Afinal, em vez de turismo de sol e praia no Algarve, a coisa mudou para turismo de mar e guerra. Deve ser a economia do mar de que tanto se fala; os negócios da guerra no ar, na terra ou no mar, foram sempre muito lucrativos para quem neles andou metido de barco ou submarino.
Nem sempre foi assim. Muito antes de Stendhal ter publicado as suas «Memórias de um Turista» em 1854, inventando assim a palavra, já, duzentos e cinquenta anos antes, os jovens abastados filhos da aristocracia e da burguesia europeias, faziam o grand tour em demanda pelos sinais da cultura clássica pelas ruínas de Itália ou da Grécia.
Com a chegada dos comboios e vapores, a coisa foi crescendo, mas a verdadeira massificação do turismo é um fenómeno que vem com a social-democracia, o aumento da classe média, as férias pagas, os aviões baratos, os automóveis, a oferta organizada de viagens e estadias por grandes operadores…
O turismo democratizou-se, portanto. Quando era só acessível a pequenos e distintos grupos sociais com os seus salões, tertúlias, livros, clubes e erudições, a coisa era pacífica; a grande maioria, os que não podiam, olhavam curiosos para aqueles viajantes com criadagem e modos esquisitos de vestir e de falar.
O Algarve chegou muito tarde a esta nervoseira. Ainda não se tinha desmantelado o Portugal pré-moderno, rural, pescador e, sobretudo, pobre, já andavam por cá os do costume a ver onde pôr hotéis, aldeamentos e negócios para estrangeiros, sobretudo; o SNI salazarento de má memória olhava de soslaio para esta ameaça à velha terrinha fechada nas suas misérias e contada aos de fora e aos de dentro através de um delírio tóxico e enganoso onde o povo era pobre mas feliz, temente a deus e à autoridade, vivendo numa terra abençoada de brandos costumes, chaminés mouriscas, amendoeiras em flor, figos e fábricas de conservas.
O outro delírio era pensar que a coisa se podia planificar, ordenar. Santa inocência. Nem o regime ditatorial de então o conseguiu, nem seria possível obter um acordo sobre que modelo para tão grande arrumação num território tão vasto.
O dinheiro, os jogos de poder e influência, claro, vem sempre que há negócio, seja ele turístico, de venda de água quente, parafusos, milagres, bicicletas…., ou qualquer coisa que sirva para o jogo do dinheiro que faz dinheiro – o capitalismo. Esse é um dado, não é um exclusivo do turismo e não é coisa de virtudes e sanidades porque até o espírito santo andou metido nessa vida viciosa da roleta financeira.
É bom que se fale e publicitem as histórias de mar e guerra, dos projectos de interesse nacional, dos vistos gold, do mal pago que é o emprego no turismo, dos ingleses alcoolizados, das festas do jet set, do turismo rural e do natural, do golf e do casino, do besugo e da sardinha, dos escaldões e de todo o allgarve…
A máquina de fazer paisagem no Algarve é o turismo com todas as suas variedades e contradições. Não é só uma ria formosa; tem patinhos feios e muitos animais escanzelados, vai da serra ao areal, do negócio de milhões à bancada da fruta e do peixe do mercado de Loulé.
Variada, contraditória e mutante, farta ou seca, rica ou pobre como no tempo em que os rendeiros trabalhavam os quartos de 1 ha do latifúndio da Quarteira, a frenética turística dá de comer a muito povo apesar da sua inclinação predatória por lugares bonitos e comida rápida.
Talvez não seja mau dar-lhe um bocado de atenção e fazer-lhe a folha mais detalhadamente e com maior rigor para que se possa apanhar a diversidade da substância que lhe assiste.
Texto e foto: © Álvaro Domingues