Se disser que sou velho muitos o negarão, pelo menos aqueles que têm a minha idade ou mais, porque a verdade é que se gosta cada vez menos de ser velho. Não penso muito se sou ou não velho, se estou ou não velho, mas a verdade é que já fui mais novo, já fui várias décadas mais novo, o que me enche normalmente de orgulho. Ter vivido é bom, faz-me sentir um verdadeiro viajante do tempo, e poder ainda viver é igualmente bom.
É claro que envelhecer é também estar mais perto da morte, ainda que a morte corra sempre a par da vida. É claro que envelhecer é conhecer a degradação e as sucessivas limitações implícitas, mas não é isso que a vida sempre é, um sucessivo ultrapassar de limitações?
A esta altura o leitor interroga-se, sem dúvida, que idade terei eu e porque falo de velhice e de morte? Respondo de imediato, afirmando que tenho 59 anos de idade, ou pelo menos terei 59 anos quando este artigo for publicado, se ainda estiver vivo (lagarto, lagarto, lagarto). Não sofro de qualquer doença terminal, nem de qualquer achaque além dos normais nesta idade, mas a morte sempre me fascinou, nem que seja apenas para lhe contrapor a vida. E também as limitações com que sempre deparamos, porque na vida nunca importa tanto o que somos e o que nos acontece, quanto o que fazemos com o que somos e o que nos acontece.
Por outro lado, convencido que estive que morreria cerca dos 30 anos, só posso estar grato pelo que vivi, recebi e realizei depois. Por pouco que tenha sido, foi de certeza muito, disso não tenho qualquer dúvida e o mesmo quanto ao que ainda viverei.
Mas o que pensaria eu se tivesse 85 anos, que é a idade que a minha mãe tem? Gostaria de pensar que me sentiria grato, gostaria de pensar que ainda quereria viver, ainda gostaria de amar, de escrever, mas o que sei eu? Penso que foi Camus que disse que as razões para viver são também as razões para morrer, mas gosto de pensar que é melhor viver do que estar morto.
Há poucos anos atrás recordo-me de estar com um amigo na presença do centenário Manoel de Oliveira, que nos batia por um ano na soma das nossas idades, e nos admirámos com a energia que se desprendia daquele corpo debilitado. Quem me dera a mim, repito, o que então senti. E disse a mim mesmo, estar sempre tão vivo quanto ele estava, quem me dera a mim nunca chegar a dizer que o que quero mesmo é morrer.
Oliver Sacks, poucos dias antes de fazer 80 anos e poucos anos antes de morrer, escreveu: «Aos oitenta paira o espectro da demência ou do derrame. Um terço dos meus contemporâneos está morto, e vários outros, com graves problemas mentais ou físicos, vivem presos numa existência trágica e mínima. Aos oitenta as marcas da decadência são demasiado visíveis. Nossas reações são um tanto mais lentas, os nomes nos fogem mais amiúde, e cumpre administrar melhor as energias, mas ainda assim é possível nos sentirmos muitas vezes cheios de vigor e nem um pouco velhos».
Da minha janela vê-se o Algarve | Luís Ene