Mais do que a tecnologia, importa o modelo. Quem decide, quem beneficia e quem fica com os impactos da produção das renováveis?
Há uma fotografia que circula nas redes como símbolo de progresso: hectares de painéis solares a perder de vista, reluzentes ao sol do Alentejo, com a legenda «Portugal na vanguarda da transição energética».
Olho para a imagem e vejo outra coisa. Vejo montado arrancado. Vejo terra nua. Vejo vedações que impedem a passagem de animais e pessoas. Vejo uma paisagem que deixou de ser paisagem para se tornar fábrica.
Não sou contra a energia solar. Sou contra a ideia de que qualquer coisa com o rótulo «renovável» é automaticamente boa. A escala muda tudo. O contexto muda tudo. A propriedade muda tudo.
Um painel no telhado de uma casa é uma coisa. Mil hectares de painéis no lugar de um ecossistema são outra completamente diferente.
A distinção parece óbvia, mas desaparece no discurso público. Fala-se de «renováveis» como categoria única, como se um moinho de vento comunitário na Dinamarca e um megaparque eólico industrial em Trás-os-Montes fossem a mesma coisa. Não são. Partilham a fonte de energia; diferem em tudo o resto.
A energia renovável à escala industrial reproduz exatamente a lógica do sistema que pretende substituir: concentração, centralização, extração, distância entre produção e consumo, propriedade nas mãos de poucos, lucro que escapa do território. Muda o combustível; mantém a arquitetura.
Uma central a carvão e um megaparque solar têm mais em comum do que parece. Ambos ocupam grandes extensões de terra. Ambos exigem linhas de transmissão de centenas de quilómetros. Ambos são propriedade de grandes empresas ou fundos de investimento. Ambos produzem eletricidade que viaja para longe, consumida por quem nunca viu o lugar onde foi gerada. Ambos deixam no território os impactos e levam para fora o valor.
A diferença é que o carvão cheirava mal e fazia fumo. O solar é limpo, silencioso, fotogénico. Perfeito para relatórios de sustentabilidade e campanhas de marketing. Mas «limpo» refere-se apenas às emissões. Não diz nada sobre quem beneficia, quem decide, quem fica com a terra, quem perde o modo de vida.
Em Santiago do Cacém, a maior central fotovoltaica da Europa está a ser construída. Mais de 1.200 hectares. Dois milhões de painéis. Capacidade para alimentar 430 mil habitações. Os números impressionam; são feitos para impressionar.
O que os números não dizem: a terra era montado. Sobreiros e azinheiras; ecossistema único no mundo; biodiversidade que levou séculos a formar-se. Parte foi arrancada, parte ficará à sombra dos painéis, parte morrerá lentamente. A terra que sobrar entre as fileiras será «usada por pastores locais para alimentação do gado ovino»; diz o comunicado da empresa. Generosidade: os pastores podem continuar a existir nos interstícios do parque industrial.
A eletricidade irá para a subestação de Sines e daí para a rede nacional. Servirá data centers, fábricas de hidrogénio, consumidores urbanos.
As aldeias em redor continuarão a pagar a mesma tarifa que todos os outros; a proximidade ao sol não lhes dá desconto nenhum. O valor gerado, centenas de milhões de euros ao longo de décadas, irá para acionistas em Madrid e investidores institucionais espalhados pelo mundo.
Isto é transição energética? Ou é apenas a mesma extração com nova embalagem?
O problema não é a tecnologia. Painéis fotovoltaicos são extraordinários: convertem luz em eletricidade sem partes móveis, sem combustível, sem emissões diretas. Turbinas eólicas captam energia que sempre existiu e nunca tinha sido aproveitada. Estas são conquistas técnicas genuínas.
O problema é o modelo. Quem constrói, quem financia, quem opera, quem lucra, quem decide onde e como.
O modelo dominante é o da energia como commodity. Produz-se onde é mais barato; vende-se onde paga mais; o território é input, não parceiro. A lógica é financeira: retorno sobre investimento, payback em x anos, exit strategy para o fundo. A terra é superfície disponível; as pessoas são obstáculo ou, no melhor caso, irrelevância.
Este modelo não nasceu com as renováveis. Vem do petróleo, do carvão, das grandes barragens. A diferença é que petróleo e carvão exigiam ir buscar o recurso onde ele estava; criavam dependência de geografias específicas. Sol e vento estão em todo o lado. Podiam ser a base de um sistema distribuído, democrático, local. Em vez disso, estão a ser capturados pela mesma lógica extrativa.
É uma oportunidade histórica desperdiçada.
A alternativa existe. Não é utopia; está a funcionar em milhares de lugares.
Na Alemanha, as Energiegenossenschaften; cooperativas de energia; produzem uma fatia significativa da eletricidade renovável do país. São propriedade dos cidadãos que as criaram. Os lucros ficam na comunidade. As decisões são tomadas por quem vive com as consequências.
Na Dinamarca, os primeiros parques eólicos foram construídos por agricultores que se juntaram, compraram turbinas e partilharam a produção. O modelo cooperativo precedeu a industrialização do setor. Ainda hoje, uma parte substancial da capacidade eólica é comunitária.
Em Portugal, a Coopérnico tenta fazer o mesmo. Com dificuldade, com burocracia, contra a corrente. Mas mostra que é possível: cidadãos a financiar painéis em telhados, a partilhar a energia, a manter o controlo.
A escala destas iniciativas é modesta. Não competem com os gigawatts dos megaparques. Mas a questão não é competir em escala; é competir em modelo. A soma de milhares de pequenas instalações; telhados, pequenos parques comunitários, microredes; pode produzir tanta energia quanto os grandes projetos. Com uma diferença fundamental: o valor fica onde é gerado.
Há quem argumente que a emergência climática não permite o luxo da escala pequena. Precisamos de descarbonizar rapidamente, dizem, e só os grandes projetos têm a velocidade necessária. É um argumento sério. Merece resposta séria.
Primeiro: velocidade para quem? Os megaparques demoram anos a licenciar, a construir, a ligar à rede. Enquanto isso, milhões de telhados continuam vazios. O autoconsumo doméstico e empresarial poderia estar a crescer muito mais depressa se houvesse política para isso. O estrangulamento não é técnico; é regulatório e financeiro.
Segundo: descarbonizar para quê? Se a transição energética replicar as mesmas relações de poder; os mesmos territórios de sacrifício, as mesmas periferias a servir centros, os mesmos poucos a lucrar com o trabalho e o espaço de muitos; teremos resolvido um problema climático e mantido todos os outros. Não é suficiente. Não pode ser suficiente.
Terceiro: a escala pequena não significa capacidade pequena. Significa propriedade distribuída, decisão local, resiliência sistémica. Um milhão de pequenas instalações é mais robusto que dez mega-instalações. Quando uma falha, as outras continuam. O apagão de Abril de 2025 mostrou o que acontece quando tudo depende de poucos pontos: basta um problema para o sistema inteiro colapsar.
O discurso das renováveis precisa ser desmontado e reconstruído.
Desmontado: nem tudo o que é renovável é bom. A fonte de energia é só uma parte da equação. A escala, a propriedade, o modelo de negócio, a relação com o território; tudo isto conta. Um projeto renovável pode ser extrativo, colonial, destrutivo. Muitos são.
Reconstruído: a energia renovável distribuída, comunitária, integrada no território é uma das maiores oportunidades do nosso tempo. Pode democratizar o acesso à energia. Pode criar economias locais resilientes. Pode devolver poder a comunidades que há décadas só recebem ordens de fora. Pode alinhar transição energética com justiça territorial.
Mas isto não acontece automaticamente. Acontece se for exigido, desenhado, construído. Se houver políticas que favoreçam o pequeno sobre o grande. Se houver financiamento acessível para comunidades, não só para fundos de investimento. Se houver simplificação burocrática para quem quer produzir a própria energia. Se houver resistência; legal, política, social; aos projetos que destroem mais do que criam.
Quando alguém me mostra uma fotografia de um megaparque solar e espera que eu aplauda, faço uma pergunta simples: de quem é?
Se a resposta for «de uma multinacional», «de um fundo de investimento», «de acionistas que nunca cá vieram»; então não estou a olhar para transição energética. Estou a olhar para mais do mesmo. Nova tecnologia, velha lógica.
Se a resposta for «da cooperativa local», «da junta de freguesia», «dos agricultores que se juntaram»; então talvez esteja a olhar para algo diferente. Para energia que serve quem a produz. Para valor que fica onde é gerado. Para território que não é sacrificado mas fortalecido.
A energia do sol e do vento pertence a todos. A questão é: vamos deixar que seja capturada pelos mesmos de sempre? Ou vamos fazer diferente desta vez?
Renovável não chega. Tem de ser justo.
Nuno Mamede Santos | fundador da Terracrua Design e do Instituto de Planeamento Regenerativo
Com mais de 20 anos de experiência em três continentes, dedica-se ao planeamento territorial regenerativo, integrando hidrologia, ecologia e economia numa visão sistémica do território.