A nomeação de António Guterres para secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU) representa a entrada de mais um português para um alto cargo de chefia política. Considerando as distorções que podem ocorrer a este nível de exigência, e apesar do comportamento vergonhoso de Merkel e Junker, foi escolhido o homem mais indicado para o trabalho. António Guterres é um verdadeiro humanista, um homem de consensos e acima de tudo, possui uma capacidade retórica incrível, que infelizmente faltou a Ba Ki-moon.
A capacidade de inspirar e persuadir através do discurso é uma valência que não pode faltar a um secretário-geral da ONU, não sendo este um cargo com especiais poderes executivos, mas uma espécie de árbitro do mundo com a responsabilidade de lidar com múltiplos poderes e interesses geopolíticos, numa espécie de colete de forças. Sobre isto há que referir que Guterres será um muito melhor secretário-geral da ONU do que foi primeiro-ministro, não que tivesse falhado a sua missão em Portugal, mas devido à sua natureza enquanto pessoa: discreto, humano, leal e com uma grande vontade de ajudar no terreno, onde desenvolveu vários trabalhos no âmbito da ação social e solidariedade, resultado das suas origens advindas da esquerda católica.
É certo que António Guterres não irá mudar completamente o mundo, nem tão pouco a ONU, que tanto necessita de reformas estruturais, principalmente a nível do Conselho de Segurança e na própria burocracia da organização. No entanto, numa altura em que a cena internacional está repleta de problemas e novos desafios, Guterres tem a oportunidade de se focar em algumas questões urgentes, principalmente na área do ambiente e das alterações climáticas, no flagelo dos refugiados e no plano de reformas da ONU, otimizando a ação da organização nos vários palcos em que participa. E em relação a Portugal? Claro que não vai resolver o problema das finanças públicas ou da balança comercial. Ainda assim, aumenta a visibilidade e o prestigio do país, sendo óbvia a nossa capacidade para gerar líderes políticos à escala global, com a arte e o engenho necessários para se moverem entre as grandes potências internacionais.
Neste plano, destacou-se negativamente o jogo de bastidores maquinado por Merkel e a máquina neoliberal europeia. Em fase avançada de votações tentaram impingir a candidata búlgara Kristalina Georgieva, algo que não abalou a transparência do processo. A posição de Guterres foi tão sólida que o lobby alemão foi incapaz de sortir qualquer efeito nos países à mesa do Conselho de Segurança, resultando num consenso geral mesmo entre potências antagónicas como a China, Rússia, França e os Estados Unidos.
A derrota de Georgieva fica irremediavelmente ligada ao governo alemão, o que fragiliza Merkel numa altura em que é contestada no seu país e cai a pique nas sondagens. A chanceler não levou em consideração os possíveis danos de tentar manipular a Rússia a trocar de candidato. A Rússia é um membro permanente do Conselho de Segurança, com poder de veto, e que apoiava publicamente outra búlgara, Irina Bokova. O veto dos russos significaria sempre a impossibilidade de Georgieva conseguir ser a primeira mulher secretária-geral da ONU. Por último, o ministro dos Negócios Estrangeiros português, Augusto Santos Silva, e todo o corpo diplomático, merecem uma menção honrosa pelo trabalho discreto e essencial, sabendo atuar junto dos atores internacionais e ao mesmo tempo, dando o devido espaço a António Guterres para que a mensagem passasse em absoluto e concentrada apenas no candidato.
Opinião de Miguel Martins Braz | Licenciado em Relações Internacionais e Pós-graduado em economia e políticas públicas