São cinco grandes peças da autoria do artista Carlos de Oliveira Correia, a instalar na rotunda junto ao Palácio da Justiça, em Silves, em homenagem aos corticeiros e àquela indústria que, no passado, foi um grande motor de desenvolvimento deste concelho algarvio. As esculturas serão inauguradas na próxima segunda-feira, 1 de maio, feriado do Dia do Trabalhador.
Não foi uma data escolhida ao acaso, até porque este já foi um dos sectores mais importantes de Silves. «Infelizmente esses trabalhadores já não comungam muito no nosso concelho. Continuamos a ter cortiça, muitos sobreiros e mercado de cortiça. No entanto, não temos esta indústria de transformação e tratamento» daquela matéria-prima, disse Rosa Palma, presidente da Câmara Municipal de Silves. Sendo apenas exceção a Fábrica de Cortiça detida pelo Grupo Amorim.
A homenagem da autarquia pretende, assim, não deixar cair por terra a memória daquelas profissões, até porque há ainda quem se recorde do movimento que a transformação da cortiça gerava. «Eu não conheci Silves dessa forma, mas, por exemplo, o vice–presidente [Mário José Godinho] fala sempre com muita emoção sobre este tema», confidenciou a autarca.
No passado, havia bastantes locais de tratamento da cortiça distribuídos pelo concelho e as pessoas «deslocavam-se com os seus burros, para entregar as cargas, com mais ou menos arrobas, no edifício hoje conhecido por Fábrica do Inglês», recordou Rosa Palma. Na verdade, foi o último espaço a encerrar e era o local que mais reunia trabalhadores da cortiça.
«Muita gente trabalhou lá e isto assume um grande significado para a população de Silves» e para os cidadãos do «resto concelho», justificou.
É por esta razão que a Câmara Municipal quer assinalar esta memória, estando agendada uma cerimónia para a inauguração. Rosa Palma já prevê as opiniões negativas de «alguns críticos, mas o que interessa é que reconhecemos e enaltecemos aquilo que foi a indústria corticeira e as pessoas que estiveram envolvidas nesse sector. Se calhar foi o que fez Silves se desenvolver nessa altura e hoje, estamos a precisar de outra indústria que nos dê um empurrão», argumentou Rosa Palma em declarações ao «barlavento».
Aliás, a autarca considera estranho como as mais-valias acabam por se perder. O concelho continua a ter muita cortiça, mas não a aproveita para a transformação. «Antes exportávamos as rolhas para as melhores garrafas de vinho e champanhe, diretamente para França, país que tinha uma relação forte com Silves», exemplificou.
A escolha do escultor Carlos de Oliveira Correia justifica-se porque a autarquia queria que o autor fosse alguém que sentisse esta história e transmitisse a dignidade inerente. Este artista, radicado em Castro Marim, também é o autor da réplica do hidroavião de Gago Coutinho, colocado em São Brás de Alportel. Mostrou-se disponível e concebeu de imediato as peças. «O que idealizou enquadrou-se naquilo que pretendíamos», concluiu Rosa Palma.
Ao «barlavento», Carlos de Oliveira Correia explicou que «são peças com uma leitura simples e acessível. Fiz três burros a transportar a cortiça, com vários adereços relativos à transformação, naquilo que seria uma pequena fábrica». No total, serão três elementos, à escala de 1/1,5 com as figuras humanas a medirem cerca de três metros.
Câmara Municipal está a negociar com a CGD a aquisição do Museu da Cortiça
Apesar de não deixar cair esta memória da indústria corticeira, Silves tem um Museu da Cortiça que continua de portas fechadas. O antigo complexo da Fábrica do inglês, que pertenceu ao grupo Alisuper, entretanto falido, fechou em 2010.
Agora, conforme avançou ao «barlavento» Rosa Palma, presidente da Câmara Municipal de Silves, a autarquia «está a tentar resolver a situação do edifício» com a Caixa Geral de Depósitos (CGD).
«Estávamos a aguardar a decisão do tribunal, porque o BPI tinha impugnado a [aquisição pela] Caixa Geral de Depósitos, devido à forma como decorreu o procedimento. Já está resolvido. O edifício já é da Caixa e agora estamos nós a tentar resolver com este banco esta questão. No entanto, a Câmara Municipal de Silves não tem disponibilidade financeira para comprar o edifício no seu todo», admitiu a autarca.
Por esta razão, Rosa Palma assegurou que está a tentar encontrar «um entendimento» ou a aquisição «no seu todo, o que seria muito bom, dentro das nossas condições e não da CGD, porque tem que ser algo» de valor um pouco mais baixo, até porque «estamos a falar de erário público», defendeu.
A verdade é que o património continua a degradar-se, pelo menos, até ao dia em que alguém se responsabilize pela manutenção e conservação do imóvel. «Até ser vendido em hasta público, entre 2010 a 2014, o espaço estava intacto e apenas faltava limpar o pó. Porque é um ex-libris. Assim que foi vendido em hasta pública, arrancaram contadores, fios elétricos, corrimões, papeleiras», recordou.
Mas este é o ponto de situação em relação ao edifício do antigo complexo da Fábrica do Inglês. No caso do espólio, na opinião de Rosa Palma, o processo «foi mal conduzido. Está lá ainda guardado. E essa é outra batalha».
A Câmara Municipal participou no leilão, onde licitou duas vezes, mas acabou por perder o espólio para o grupo Nogueira. «Antes do leilão a autarquia falou com todos os envolvidos, desde da antiga Alisuper, grupo Amorim, CGD. Ou seja, fez um contacto prévio para verificar se havia interesse em adquirí-lo. Foi dito que não. Então, a Câmara preparou-se para o leilão. Tivemos que prever em orçamento um determinado valor, ao qual acrescentamos mais um pouco para termos margem de licitação. Quando chegamos lá, fizemos um lance, mas alguém licitou mais alto. Licitei outra vez, assim como outra entidade. Já não conseguia acompanhar. Mais tarde fui falar com o grupo Nogueira, que ganhou o leilão, para perguntar porque é que licitaram se antes tinham dito que não o iam fazer. Responderam-me que devia ter sido mal entendido…», relatou a autarca.
Entretanto, o espólio já passou por três empresas detidas pelo grupo Nogueira, ainda que a Câmara Municipal tenha direito de preferência em caso de eventual venda. «Estamos em tribunal com esta situação», afirmou.
O objetivo da autarca é tentar abrir as portas do Museu. «Não conseguimos reabilitar a restante parte do edifício, que tem grande importância, mas temos que começar por algum lado», justificou.