Uma equipa das universidades do Algarve e de Marburgo (Alemanha) confirmou, com recurso a georradar, a localização do templo do fórum romano de Ossónoba junto à Sé de Faro.
No empedrado do Largo da Sé, no coração de Faro, turistas e moradores sobem e descem a escadaria da catedral sem imaginar que, pouco abaixo dos pés, repousa o centro da antiga cidade romana de Ossónoba.
A suspeita de ali existir o templo do antigo fórum romano de Faro, levantada em 1939 pelos arqueólogos Abel Viana (1896-1964) e Mário Lyster Franco (1902-1984), e à época documentada por fotografias a preto e branco, acaba de ser confirmada por uma equipa que junta alunos universitários e professores portugueses e alemães, da Universidade do Algarve (UAlg) e da Philipps-Universität Marburg.
O templo, acerca do qual ainda pouco se sabe, remonta à época situada entre os séculos I a IV depois de Cristo e integrava aquele que era o centro económico, político e social da cidade de Ossónoba, segundo explicou Felix Teichner, docente da Universidade de Marburgo.
As sondagens geofísicas, realizadas em colaboração e com o apoio do Museu Municipal de Faro, decorreram na segunda-feira, dia 1 de setembro, com recurso a um georradar (Ground Penetrating Radar) da academia alemã, que permite tirar uma «radiografia» do subsolo.
Este método de prospecção não implica qualquer escavação. Baseia-se no envio e receção de ondas eletromagnéticas para o subsolo, nos locais onde se suspeita que haja vestígios arqueológicos enterrados.
A medição da intensidade da refração dessas ondas, neste caso, permitiu obter uma visão de como era o edifício cuja base «se encontra relativamente bem conservada».
«[O que foi detetado] é o canto do templo, encostado à arcada da Sé. Vê-se o pódio e as escadas», explicou Teichner, que tem experiência de trabalho de campo em Portugal. «Na minha juventude trabalhei em Évora, no Templo de Diana, e este é igual», confirmou.
Esta radiografia permitirá ainda conhecer melhor como seria a antiga praça pública da cidade romana (fórum) de Ossónoba, a área envolvente ao templo onde se presume que os primeiros cristãos e muçulmanos edificaram edifícios religiosos antecessores do atual edifício da Sé de Faro.
Para já, sabe-se também que, tal como a Sé, a fachada do templo romano ficava voltada de frente para a Ria Formosa e para o então porto de Ossónoba, funcionando como cartão-de-visita monumental para quem chegava por via marítima, algo habitual na configuração das cidades portuárias do Império.
«Este é mais um pequeno fragmento no grande puzzle da arqueologia urbana da cidade de Faro», referiu Felix Teichner, já que a interpretação dos resultados estará a cargo de especialistas em geofísica, porque se trata de uma competência técnica que nem todos os arqueólogos dominam.
Questionado sobre uma eventual escavação no coração da cidade velha, Nuno Teixeira, afirma que para já, o mais importante é fazer um mapeamento das estruturas para eventuais medidas de salvaguarda, já que qualquer eventual intervenção deverá ser antecedida de um projeto de musealização e conservação do sítio.
Nuno Teixeira lembrou, contudo, que «logo abaixo da calçada já temos vestígios romanos» porque o Largo da Sé foi rebaixado no século XIX.
Por sua vez, Maria João Valente, professora auxiliar da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade do Algarve (UAlg) e zooarqueóloga, elogiou esta herança patrimonial e histórica. «É notável que em Faro haja tantos vestígios romanos. Ossónoba foi sem dúvida uma cidade importantíssima na época».
Deus Oceano, Milreu e Manta Rota
Além da Sé, os trabalhos incluíram prospeções noutras zonas da cidade. Em Faro, a equipa testou o georradar num grande terreno de acesso fechado ao público, junto ao local onde foi descoberto o mosaico do Deus Oceano, em 1976, durante obras no cruzamento da Rua Ventura Coelho com a Rua Infante D. Henrique.
A peça é hoje um dos tesouros do Museu Municipal de Faro, que revelou a riqueza das casas da elite de Ossónoba. Agora pretende-se perceber se a envolvente esconde outras estruturas.
É, no entanto, um desafio, pois no atual contexto urbano há muitos obstáculos, como pavimentos diversos e canalizações que causam «interferências» e limitam a visão do georradar.
Segundo Teichner, o local fica «no que seria o limite da Ria Formosa, onde haveria instalações de produção de salgas de peixe», que até já foram escavadas no passado recente. Também não muito longe, foram descobertas sepulturas romanas.
Nuno Teixeira complementa: «estamos numa zona periférica da cidade, onde coabitavam pessoas e indústrias. Mas esta em particular ainda não está estudada».
Hoje, a equipa irá também utilizar o georradar na vila romana de Milreu, junto a Estoi, com o objetivo de investigar a faixa ainda pouco estudada, entre o conjunto musealizado e o povoado, para verificar se existem construções anteriores ocultas sob os mosaicos.
Por fim, na quinta-feira, os investigadores rumam à Manta Rota, no concelho de Vila Real de Santo António, onde esperam mapear uma villa romana nunca escavada e experimentar técnicas de arqueologia rural.
«O propósito é mapear o perímetro e as estruturas, para evitar que futuras construções destruam o sítio», explica Maria João Valente.
Cooperação luso-alemã
Estas ações inserem-se num projeto de cooperação e troca de conhecimento, do Centro de Estudos em Arqueologia, Artes e Ciências do Património (CEAACP) da Universidade do Algarve (UAlg) e do Geoarch.Lab de Marburgo, financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e pela agência alemã congénere DAAD, com duração até 2026.
O programa aposta na mobilidade e formação de investigadores e estudantes, no sul de Portugal e na Alemanha. Em abril, uma equipa da UAlg esteve em Marburgo a dar formação em Zooarqueologia, onde não existe esta cadeira, a estudantes e investigadores, sendo agora a vez dos colegas alemães de trazer a sua experiência e conhecimento.
«Enquanto ensinamos, os alunos estudam sítios que ainda não tinham sido prospetados, ganhando experiência de campo. A ideia é juntar sinergias e ficamos todos a ganhar», explicou Maria João Valente, que sublinha o valor formativo do projeto.

O diretor do Museu Municipal de Faro, Marco Lopes, sublinhou que sem a parceria entre as duas universidades não teria sido viável avançar com estas prospeções inéditas no subsolo farense, uma vez que é a Universidade de Marburgo que cede os equipamentos geofísicos.
«Não poderíamos deixar de aproveitar [a parceria], desde logo, do ponto de vista do conhecimento e daquilo que é a leitura da cidade em termos arqueológicos e patrimoniais», já que estes estudos ajudam a complementar «a visão da organização urbana da cidade romana».
Esta parceria entre as academias já tem um historial, com trabalho feito na villa lusitano-romana da Boca do Rio, em Vila do Bispo.


