A Câmara Municipal de Monchique comprou o imóvel da antiga serração, em frente à rotunda que dá acesso à Fóia, para criar um Pavilhão Multiusos, que possa acolher diferentes atividades. Não havia uma infraestrutura na vila com capacidade para acolher, com dignidade, as diferentes iniciativas que vão marcando a agenda no concelho. Seja as tradicionais feiras dos enchidos, do presunto ou festival do medronho, mas também as desportivas ou culturais.
A estreia do espaço que passa para as mãos da Câmara será, no próximo fim de semana de 23 e 24 de julho, com a Feira do Presunto. O certame decorrerá no recinto da antiga serração, estendendo-se até ao Parque de São Sebastião, do lado contrário da estrada.
A Câmara Municipal de Monchique, segundo avançou ao «barlavento» o presidente Rui André, adquiriu o imóvel ao privado e a escritura deverá ser concretizada durante aquela feira, tendo como público os visitantes que estiverem no local.
Nesta primeira fase, a feira será no espaço exterior, entretanto arranjado, pois o imóvel ainda sofrerá obras de ampliação. Rui André garantiu que foi assinado o contrato de promessa de compra e venda, que dá o direito a fazer algumas melhorias, mas a intervenção de fundo ficará para depois.
Ainda assim, o autarca não quer apagar da memória a história da transformação de madeira e a importância que esta teve para o município. Pelo contrário, quer dar o devido destaque a este património de arqueologia industrial, tentando criar um novo polo de atração.
«Foi um compromisso com o proprietário. Fazer um espaço museológico sobre a transformação de madeira em Monchique», revelou. Por esta razão, a autarquia ficará com toda a maquinaria e criará «um museu dedicado a este período, à produção de mobiliário, porque esta foi uma empresa muito inovadora, que criou postos de trabalho», reforçou.
O edil quer «respeitar» esta memória e, quem sabe, contribuir para dar novo impulso ao sector. O museu ficará no piso superior e, no inferior, onde funciona a serração» o espaço será reconvertido para ser multiusos, o que permitirá «fazer outro tipo de exposições e ter uma sala de conferências», com outras dimensões, exemplificou.
O proprietário, um octogenário que viveu largos anos a explorar a serração, tinha mágoa de vender a maquinaria ao ferro-velho. Por isso, além de preservar as máquinas, ferramentas e utensílios, surgiu também o convite para que o antigo empresário ensinasse como trabalhava a serração. Ao que o experiente ex-dono assentiu e até acrescentou que estaria «por lá» quase todos os dias.
Apesar do negócio estar parado, «é só ligar a máquina e começa tudo a funcionar. Numa primeira fase, até vamos registar em vídeo toda a atividade. A ideia é, por um lado, musealizar o espaço dedicando-o àquela indústria» e, por outro, «dar um salto na questão da madeira, porque um dos problemas no concelho, que leva à falta de empregos, é que temos a matéria-prima em grande quantidade, mas depois não há transformação», resumiu.
Em Monchique há, segundo o presidente da Câmara Municipal, a extração da madeira e a venda para a celulose. Existe um par de empresas que trabalham com produtos como «colmeias ou madeira para a construção civil» e móveis.
No entanto, hoje, as tábuas importadas como o pinho nórdico ou o mogno são as mais usuais. É uma tendência que pode ser revertida. «Se houver negócio, é possível deixar de plantar eucaliptos, optando por outras espécies. Havendo escoamento para transformação, ela tem mais valor, o que leva a que os proprietários queiram plantá-las», descreveu Rui André.
No entanto, mais do que este campo de hipóteses, o que o autarca deseja é que este futuro polo possa incentivar a criação de protótipos, motivando os mais jovens para esta arte, para a idealização de design arrojado, aplicando know how deixado pela memória desta serração a produtos mais modernos. Um pouco à semelhança do que a Urbconcept, do empresário Vítor Lourenço, fez ao conciliar o sienito com o mobiliário urbano.
O ideal seria que o imóvel voltasse a funcionar como serração, mas, «se calhar ainda não há condições para o fazer», admitiu o edil. A alternativa para não destruir todo o espólio é manter o espaço, musealizá-lo, permitir a visita e tentar que se torne uma âncora para a atividade, à semelhança do Museu de Portimão que colocou as conservas, de novo, na moda. Neste caso, a intenção é destacar «a produção florestal, os trabalhos associados, havendo possibilidade de criar um evento associado à madeira, à floresta», concluiu o presidente. Enquanto, as obras não avançam, resta a Feira do Presunto para explorar o novo espaço.