Todos os finais de ano letivo pautam-se por esta rotina que se impõe às instituições-escola e à sociedade em geral. É um dos grandes momentos de ritualização em busca de certificação e também um dos momentos de desejada justificação social da Escola para com a Comunidade.
Em relação ao ano letivo que agora findou, certamente muito balanços serão feitos…, mas desde já é possível concluir que não foi, de facto, uma trajeto sereno; bem pelo contrário, o atraso, a instabilidade e até a incerteza foram os seus eixos predominantes.
Desde logo uma estrutura ministerial que revelou distanciamento e apatia para com as escolas e professores, demonstrando esquecer-se que a sua própria fundamentação e justificação decorriam também daqueles que desvalorizou e desrespeitou. Depois as direções das escolas, obrigadas a cumprirem com erróneos postulados e indesejadas disposições, acabaram por maximizar os tempos de permanência dos docentes nas escolas, muitas vezes sem condições físicas ou materiais para que os mesmos pudessem preparar as suas normais atividades.
Finalmente, os professores que passaram a ser alvo de um processo de aceleração inumana que reforçou a sua imposição e condicionamento nos seus quotidianos profissionais e até domésticos.
O professor tornou-se uma agente eclético e polivalente. Professor, conselheiro, companheiro e até “irmão mais velho”, caracterizam hoje a complexidade crescente do papel do professor, obrigando este a redescobrir-se diariamente.
A “pressa de viver”, mas principalmente a “pressa em fazer”, marcam hoje os quotidianos da generalidade das escolas, impedindo, no mínimo, a existência de momentos de reflexão sobre as práticas pedagógicas, cada vez mais diferenciadas, complexas e exigentes. Conseguiu-se converter o professor num mero executor de ecléticas e burocráticas tarefas.
Procura-se hoje recuperar um discurso sobre a “Paixão” na educação, mas continua a não criar-se condições para a redignificação dos agentes educativos, desvalorizando a sua especificidade e percecionando-os como mais um dos corpos do funcionalismo público.
Mais um ano letivo chegou ao fim, os balanços institucionais, desvalorizando tudo o que de negativo se passou, elaborarão dissertações que argumentarão que as dificuldades foram pontuais e rapidamente ultrapassadas.
Mas o que é verdade, é que hoje temos uma educação mais pobre, com professores menos reconhecidos, mais desmotivados e, principalmente, com alunos que não sei se estão melhor preparados…
Mais um ano letivo chegou ao fim e dentro de pouco tempo os ranking(s) serão focalizados com redobrada atenção, mas pouco ou nada se fez para a melhoria estrutural dos processos que poderiam conduzir a essas melhorias. Bem pelo contrário, basta recordar o aumento do número de alunos por turma ou a inadmissível instabilidade na colocação de professores que caracterizou largas semanas antes e até durante o primeiro período letivo.
Os indicadores internacionais comparam movimentos de variáveis, mas ignoram as condições materiais, económicas, sociais e culturais que lhes estão subjacentes. E é aí que surge o postulado e a disposição da flexibilização (quiçá diminuição) da exigência como requisito para um aparente melhor aproveitamento e fomento de desejadas competências.
Num próximo momento de reforço ou reformulação de Paixão pela educação será essa uma linha de atuação para continuar? Será que o verdadeiro sucesso não passa pelo esforço e dedicação? Neste contexto, apetece recordar uma máxima de Einstein quando afirmava que “ o único lugar onde o sucesso vem antes do trabalho…, é mesmo no dicionário”.
Mais um ano letivo findou e outro se aproxima. Desta vez coincide com um momento de ainda maior balanço face ao que foi feito, mas também com um novo momento de promessas de melhoria e até de recuperação de uma “Paixão” que andou esquecida e letárgica durante os anos mais recentes.
Mais uma vez a função pedagógica dos docentes cumprir-se-á. No fim de contas a sua deontologia acabará por sobrepor-se a dificuldades e constrangimentos, voltando a estar centrados nos seus alunos e contribuindo para os seus resultados…
Resta ver se quem decide consegue discernir a efetiva importância da educação e dos seus agentes. Se contribui para o reacender de uma paixão que para o ser tem que ser constantemente regenerada. Vamos esperar…
Gostaria de ver…, para acreditar!
Opiniãoo de Luís Dantas | Professor