Pois é verdade, no passado dia 1 de fevereiro, em périplo pelo Algarve, passou por Lagos o ministro da Cultura, recentemente empossado no novo Ministério da Cultura, cuja ausência no anterior governo se devia ao desprezo da parceria PSD/CDS pelo papel da Cultura na comunidade.
Ora bem, para qualquer cidadão consciente do seu tempo, a cultura é a raiz e a referência para o desenvolvimento e progresso duma comunidade, a quando na senda da justiça e da paz. Então, pergunta-se, – foi assim que a Câmara Municipal de Lagos entendeu esta visita?- (esclareçam-se os incautos, esta Câmara é feudo impenetrável duma maioria absoluta PS).
Pois esta Câmara Municipal teve aqui uma magnífica oportunidade para o encontro do ministro da Cultura com a Cidade e os seus fatores de cultura viva, para mútuo conhecimento e para entendimento sobre conceitos, perspetivas e levar à prática das novas políticas culturais do governo.
Havia assim o momento perfeito para fazer a apresentação direta ao ministro da Cultura, em diálogo aberto e frutuoso, dos anseios culturais das autarquias locais e das organizações e entidades culturais do Concelho.
Poderia também a Câmara Municipal denunciar ao ministro da Cultura o estado de vandalização e degradação de significativas peças do património cultural, histórico e de memória, do Concelho, o Forte da Meia Praia (monumento de interesse publico), o Museu Ferroviário (nunca concluída a instalação, com a cocheira de locomotivas e plataforma rotativa a caminho de irrecuperáveis), a Casa de Cantoneiros, as ruinas da capela de Sto. Amaro, assim como a situação de outros casos, maltratados, abandonados ou em risco, os baluartes e a muralha, a antiga Adega Cooperativa, a praia da D’Ana.
Igualmente poderia ter feito saber ao ministro da Cultura da insistente divulgação a locais e visitantes, de informações sobre Lagos culturalmente criminosas, como chamar mercado de escravos ao edifício (monumento de interesse publico) que nunca o foi e a cultura exige a devolução à sua autenticidade, ou o silenciamento sobre a burla das ameias das muralhas, das guaritas da fortaleza e no arco de São Gonçalo, ou ainda que Dom Sebastião assistiu da janela do antigo Castelo dos Governadores a uma missa campal, impossível de celebrar onde, à data, era o lençol de água do porto.
Poderia ter aproveitado para esclarecer com o ministro da Cultura a participação de Lagos na Rota do Escravo da UNESCO sob formas culturalmente válidas, historicamente fundamentadas e localmente participadas.
Poderia ter trazido à baila a conversão do museu municipal dr. José Formosinho, hoje uma passiva mistura de coisas parada no tempo. Ser transformado em mostra planeada e estruturada conforme a moderna museologia, num dinâmico fator de desenvolvimento, orientador do futuro de Lagos, no cumprimento da função social da cultura. Organizado num coerente conjunto interativo e complementar dos locais e acervos do património cultural, para revelar ao visitante curioso, erudito ou estudante, o percurso de Lagos pela história. Documentando a memória das suas gentes nos avanços e recuos das mentalidades e das sociedades ao nível mundial, desde os primitivos estabelecimentos humanos até à atualidade e projeção no futuro, nos campos do pensamento, do saber e do conhecimento. Na abrangência cultural dos fatores intervenientes, sociais, económicos, políticos.
Poderia ter falado ao ministro para que interviesse no governo corrigindo os prejuízos na cultura e economia local, provindos da desatenção e menorização a que são votadas a cultura marinheira e as gentes do mar nesta cidade marítima.
Poderia ter percebido esta belíssima oportunidade.
Poderia ter avisado a população da vinda do ministro.
Mas não. A falta de democraticidade e a suficiência arrogante da maioria PS na Câmara Municipal, a sua aversão doentia ao diálogo e ao debate, a incapacidade para estudar e planear, ouvir a população e compreender a cidade, mais o secretismo das acuações escondidas, não permitiram.O ministro da Cultura passou por Lagos. Visitou dois locais.
Opinião de José Veloso | Arquiteto