A escritora portuguesa Lídia Jorge foi distinguida com o Prémio Estatal Austríaco de Literatura Europeia 2026, atribuído pelo Ministério da Cultura da Áustria pelo conjunto da sua obra.
O galardão, no valor de 25 mil euros, será entregue a 27 de julho, durante uma cerimónia integrada no Festival de Salzburgo.
Em comunicado, o vice-chanceler e ministro federal da Arte e Cultura da Áustria, Andreas Babler, considerou Lídia Jorge «uma das escritoras mais destacadas da literatura europeia contemporânea».
«A sua obra é tão versátil e ramificada quanto significativos e omnipresentes são os seus temas. Há muitas décadas que, através dos seus textos, defende de forma altamente poética a igualdade entre as pessoas e a valorização da vida», afirmou.
«A minha profunda admiração dirige-se à autora e poetisa Lídia Jorge. Os meus mais sinceros parabéns!», acrescentou.
Na fundamentação da decisão, o júri considera Lídia Jorge «uma das vozes mais importantes da literatura portuguesa» e destaca quase cinquenta anos de atividade literária, durante os quais publicou treze romances, além de livros infantis, contos, peças de teatro, poesia e ensaios, traduzidos para espanhol, francês, inglês e alemão.
A crítica ao colonialismo europeu constitui «um dos temas centrais» da sua obra, a par da reflexão sobre «a desigualdade social e a pobreza, a discriminação das mulheres, o racismo e a Revolução dos Cravos de 1974», refere a fundamentação.
Os jurados salientam ainda que a escritora, enquanto «testemunha dos tempos e dos espaços», se dedica frequentemente ao relato, à reprodução do discurso falado e narrado e à confissão, recorrendo por vezes a uma espécie de polifonia, com frases curtas, citações de poemas e palavras em diferentes línguas europeias.
Citada no comunicado, a autora alerta que os seus romances não devem ser lidos como parábolas. Pelo contrário, os seus textos conduzem os leitores para «aquelas zonas de profunda incerteza onde nada é sublime ou simbólico, mas tudo tem significado, como um suspiro, uma constipação ou um banho de mar».
A decisão coube a um júri que reuniu algumas das mais destacadas figuras da crítica, da academia e da criação literária de língua alemã. Entre os quais, a escritora austríaca Marlene Streeruwitz; o filósofo e historiador cultural Thomas Macho e a académica Cristina Beretta, especialista em literatura comparada; Thomas Keul, académico que se dedica aos estudos literários germânicos e à crítica literária e Andrea Zederbauer, ligada à crítica e mediação literária austríaca.
O painel considerou Lídia Jorge uma das vozes mais importantes da literatura portuguesa e distinguiu uma obra marcada pela reflexão sobre o colonialismo, a desigualdade social, o racismo e a condição humana.
Nascida em Boliqueime, no concelho de Loulé, em 1946, Lídia Jorge estudou Literatura Francesa em Lisboa e viveu vários anos em Angola e Moçambique durante as lutas pela independência daqueles territórios.
Estreou-se na literatura em 1980 com o romance «O Dia dos Prodígios» e integrou, desde cedo, a vanguarda da literatura portuguesa contemporânea. A sua bibliografia inclui romances, contos, literatura infantil, ensaio, teatro, poesia e crónicas.
Ao longo da carreira, recebeu diversos prémios nacionais e internacionais, entre os quais o Prémio FIL de Literatura em Línguas Românicas, atribuído em Guadalajara, no México. Em 2021 assumiu uma cátedra na Universidade de Genebra e, em 2022, foi criada a Cátedra Lídia Jorge na Universidade de Massachusetts Amherst, nos Estados Unidos da América (EUA).
No início deste mês, o Governo português distinguiu a escritora com a Medalha de Mérito Cultural, tal como o barlavento noticiou.
Em 2025, Lídia Jorge presidiu às comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.