A Prova, de César Aira, abre com um convite gratuito à fornicação que rapidamente se torna num convite ao amor, onde perder tempo é a única possibilidade de felicidade, num caminho que não chega a destino algum.
Nessa errância pelo bairro de Flores, em Buenos Aires, onde os personagens não têm qualquer possibilidade de permanecer, apenas de estar de passagem, a música governa os estados de espírito e a dos The Cure fá-lo acima de todas as outras, tornando todas a rua da desintegração, habitada por pessoas de expressões vazias assistindo à iminência do desastre sem esboçar qualquer gesto.
Por entre uma fauna de punks, drogados, gordas, motards, melómanos e pessoas cujo destino é ser vítimas, o universo de Aira contraria João no Novo Testamento quando afirma que a verdade liberta, pois esta apenas aperta os grilhões até a violência ser a única pureza restante, numa espécie de Laranja Mecânica contida em modo coming of age.
À medida que a ação se desenrola, assim como a música modela a atmosfera, também os locais são transformados pelas atitudes de Marcia, por um lado, e da disrupção autêntica de Mao e Lenine, por outro, que consideram todos os nomes ridículos e por isso aderem à tradição punk – cuja estética e um certo niilismo retratam – de escolher a própria designação numa representação onde nada mais existe.
Em A Prova, as perguntas são a forma menos eficaz de obter respostas para satisfazer a curiosidade mórbida, a vergonha não conduz à fuga e o único indício de sugestão é não gostar de nada, acabando por alimentar o absurdo num desejo simultâneo de que ele termine e aumente, por haver sempre uma tragédia em curso.
Também nos antípodas da matriz judaico-cristã, o sofrimento não conduz à salvação; pelo contrário, há um apelo à sua destruição, como há um claro nojo do trabalho apenas suplantado por quem nele acredita, revelando a inutilidade de tudo num repúdio pela sociedade, contra a incredulidade diante do inexplicável, único oposto possível deste mundo tecido pela brutalidade.
Ao longo das 84 páginas de A Prova, Aira tece o seu enredo improvisado, método que adoptou como seu, com uma linha filosófica, quase práxis da violência de um amor cru, próximo das personagens desenhadas, não com crueldade mas com dureza, do universo de Jorge Luís Borges, transplantado para este século de tempo sem tempo.
A Prova termina como prova de que tudo não termina num clímax, mas num anticlímax que, de certa forma, contraria tudo o que lhe antecedeu, ironizando-o, onde acreditar ou não no amor nenhuma relação tem com a sua existência.
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César Aira
A Prova
Penguin
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Hugo Filipe Lopes (Cobramor)
Autor. Tradutor. Editor.
Antitudo.
Copy criativo. Sociólogo.
O necessário para um precário