Alexandre Guedes da Silva compara Chega e CDS-PP no Algarve, entre representação direta, propostas regionais, coerência doutrinária e valores democrata-cristãos
Há comparações que, para serem justas, não podem começar pela aritmética. No caso da atividade parlamentar do CDS-PP e do Chega em relação ao Algarve, a primeira tentação seria simples: o Chega tem quatro deputados eleitos pelo círculo de Faro; o CDS-PP tem apenas dois deputados em todo o país e nenhum eleito pelo Algarve.
Logo, concluir-se-ia que o Chega teria, por natureza, maior dever e maior capacidade de defender diretamente a região. Mas a política, quando é séria, não se mede apenas pelo número de mandatos. Mede-se pela qualidade da presença, pela coerência das propostas, pelo sentido do bem comum e pela fidelidade a uma visão de sociedade.
É aqui que a comparação se torna interessante. Os quatro deputados do Chega eleitos pelo Algarve — Sandra Ribeiro, Ricardo Moreira, João Paulo Graça e Pedro Pinto — apresentam um conjunto de iniciativas com incidência territorial direta: Hospital Central do Algarve, Alagoas Brancas, em Lagoa, EN 268, em Sagres, Igreja de São Sebastião, em Lagos, e defeso dos perceves no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina. São matérias concretas, reconhecíveis pelos algarvios e ligadas a problemas reais da região: saúde, ambiente, mobilidade, património e economia do mar.
Do outro lado, os dois deputados do CDS-PP — João Pinho de Almeida e Paulo Núncio — não têm mandato pelo Algarve, nem dispõem da força numérica de um grupo parlamentar de sessenta deputados. Ainda assim, é possível identificar iniciativas e intervenções com impacto relevante na região: Fórmula 1 em Portimão, Alagoas Brancas, saúde e habitação no Algarve, mobilidade ferroviária, restauro ecológico de rios e ribeiras, bombeiros, floresta, agricultura, cuidados paliativos, idosos, família, deficiência, habitação e pequenas empresas.
A diferença está, pois, entre uma defesa mais territorializada e uma defesa mais doutrinariamente articulada.
O Chega aparece com maior presença quantitativa e maior ligação formal ao distrito. Seria estranho que assim não fosse. Quatro deputados eleitos pelo Algarve têm o dever elementar de trazer para Lisboa as dores, as esperanças e as urgências da região. Nesse plano, há mérito. O Hospital Central do Algarve, por exemplo, é talvez a reivindicação mais estruturante de todas. Não há dignidade humana plena quando uma região envelhecida, pressionada por milhões de turistas e marcada por assimetrias internas continua sem uma resposta hospitalar à altura. A insistência nessa matéria é justa, necessária e profundamente social.
Também as Alagoas Brancas, em Lagoa, revelam atenção a uma questão que ultrapassa o ambientalismo de circunstância. Proteger uma zona húmida é proteger biodiversidade, qualidade urbana, memória local e futuro. O mesmo se diga da EN 268, em Sagres: quem conhece o Algarve sabe que a mobilidade não é um detalhe técnico; é segurança, trabalho, escola, saúde, turismo e vida quotidiana. Como se diz por cá, «quem não tem carro fica apeado», e quem fica apeado fica, muitas vezes, excluído.
Contudo, a defesa dos valores democrata-cristãos exige mais do que apresentar iniciativas sobre temas algarvios. Exige uma ideia de pessoa, família, comunidade, território e Estado. A Democracia Cristã não é uma soma de protestos, nem uma lista de obras reclamadas ao Governo. É uma visão fundada na dignidade da pessoa humana, no bem comum, na subsidiariedade e na solidariedade.
É neste ponto que o CDS-PP, mesmo com apenas dois deputados e sem eleitos pelo Algarve, consegue apresentar uma intervenção que merece ponderação própria. O CDS parte de uma tradição política que entende a sociedade como comunidade de responsabilidades: a família antes do Estado, a autarquia antes da centralização, o território concreto antes da abstração burocrática, o mais fraco antes da propaganda. Quando João Pinho de Almeida e Paulo Núncio intervêm em matérias como cuidados continuados, cuidados paliativos, idosos, deficiência, família, habitação, agricultura, bombeiros, pequenas empresas e reabilitação urbana, não estão apenas a tocar em temas nacionais. Estão a tocar em problemas que, no Algarve, têm expressão muito concreta.
A região algarvia vive hoje um paradoxo: é rica em visitantes e pobre em permanência. Tem hotéis cheios e casas inacessíveis. Tem turismo internacional e transportes públicos frágeis. Tem uma costa famosa e uma serra esquecida. Tem crescimento económico, mas demasiados salários baixos. Tem comunidades estrangeiras e expatriadas que enriquecem a diversidade local, mas também jovens algarvios que não conseguem ficar na sua terra. Tem mar, sol e aeroporto, mas continuam a faltar hospital, ferrovia moderna, água suficiente e habitação digna.
Perante isto, a pergunta não pode ser apenas: quem falou mais vezes do Algarve? A pergunta deve ser: quem ofereceu uma resposta mais coerente para os algarvios viverem com dignidade?
O Chega ganha claramente no plano da representação direta e da inscrição territorial das iniciativas. Tem quatro deputados eleitos pelo Algarve e, portanto, maior obrigação de apresentar propostas concretas para a região. Fê-lo em várias áreas importantes. Mas a sua intervenção parece, muitas vezes, mais reivindicativa do que estruturante, mais fragmentada do que orgânica. Há causas justas, há temas bem escolhidos, mas nem sempre se vislumbra uma doutrina social consistente que una hospital, habitação, pescas, floresta, património, idosos e família num mesmo projeto de desenvolvimento humano integral.
O CDS-PP, pelo contrário, parte em desvantagem numérica evidente. Dois deputados para todo o país não conseguem acompanhar o Algarve com a mesma presença territorial de quatro deputados eleitos pelo círculo de Faro. Seria injusto exigir-lhes a mesma quantidade de iniciativas locais. Mas, ponderando os meios disponíveis, há algo que deve ser reconhecido: com menos recursos parlamentares, o CDS conseguiu tocar em dimensões essenciais da vida algarvia e fê-lo de modo mais próximo da matriz democrata-cristã clássica.
A defesa das Alagoas Brancas, por Paulo Núncio, é exemplo disso. Não é apenas uma causa ambiental; é uma causa de ordenamento, prudência, comunidade e ecologia integral. A atenção à saúde e à habitação no Algarve mostra consciência das fragilidades sociais da região. As iniciativas sobre família, creches, conciliação entre trabalho e vida familiar, cuidados paliativos, idosos, deficiência e reabilitação urbana traduzem uma visão centrada na pessoa concreta, não apenas no eleitor abstrato.
O Papa Francisco recordou muitas vezes que a política é uma das formas mais altas da caridade quando procura verdadeiramente o bem comum. Aplicando essa exigência ao Algarve, a boa política não pode viver só de denúncia, nem só de bandeiras identitárias, nem só de obras públicas. Tem de cuidar da família que não encontra casa em Faro, do idoso isolado em Alcoutim, do bombeiro de Monchique, do pescador de Olhão, do jovem de Portimão que quer ficar, da criança que precisa de escola inclusiva, do agricultor do Barrocal e da ribeira que não pode continuar a ser tratada como valeta.
Assim, a conclusão deve ser equilibrada. O Chega, com quatro deputados eleitos pelo Algarve, teve uma atividade mais diretamente algarvia e mais numerosa. Isso é relevante e não deve ser diminuído. Mas o CDS-PP, com apenas dois deputados nacionais e nenhum eleito pela região, revelou capacidade de projetar sobre o Algarve uma agenda coerente com valores democrata-cristãos: dignidade humana, família, solidariedade com os mais frágeis, subsidiariedade, proteção da natureza, defesa das pequenas comunidades e valorização da economia real.
Em quantidade territorial, o Chega fez mais. Em densidade doutrinária democrata-cristã, o CDS fez muito melhor do que seria razoável esperar da sua dimensão parlamentar.
E talvez seja essa a lição política mais importante: o Algarve não precisa apenas de deputados que digam «Algarve» muitas vezes. Precisa de representantes que compreendam o Algarve inteiro — litoral e serra, turismo e agricultura, residentes e emigrantes, jovens e idosos, nacionais e estrangeiros, mar e barrocal, economia e alma. Porque, como sabe qualquer algarvio de boa cepa, «terra que não se cuida, depressa se perde» e, para o CDS-PP do Algarve, que por estes dias viu nascer a organização distrital da sua Juventude Popular (JP Algarve), «perder boa terra não é opção».
Alexandre Guedes da Silva | Algarvio, engenheiro naval e democrata cristão
Foto: Bruno Filipe Pires