Uma das minhas melhores férias de verão, em criança, foi uma semana passada na casa dos meus primos, a Conceição e o Martinho. O primo desempenhava uma profissão nobre. Era guarda florestal. Os dias, então, eram passados no campo. As nossas tarefas diárias passavam por verificar se os cursos de água estavam livres seguir caminho desde as nascentes até às terras dos pequenos agricultores e garantir a vigilância da floresta. No final dessa semana tive o diploma do Martinho: estava preparado para a função. Foi um diploma verbal, nada por escrito, porque a palavra era muito mais importante. Ainda hoje guardo-o bem, recorro a ele com alguma regularidade sempre que estou entre a natureza. É o meu habitat primordial, não conheço todos os seus atalhos, mas estou preparado para os descobrir. O fascínio pela sua grandiosidade veio cedo e como que se de um dogma se tratasse, nunca me preocupei muito em desmontar racionalmente o seu significado. Importa-me apenas que ali, em paz e sem grandes questões, sinto-me parte de algo maior, que me transcende e completa.
Hoje em dia perdeu-se muito deste respeito. Penso que a mobilização das pessoas para as selvas urbanas de betão e alcatrão fez com que se perdesse esta ligação intemporal à terra. Talvez por isso e partindo de uma visão meramente tecnocrática e distante do que é fundamental, se tomam decisões unilaterais que afetam o equilíbrio e comunhão com a natureza. Os contratos de prospeção e exploração de petróleo e gás no Algarve e no país são disso exemplo. Ao papel dos ecossistemas e da biodiversidade de valor incalculável, por ser tão essencial à nossa vida, são-lhes atribuídos uma qualquer fórmula matemática no sentido de quantificar a sua importância económica, prevista para um qualquer fim mais ou menos objetivo.
Na Assembleia da República há uma nova corrente bamba que defende Estudos de Impacto Ambiental para fundamentar a viabilidade da prospeção e exploração de petróleo em Portugal, mas se estes estudos fizessem realmente sentido, a barragem do Tua nunca teria avançado e tantas outras barragens e «monos» projetados por aí, autênticos crimes ambientais e ao bom senso. Na passada semana, António Costa defendeu, na conferência do clima (COP22), em Marraqueche, a rápida aplicação do Acordo de Paris sobre alterações climáticas, prometendo empenho na descarbonização da nossa economia até 2050.
Considerando que a manutenção de uma economia baseada no carbono é diretamente conflituante com a urgência de se planear e executar uma transição para uma economia baseada em energias realmente limpas e renováveis, e ao mesmo tempo seguindo a linha de raciocínio defendida pelo primeiro-ministro, só podemos esperar o fim da prospeção e a exploração de petróleo e gás em Portugal.
Pela defesa do meio-ambiente e do nosso futuro neste planeta que ainda não nos expulsou, a nossa Casa Mãe, só há uma coisa a fazer: rasguem os contratos!
Opinião de Paulo Baptista | Comissário Regional do PAN