidente da República algarvio, que se intitulava divorciado do Romantismo, escrevia em «Gente Singular» uns contos plenos de vitalidade sobre o território de sua paixão, numa viagem que percorre os seres, os costumes e as paisagens algarvias.
O simbolismo da narrativa de um Presidente vencido, mas não convencido, resistindo pela literatura, pelo erotismo e pelo direito de liberdade na viagem aos ditames da censura do regime salazarista da época, inspiram-me a tecer alguns comentários de reflexão sobre o significado, o momento e o devir das próximas eleições presidenciais, aproveitando o excerto da obra de um insigne escritor que foi antigo titular do cargo.
O peso de um baú é a perceção que ordena a informação, o ordenamento da realidade em função de um interesse baseado em valores, crenças e convicções. O diagnóstico está feito: o exercício de uma função presidencial anterior de dez anos, que atravessou uma crise financeira mundial importada da América, uma decadência política das instituições europeias e uma soberania nacional limitada pelo memorando de entendimento com a troika é um fardo incomensurável, um exercício que aporta o peso de um morto, algo de que nos queremos libertar, especialmente, quando tal baú está na nossa casa.
Todavia, numa viagem não podemos deixar a bagagem à porta da casa onde nos queremos hospedar. Precisamos dela, pois o baú transporta as nossas roupas que são os símbolos pelos quais exprimimos uma preferência de hábitos e costumes, valores, uma acção de adesão a uma realidade, a que designamos instituição ou instituições.
Nesta história, o futuro Presidente da República é quem transporta a bagagem; o hospedeiro é o povo que vai inspeccionar a bagagem e exigir a sua declaração de compromisso de defender, cumprir e fazer cumprir a Constituição; evitando o cavalo de Tróia; as roupas são os instrumentos pelos quais ele vai cumprir sua declaração. Por alguma razão, estas eleições são diferentes: pergunta-se por um perfil, um passado, uma memória que unifique, que garanta, que assegure regularidades no funcionamento de instituições.
A inspecção da bagagem dos vários candidatos presidenciais é o que vai acontecer na campanha eleitoral que se avizinha e o voto exprimirá o conteúdo daquela que o povo deseja. Após reflexão e fecho da lista de candidatos apresentada ao Tribunal Constitucional, escuso-me de comentar o candidato que apresenta melhores roupas e mais “bagagem” qualitativa, de conteúdo e simbólica, para esta viagem.
Pergunta-se pela capacidade de conhecimento jurídica de interpretar e defender a Constituição, de, pela sua palavra firme e decisiva, criar um discurso eficaz para os agentes políticos, económicos e sociais e, em geral, para a sociedade portuguesa, perante um ambiente externo, caracterizado por um mundo incerto e complexo de informação de poderes erráticos que nos rodeiam. Pergunte-se, ainda, qual o candidato com mais capacidade política, estratégica e táctica, de influenciar um posicionamento favorável de Portugal no plano das relações internacionais, as quais, continuarão a ser uma pedra de toque fundamental no plano de uma soberania nacional, que se deseja positiva, funcional e com visão estratégica.
Não existindo nenhuma pessoa individual perfeita ou ideal para a eleição de um cargo, que só se efectiva pelo voto, existe inequivocamente um candidato que se apresenta a estas eleições com mais condições para tal função e a quem as sondagens vão confirmando tal tendência.
Na história de uma viagem presidencial, o viajante é um resultado de um destino com o qual se identificou. E como Teixeira Gomes se preocupou, no seu conto, certamente, por experiência política própria, conter os riscos dos perigosos cavalos de Tróia que tais viagens acarretam…
—
“-Que pesado é este baú!
-Com efeito, não é leve…
-É sobrenaturalmente pesado (….) pesa como chumbo..- Tem o meu amigo a certeza de que dentro desta baú só haja roupa? (..) e em voz cava – dir-se-ia que contém um morto ..
-Monsenhor, por quem é!..
-Não, meu amigo, a mais elementar prudência ordena que não introduzamos em casa sem rigorosa inspecção interna este outro cavalo de Tróia ”.
(Manuel Teixeira Gomes, Gente Singular, 1931).
Virgílio Machado | Consultor e professor na Escola Superior de Gestão, Hotelaria e Turismo (ESGHT) da Universidade do Algarve