Base de estátua do fórum romano de Ossónoba foi descoberta durante uma obra particular e está agora a ser estudada pelo Museu Municipal de Faro.
A base monumental de uma estátua romana, com mais de duas toneladas, foi recuperada do subsolo, no centro histórico de Faro, no decorrer de trabalhos de acompanhamento arqueológico numa obra particular.
«Foi pura sorte. Estava no meio de entulho», explicou Nuno Teixeira, arqueólogo do Museu Municipal de Faro. A base encontrava-se a cerca de três metros de profundidade, num contexto de materiais diversos, entre os quais restos de antigas colunas.
A remoção, há cerca de duas semanas, exigiu meios como uma grua e um camião pesado para a transportar para a reserva do museu, onde permanece a aguardar um estudo aprofundado. Para o arqueólogo, a trabalhar há duas décadas na capital algarvia, trata-se do achado mais relevante dos últimos anos.
A pedra monumental, um bloco de calcário maciço, foi localizada entre as Portas do Mar e a Sé de Faro, muito próxima da área onde, em setembro de 2025, uma prospecção arqueológica com recurso a georradar confirmou a localização do templo do Fórum Romano, estrutura ainda pouco conhecida, datável de um período compreendido entre os séculos I e IV d.C.
Estava numa posição invulgar, «tombada ao contrário», o que leva o arqueólogo a considerar que poderá ter sido reutilizada como material de enchimento em fases posteriores de transformação urbana. «Por exemplo, para subir a cota no decorrer de uma terraplanagem, já em momentos mais tardios. Não lhe deram utilidade e foi simplesmente descartada».
Por isso, não está em bom estado de conservação e apresenta danos que poderão ter ocorrido durante essas movimentações. «Não sei se foi intencional ou se foi quando andou às cambalhotas, digamos assim, que lhe saltaram os pedaços», referiu.
Apesar de a cronologia ainda não ter sido determinada com exatidão, admite-se que possa datar do período «entre os séculos II e III d.C.». Poderá até ser contemporânea ou «um bocadinho mais anterior» ao mosaico do Deus Oceano, um dos ex-libris romanos da capital algarvia, classificado como Tesouro Nacional em 2018, associado à prosperidade económica e à centralidade marítima da antiga Ossónoba.
Quanto ao tempo que a estátua poderá ter estado exposta no fórum de Ossónoba, o arqueólogo admite que é impossível determinar, não excluindo a hipótese de ter permanecido visível até aos momentos finais do Império Romano, no século V.
Inscrição latina: o que diz a pedra?
Um dos elementos mais relevantes é a inscrição latina que, embora incompleta, chegou até aos nossos dias. O texto, distribuído por cinco linhas, apresenta fraturas e zonas muito desgastadas, o que impede uma leitura integral, mas permite identificar alguns dados com segurança.
A inscrição identifica a homenageada como Annia Avita e refere-a como esposa, enquadrando-se de forma clara no universo das dedicatórias honoríficas públicas deste período romano. Segundo Nuno Teixeira, o texto preservado inclui epítetos morais como «santíssima», «piíssima» e «queridíssima», elogios frequentes em inscrições semelhantes conhecidas.
«Aquilo que sabemos, à partida, é que [a estátua] terá sido mandada a fazer por este senhor chamado Iunius Artemonianus para a sua mulher», explicou, sublinhando que só uma investigação aprofundada permitirá confirmar a leitura completa da inscrição e o seu contexto histórico.
Apesar das limitações impostas pelo estado de conservação da pedra, a leitura preliminar aponta para uma homenagem pública, não funerária, redigida em latim formal. A inscrição, contudo, não fornece informação sobre cargos, estatuto político concreto ou datas, ficando esses aspetos dependentes do que se vier a apurar nos estudos.
Orientado para a Ria Formosa e possivelmente para o antigo porto, o fórum de Ossónoba era o centro político, económico e simbólico da urbe, o espaço ideal para a afirmação pública de estatuto e reputação familiar.
Para Nuno Teixeira, o dedicante não seria alguém comum, mas «uma alta figura política, um decisor local com ligações ao centro do poder em Roma».
«Provavelmente seria uma pessoa que se movimentava nas altas esferas da província e também no império, possivelmente no senado», pois «não é qualquer pessoa que manda construir uma estátua, dedica-a à sua esposa e a coloca no fórum».

Rasuras na história
Alguns caracteres da base apresentam sinais de terem sido picados ou rasurados. O arqueólogo descarta que sejam apenas efeitos da erosão natural ao longo dos séculos em que a peça esteve enterrada e abre campo a outras explicações.
«Muitas vezes, os sucessores, por alguma razão, quando não gostavam deles, quando morriam, acabavam por picar-lhes o nome. Não quer dizer que tenha sido isso que aconteceu aqui», ressalvou.
No topo da base são ainda visíveis os encaixes que sustentavam a estátua. «Os espigões seriam de ferro ou de bronze, com o restante preenchido com chumbo», explicou. «Isso diz-nos que a estátua teria sido imponente, se calhar até à escala real».
Quanto à representação, «poderia ter sido uma divindade, como a deusa Fortuna, ou uma representação da própria Annia Avita», sendo mais uma questão que só poderá ser esclarecida com estudo adicional.
O trabalho escultórico estende-se a todo o perímetro, o que indica que foi pensada para observação em espaço aberto, a 360 graus. «Era suposto ser vista toda à volta», destacou Nuno Teixeira, que destaca a decoração lateral que inclui motivos vegetalistas estilizados.
Quanto ao tempo que a estátua poderá ter estado exposta no fórum de Ossónoba, o arqueólogo admite que é impossível determinar, não excluindo a hipótese de ter permanecido visível até aos momentos finais do Império Romano, no século V.

Quando se poderá visitar?
Quem quiser ver esta herança do passado farense ainda terá de esperar, segundo estima Marco Lopes, diretor do Museu Municipal de Faro. A base da estátua romana será integrada no projeto de renovação do percurso expositivo do museu, previsto para os próximos dois anos.
«Este é um achado, entre outros que têm sido recolhidos na cidade, que nos permite atualizar a informação sobre o património arqueológico e perceber, quase que cartografar, o urbanismo da antiga cidade de Ossónoba», explicou.
Segundo o responsável, também contribui para o conhecimento do fórum romano, da sua configuração e dos elementos arquitetónicos que lhe estariam associados. Para já, a peça está «numa fase preliminar de estudo», que terá de estar concluído antes de poder ser exposta ao público.
Marco Lopes lembrou que a sala de arqueologia romana não é atualizada há cerca de duas décadas e que, desde então, surgiram avanços significativos do ponto de vista arqueológico. «Desde há 20 anos para cá, surgiram novidades. Esta é uma delas», afirmou, defendendo que esses novos dados e espólio permitem hoje «ter um olhar diferente sobre a cidade e sobre a contextualização histórica deste território».
A renovação prevê uma reformulação do discurso museológico ligado à arqueologia, com uma abordagem mais moderna, recurso a novas soluções digitais e de acessibilidade, bem como um alargamento do âmbito cronológico e territorial.
«A nossa ideia não é expor dezenas e dezenas de peças, mas sintetizar, simplificar o discurso e criar elos de ligação e empatia mais fáceis para quem nos visita», explicou.
A equipa do museu participa no projeto, em articulação com o comissário científico da futura exposição, Carlos Fabião, investigador e docente da Universidade de Lisboa, sendo a produção adjudicada a uma entidade externa, dado o caráter especializado da empreitada.
Quanto à relevância patrimonial da peça agora descoberta, a avaliação permanece em aberto. «A nível local, certamente que é muito relevante. A nível nacional, o estudo mais aprofundado dirá», afirmou Nuno Teixeira.
Ossónoba entra na memória romana das mulheres da elite
Na Hispânia romana, as homenagens públicas a mulheres da elite estão sobretudo documentadas em cidades com forte peso político e administrativo, onde o espaço público funcionava como palco para a afirmação das classes dominantes.
Emerita Augusta (atual Mérida), Italica (Santiponce, província de Sevilha), Corduba (Córdoba) e Tarraco (Tarragona) tinham em comum grupos dirigentes bem implantados, com acesso a cargos municipais e uma cultura cívica que valorizava a notoriedade familiar.
Entre os séculos I e III d.C., nestes centros, são conhecidas bases de estátuas dedicadas a esposas ou mães de notáveis locais, como Vibia Modesta, Aelia Severa, Flavia Rufina e Valeria Faventina, respetivamente.
Ossónoba junta-se agora a este conjunto que fixou a reputação feminina na pedra, com Annia Avita.

Além disso, na villa romana de Milreu, em Estoi, foram descobertos bustos imperiais representando Adriano, Galieno e Agripina Minor, classificados como Tesouro Nacional em dezembro de 2021. Duas dessas esculturas integram o acervo do Museu Municipal de Faro e a terceira pertence ao Museu Municipal de Lagos.
A presença destas peças num contexto rural aponta para proprietários com elevado estatuto social e ligações diretas às estruturas imperiais. «Ossónoba e o Algarve eram uma zona nobre. Tinham comércio, tinham preparados de peixe, não eram apenas uma periferia. Tinham algum peso e valor nas altas esferas», concluiu Nuno Teixeira.
