Segundo a mitologia grega, Pandora fora em tempos a primeira mulher criada por Zeus, pai de todos os deuses, a quem foi dada uma caixa que continha todos os males do mundo: a caixa de Pandora. Sobre a outra Caixa, que aos dias de hoje é mais abordada, a Caixa Geral de Depósitos, apenas quero deixar três simples notas. A primeira nota: qual é a moralidade do sistema? Sabemos que o Tribunal Constitucional, e muito bem, não abrirá qualquer exceção sobre as declarações de rendimentos dos gestores da Caixa.
Ou seja, terão de ser entregues e têm de ser tornadas públicas tal como acontece, por exemplo, com os deputados à Assembleia da República, membros de governo de Portugal e com o Presidente da República.
Poderão, em algumas sedes políticas deste país, procurar muito o que perderam mas não há mesmo um único argumento viável que possam encontrar para que os novos administradores da Caixa Geral de Depósitos tenham um regime de exceção.
A segunda nota: Alguém sai bem nesta fotografia? Começando pelo governo: António Costa e Mário Centeno é que escolheram esta equipa de gestores. Quiseram, igualmente o primeiro-ministro e o ministro das Finanças, entregar um salário de 423 mil euros por ano a António Domingues. E ainda acrescentaram uma promessa – que não podem cumprir! – de que iria haver isenção de entrega das declarações de rendimentos.
Posteriormente, o governo das esquerdas fez uma «lei à medida» para que Domingues e a sua equipa fossem dispensados de um formalismo democrático. Por estes dias, e agora que deu asneira perante o país, António Costa repete até à exaustão que isto «é coisa para os Tribunais» na esperança de que esteja a viver num país de tolos.
Eu diria, com alguma seriedade que tem faltado ao primeiro-ministro, que isto não é coisa para os tribunais decidirem mas, isso sim, para os portugueses julgarem politicamente a ação deste governo em torno da Caixa. Continuando, a nova administração da Caixa Geral de Depósitos sai igualmente mal na fotografia. Com a pressão do Presidente da República e do Tribunal Constitucional para que as declarações sejam entregues, estes gestores continuam a desobedecer. E é natural que os portugueses comecem a questionar o que querem esconder na equipa liderada por António Domingues. A terceira nota: em que gaveta fica a confiança? Em funções públicas a confiança é vital. Diria que esta ainda acresce, só a par do setor da saúde, quando nos referimos ao setor da banca que nos últimos tempos foi, infelizmente, tão marcado por episódios de gestão duvidosa e em que os resquícios do mal sobraram sempre para os mesmos: os contribuintes que acabaram por pagar com mais impostos.
A confiança das pessoas e das instituições nos gestores da Caixa está a degradar-se. Cada dia que passa sem a entrega das declarações é mais um prego no caixão, ou um passo a caminho da placa que diz «Saída», para esta nova administração escolhida pelo governo suportado por PS, PCP e BE.
Portugal não é um país de tontos como António Costa refere claramente, entrelinhas, em cada palavra (ou ausência dela) sobre o assunto e, nós, os portugueses veem que este é um começo em nada auspicioso para esta equipa de António Domingues. Os novos gestores da Caixa estão a começar no ponto em que tantos outros banqueiros terminaram: sem crédito e sem confiança do povo. Para finalizar. Este governo e os gestores da Caixa estão presos uns aos outros. Presos por acordos feitos claramente por baixo da mesa e em que tentam fugir ao escrutínio público ou, até, à lei vigente. Sim, sem rodeios de análise política, entendo que a queda de António Domingues possa provocar igualmente a queda de Mário Centeno do governo. A não ser que António Costa faça o que de melhor faz desde que tomou posse: dizer amanhã que hoje não tem nada a ver com o assunto que ele próprio criou ontem. Diz a lenda que quando Pandora abriu a caixa para libertar todos os males do Mundo, a esperança ficou no fundo. Que assim seja e que em Portugal ainda reste esperança para esta «nossa» Caixa.
Opinião de Carlos Gouveia Martins | Presidente da JSD Algarve