Artur Sá, presidente da Rede Global de Geoparques (Global Geoparks Network – GGN) da UNESCO, considera o Geoparque Algarvensis um projeto pensado «para gerações»
Sá defende que ainda que o Algarvensis poderá contribuir para reduzir as assimetrias entre o litoral e o interior nos concelhos de Loulé, Silves e Albufeira, proporcionado novas oportunidades para as comunidades locais. O responsável está em visita de trabalho ao território, tal como o barlavento noticiou.
barlavento: O que o traz agora ao Algarve?
Artur Sá: Traz-me um convite muito honroso para voltar. Estive envolvido no processo que antecedeu a apresentação da candidatura a Geoparque Mundial, através da Cátedra UNESCO de Geoparques, Desenvolvimento Regional Sustentado e Estilos de Vida Saudáveis, da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD). Foi a primeira Cátedra UNESCO do mundo dedicada às temáticas dos geoparques e, nessa altura, a responsabilidade que assumimos, em conjunto com a Associação Geoparque Algarvensis, foi prestar apoio científico ao desenvolvimento da candidatura. Por essa via, já tinha estado cá. Entretanto, assumi novas funções, agora com âmbito global, e regresso a convite da Associação Geoparque Algarvensis para ver o trabalho que está a ser desenvolvido e acompanhar esta nova fase, que se segue ao reconhecimento do território como Geoparque Mundial da UNESCO.
A sua visita tem algum caráter de avaliação?
Não, de forma alguma. Esse processo está completamente concluído e formalizado. Não existe qualquer questão pendente.
Esta visita serve, desde logo, para estar com os autarcas, com os responsáveis da Associação Geoparque Algarvensis, felicitá-los por integrarem um dos 12 novos territórios que passaram a fazer parte da rede mundial, que conta atualmente com 241 geoparques distribuídos por 51 países. É, por isso, um momento de celebração e também de transmitir, em nome da Rede Global de Geoparques, o nosso reconhecimento, o nosso apreço e o incentivo para que continuem o excelente trabalho que têm vindo a desenvolver. Encontrámos um território absolutamente vibrante. Um território onde as pessoas sabem trabalhar em rede, sabem contribuir para a rede e têm consciência de que os geoparques são feitos pelas pessoas. Os geoparques existem para as pessoas. São elas o verdadeiro geoparque.
Apesar de ser um geoparque muito jovem, o Algarvensis já começa a ganhar notoriedade dentro da própria rede?
Sim. Os novos membros recebem sempre uma atenção especial. É como numa família: quando nasce uma criança, existe naturalmente um carinho acrescido. O Algarvensis beneficia também de um percurso anterior muito sólido. Tem como coordenadora executiva a doutora Luísa Abel Silva, uma pessoa reconhecida há muitos anos na Rede Mundial de Geoparques e que participou ativamente na criação do próprio Programa Internacional de Geociências e Geoparques da UNESCO. Por isso, o Algarvensis já tinha um reconhecimento prévio dentro da rede. E isso traz responsabilidades acrescidas.
Responsabilidades acrescidas?
Sim. No sentido de dominar os processos, conhecer as dinâmicas e assumir um papel ativo. É isso que esperamos de todos os geoparques. Quando trabalhamos em rede, cada território é um nó dessa rede. Gosto de usar a analogia da rede de um pescador. Se todos os nós estiverem bem feitos, por muito peixe que apanhe, a rede aguenta. Mas basta que um dos nós esteja mal apertado para surgir um buraco. Se esse buraco aumentar, a rede desfaz-se. O pescador perde o peixe e pode até virar o barco. É exatamente isso que acontece numa rede de geoparques. Cada território é chamado a contribuir para que a rede seja forte, dinâmica e consistente. É isso que pedimos aos territórios: que sejam vibrantes. E é precisamente isso que estamos a encontrar no Algarvensis.
Pegando na metáfora da rede do pescador, cada nó é único. Cada projeto também é único, certo?
Exatamente. É isso que torna esta rede verdadeiramente extraordinária. Cada território conta um capítulo específico da história da Terra. Muitas vezes, conta também um capítulo único da evolução da vida no planeta. Depois, há as pessoas, há a cultura, o património construído, os monumentos, mas também o saber-fazer das comunidades. E existe ainda todo o património natural: a biodiversidade, as plantas, os animais e as paisagens. Tudo isto, articulado de uma forma holística, faz com que cada território seja único. Esse é um dos grandes segredos dos Geoparques Mundiais da UNESCO. Repare, quando visitamos um geoparque, podemos fazê-lo mil vezes e viver mil experiências diferentes. Agora imagine isso multiplicado por todos os geoparques existentes no mundo. É precisamente essa diversidade que faz deste um programa extraordinário. Costumamos dizer, quase em jeito de lembrança, que o Programa Internacional de Geociências e Geoparques da UNESCO é a única chancela da UNESCO onde tudo o que existe no território é valorizado e reconhecido, incluindo as pessoas. Aqui não se trata de afastar as pessoas do património. Pelo contrário, trata-se de dizer às comunidades que esse património lhes pertence, que são as primeiras responsáveis por cuidar dele, usufruir dele e deixá-lo às gerações futuras como legado.

Ou seja, muda aquela ideia de que proteger a natureza significa impedir as pessoas de a viver. O vosso modelo convida precisamente ao contrário: conhecer para valorizar, é isso?
Exatamente. É por isso que damos tanta importância à educação. Alguns chamam-lhe geoeducação, mas o prefixo «geo» não diz apenas respeito à geologia ou à geografia. Refere-se à Terra enquanto casa comum da Humanidade. Celebramos a ligação entre os seres humanos e o planeta. Essa ligação inclui as rochas, os minerais, os fósseis, as paisagens, a biodiversidade e também a cultura própria de cada território. É essa relação profunda entre natureza e comunidade que os geoparques procuram valorizar.
Rede mundial de oportunidades
Agora que o processo do Geoparque Algarvensis está concluído, olhando para trás, quais foram os maiores desafios?
Sempre que um geoparque integra mais do que um município, esse passa a ser o maior desafio. Neste caso estamos a falar de Loulé, Albufeira e Silves. O primeiro desafio consiste em fazer com que as pessoas percebam que o geoparque é um único território. Isso não significa apagar fronteiras administrativas nem diminuir o papel de cada município. Nada disso. Significa criar uma identidade comum. Temos geoparques no mundo que integram mais de uma centena de municípios. Portanto, isso é perfeitamente possível. É desafiante, naturalmente.
Mas há uma ideia essencial: o geoparque não sou eu, não és tu. Somos nós. Não há donos de um geoparque. Não há municípios mais importantes do que outros. Se Silves fizer um excelente trabalho, Loulé e Albufeira também beneficiam. Se uma das partes falhar, todas acabam por ser afetadas. É esta consciência coletiva que importa construir. O Algarvensis são todas as pessoas que vivem e trabalham neste território. Esse continuará a ser um desafio permanente. Mas aquilo que encontramos hoje é extraordinário. Há um trabalho muito sério de envolvimento das comunidades locais. As pessoas começam a perceber que os geoparques são elas próprias. O geoparque não é a coordenadora executiva ou científica. Não são os presidentes de Câmara. Essas pessoas trabalham diariamente para servir o território. Elaboram o plano estratégico. Definem o plano de atividades. Criam condições para que tudo funcione. Mas os verdadeiros protagonistas são sempre as comunidades. São elas que têm de ser criativas e empreendedoras. São elas que têm de aproveitar as oportunidades.
Que oportunidades?
Podem surgir novos produtos, novos serviços, novas empresas, novas atividades ligadas ao turismo, à ciência, à educação, à cultura ou ao comércio. É precisamente isso que um geoparque deve estimular. Veja o exemplo do Festival MED. É um excelente exemplo do potencial deste território. Apesar de ser uma iniciativa organizada pelo Município de Loulé e profundamente ligada à identidade da cidade, o seu impacto ultrapassa largamente as fronteiras do concelho.
O Festival MED pode tornar-se uma bandeira do Algarvensis?
Já é. O Festival MED já é uma bandeira do Algarvensis. Mais do que isso. Através do Algarvensis, o Festival MED tornou-se também uma bandeira da própria Rede Global de Geoparques. Sempre que o Geoparque divulga este evento, essa informação circula por toda a rede mundial. Chega ao Japão, ao Brasil, ao Uruguai, à Tanzânia. Chega aos parceiros da rede espalhados pelos cinco continentes.
São essas as oportunidades que a rede proporciona?
Exatamente. estamos a falar de 241 territórios distribuídos por 51 países. No seu conjunto ocupam cerca de 855 mil quilómetros quadrados, uma área semelhante à de países como a Venezuela ou a Namíbia. Vivem nesses territórios cerca de 55 milhões de pessoas. Só em 2025, os geoparques receberam mais de 500 milhões de visitas. Não estamos a falar apenas de turismo. Estamos a falar de pessoas que conhecem, descobrem e vivem estes territórios. Territórios vivos, habitados, onde as comunidades continuam a pensar, a trabalhar e a construir o seu futuro.
No outro lado da moeda, um número tão elevado de visitantes pode também trazer impactos negativos?
É precisamente por isso que trabalhamos com estudos de capacidade de carga. Há muitos geoparques no mundo onde determinados locais, pela sua fragilidade, pelas dificuldades de acesso ou por razões de conservação, têm um limite diário de visitantes. Isso acontece em vários países e também em Portugal. No caso do Algarvensis, existe desde logo um local de enorme relevância internacional: a Mina de Sal-Gema de Loulé. Naturalmente, trata-se de um espaço sujeito a um número máximo de visitantes, tanto por razões de segurança como de funcionamento. Esse é um exemplo claro de gestão da capacidade de carga. Nos restantes locais, esse trabalho irá sendo desenvolvido à medida que o território evoluir. É importante perceber que um Geoparque Mundial da UNESCO é um projeto de desenvolvimento territorial. Não foi pensado para durar quatro, oito ou doze anos. Não foi pensado para acompanhar ciclos políticos.

Está a antecipar-se à minha próxima pergunta, que será sobre o futuro…
Este projeto nasceu para gerações. Aquilo que esperamos é que, daqui a 100 anos, o Geoparque Mundial da UNESCO Algarvensis seja um território profundamente transformado. Transformado com sustentabilidade. Um território onde as pessoas gostem de viver. Onde tenham qualidade de vida. Onde encontrem oportunidades. Onde valorizem a sua identidade e os seus produtos. Onde sejam capazes de criar novas ofertas que proporcionem experiências únicas. Hoje fala-se muito em experiências imersivas. É exatamente isso que um geoparque oferece. As pessoas não vêm apenas visitar um território. Vêm viver esse território.
Quiçá um dia, voltemos a conversar quando o Algarvensis celebrar 10 anos. Como o imagina nessa altura?
Daqui a dez anos espero que já estejam consolidados muitos dos objetivos que estiveram na origem da criação deste geoparque. Um deles é particularmente importante. Conseguir que o barrocal e a serra tenham mais pessoas, mais oportunidades e mais desenvolvimento. Todos conhecemos a enorme pressão turística existente no litoral algarvio. O Geoparque pode ajudar a equilibrar esse território. Pode contribuir para reduzir assimetrias. Estou convencido de que, dentro de uma década, já veremos resultados concretos.
Aliás, a associação criada pelos três municípios nasceu precisamente com esse objetivo. Espero que comecemos a assistir, por exemplo, à redução da perda demográfica no interior. Quando as pessoas sentem que existem novas oportunidades, quando percebem que o seu trabalho é valorizado e que o seu modo de vida é reconhecido, deixam de sentir que vivem à margem. Passam a sentir-se parte de um projeto maior. Percebem que são importantes para o futuro daquele território. O litoral continuará, naturalmente, a ter um enorme peso turístico.
Mas aquilo que dá identidade ao Algarve é o conjunto do território. É essa visão integrada que o Geoparque promove.
Portanto, acredita que daqui a dez anos já veremos melhorias?
Acredito. Diria mesmo que já veremos mudanças.
Não será uma previsão demasiado otimista?
Não. As pessoas têm de perceber aquilo que disse logo no início. O Geoparque não substitui os empreendedores. Aquilo que faz é criar condições, promover parcerias e contactos. Abre portas. Ajuda a divulgar projetos. O Geoparque pode comunicar. Pode promover. Pode divulgar. Mas precisa de parceiros. Por isso é tão importante existir uma entidade de gestão sólida. No caso do Algarvensis, foi criada uma associação entre os três municípios. Essa associação dispõe de uma equipa técnica que trabalha diariamente para isso. Depois existe toda a estrutura de governação da Rede Mundial de Geoparques. Começa na rede nacional, segue para a rede europeia e culmina na Rede Global de Geoparques, que é a entidade com personalidade jurídica responsável pela coordenação internacional. É essa rede que atualmente presido.
Considera que o Geoparque Algarvensis deve ser mais integrado pelas entidades que promovem o turismo tradicional, sobretudo o turismo de sol e praia?
Mais do que ser integrado, deve ser compreendido como uma oportunidade. Não se trata de olhar para o Geoparque como quem acarinha um recém-nascido. Trata-se de perceber que o Geoparque Mundial da UNESCO é hoje uma marca extremamente forte. E é forte por uma razão muito simples. Significa que existe um reconhecimento de valor universal atribuído pelos Estados-membros da UNESCO. Estamos a falar de um território que foi reconhecido internacionalmente pelo valor do seu património natural e cultural. Esse reconhecimento existe porque este território ajuda a compreender melhor a relação entre o ser humano e o planeta. É essa a essência dos geoparques.
Por isso, entidades como o Turismo de Portugal, a Região de Turismo do Algarve, os municípios, os empresários, os hotéis, os restaurantes, os operadores turísticos ou os guias têm muito a ganhar ao trabalhar em conjunto com o Algarvensis que funciona como um elemento agregador. É a argamassa que liga diferentes projetos, diferentes entidades e diferentes pessoas em torno de um objetivo comum. É essa ligação que torna um território mais coeso, mais atrativo e mais competitivo.
É essa argamassa que une o território em torno de um mesmo desígnio?
Sim, o objetivo é fazer com que o Algarvensis seja reconhecido em todo o mundo. Não apenas pelo diploma atribuído pela UNESCO, mas sobretudo pelo trabalho desenvolvido e pelos resultados alcançados. Quando falamos da Agenda 2030 das Nações Unidas e dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), estamos a falar precisamente disso. Queremos que aquilo que acontece diariamente no território contribua para esses objetivos. Cada projeto, cada iniciativa, tudo conta.
Veremos novos geoparques a surgir em Portugal nos próximos anos?
Depende apenas da vontade dos territórios. Depende da visão dos seus responsáveis. E depende da capacidade de demonstrarem que podem acrescentar valor à Rede Global de Geoparques. Naturalmente que espero que isso aconteça. Desde o aparecimento dos primeiros quatro geoparques europeus, no ano 2000, este programa evoluiu muito. Costumo fazer uma comparação com as versões de um programa informático. Começámos numa espécie de versão 1.0. Hoje estaremos talvez na versão 8.0. Os novos geoparques já nascem com mais conhecimento, mais preparação e maior capacidade de atuação.
E onde coloca o Algarvensis nessa evolução?
Na linha da frente. Sem qualquer dúvida. Mas isso traz também uma enorme responsabilidade. Quando estamos nesta fase de maturidade do programa, já não é admissível falhar em aspetos básicos. Os procedimentos estão definidos. As regras são conhecidas. Existe muito conhecimento acumulado. Aquilo que hoje se espera é capacidade para inovar. Há cada vez mais ações de formação, programas de capacitação e oportunidades de partilha entre geoparques. Essa aprendizagem coletiva permite que os novos territórios evoluam muito mais depressa. Se amanhã surgir outro geoparque em Portugal, espero que apareça já numa espécie de versão 9.0. Que consiga aprender com a experiência acumulada. E que também aprenda com o bom exemplo que o Algarvensis está a dar.
A preocupação com a desertificação do interior é transversal a todo o país. O Algarvensis pode tornar-se um caso de estudo?
É exatamente isso que esperamos de todos os Geoparques Mundiais da UNESCO. Que cada um deles se torne um verdadeiro caso de estudo. Que consiga demonstrar, através de resultados concretos, como é possível promover o desenvolvimento sustentável valorizando o património, envolvendo as comunidades e criando novas oportunidades para as pessoas. Mas deixe-me recuperar a analogia da rede do pescador. Imagine que cada geoparque assume o compromisso de contribuir, todos os anos, com um exemplo de boa prática. Se cada um fizer isso, recebe em troca cerca de 240 exemplos provenientes de todo o mundo. Cada território contribui com a sua experiência, mas recebe em troca o conhecimento acumulado de centenas de outros territórios. Esse é um dos maiores valores: aprender com os outros, partilhar conhecimento e evoluir em conjunto. E Onde está o segredo de tudo isto? Está na paixão. Está no compromisso com que as equipas de gestão trabalham. E aquilo que vemos no Algarvensis é uma equipa muito comprometida, muito profissional, muito conhecedora e bem apoiada. Portanto, tudo isso constitui a receita perfeita para o sucesso.
