barlavento: A última renovação da exposição permanente do Centro de Ciência Viva do Algarve foi em 2005. Está, portanto, na altura de desenvolver uma nova, certo?
Cristina Veiga-Pires: De facto, a última verdadeira renovação da exposição permanente do CCVAlg foi em 2005. Entretanto foram feitas pequenas alterações e colocadas algumas novidades, sempre numa lógica de mudar os móveis para introduzir alguma diferença e novidade. Mas nada disto foi feito com uma mudança de fundo e um investimento associado. Este ano há uma possibilidade de renovação e de se apresentar um projeto de qualidade, inovador e atrativo. Neste sentido, e de forma a responder ao desafio que foi lançado à direção e à nossa equipa, decidimos desenvolver uma exposição virada para a Ria Formosa. O objetivo não é criar um centro interpretativo ambiental, mas um centro baseado na ciência e tecnologia realizada principalmente na Universidade do Algarve e nos conhecimentos regionais. Depois de identificados os temas que queremos comunicar, faremos então apelo aos profissionais do design para adaptar as nossas ideias a módulos da exposição.
Que outras entidades poderão vir a contribuir?
Pretende-se neste projeto envolver a comunidade científica mas também todos aqueles que tenham ideias de conhecimentos relacionados com a Ria Formosa, que sejam de interesse divulgar de um ponto vista científico ou tecnológico. A Universidade do Algarve terá um grande papel, uma vez que é a instituição de ensino superior e de investigação que reúne mais estudos científicos e aplicações tecnológicas na Ria Formosa, nomeadamente através de dois centros de investigação na área do mar: o Centro de Ciências do Mar (CCMAR) e o Centro de Investigação Marinha e Ambiental (CIMA). No entanto, temos outras instituições regionais que possuem um grande conhecimento, como o Parque Natural da Ria Formosa, o Instituto Português do Mar e da Atmosfera, a Agência Portuguesa do Ambiente ou ainda a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve. E também indivíduos que já passaram pela região e pelo nosso centro e que continuam a ter grandes ideias e experiência. Serão convidados a fazer parte da Comissão de Honra das comemorações dos 20 anos do CCVAlg.

Que ideias tem, ou melhor, como imagina mostrar e demonstrar a Ciência da Ria Formosa?
Bem, há várias ideias que estão a ser avaliadas, mas podemos, desde já, destacar algumas. Por exemplo, a formação do sal nas salinas, a produção de salicórnia associada à limpeza das águas de um aquário da Ria Formosa com cavalos marinhos, a influência da lua e do sol nas marés e sua propagação e influência na no sistema lagunar. Queremos também abordar assuntos menos conhecidos como a descarga (natural) de águas subterrâneas na Ria que trazem nutrientes, e também a problemática da poluição invisível (som, fármacos e microplásticos). A estes temas queremos também juntar a inovação tecnológica, não só aquela que se utiliza na tecnologia marinha (protótipos de eólica marinhas ou de biodiesel) mas suportes inovadores como a realidade virtual e a realidade aumentada, as representações 3D, a imersão, entre outras que ainda estão a ser pensadas.
Quando poderemos ver a nova exposição permanente?
Bem, é uma pergunta muito importante. Mas a parte da implementação técnica e montagem estará dependente dos fundos financeiros, pelo que é sempre complicado apontar para uma data. O projeto em si será apresentado no decorrer das comemorações dos 20 anos do CCVAlg que irão decorrer entre 3 de agosto de 2017 (dia de abertura do centro em 1997) e 11 de março de 2018 (dia de criação da associação sem fins lucrativos CCVALg em 1998).
Poderia esta nova exposição virada para a Ria dar um novo impulso e atrair mais e novos públicos?
Nos últimos anos, o número de visitantes tem vindo a crescer, muito graças ao aumento do turismo em Faro, tendo atingido em 2016 o maior número desde do início desta exposição permanente, com mais de 15400 pessoas. É exatamente por isso que temos que alterar a exposição. Com este crescimento, a idade dos módulos faz-se ressentir ainda mais, chegando ao limite da sua utilização. Sem dúvida que uma nova exposição irá atrair uma população que temos vindo a perder progressivamente: as escolas de 2° e 3° ciclo, assim como os estudantes mais velhos. Tal como está hoje, a exposição já não traz conhecimento novo às populações mais velhas.

Na quinta-feira, 3 de agosto, o CCVAlg celebra 20 anos. O que está previsto acontecer?
Nesse dia, estaremos de portas abertas ao público que será desafiado a participar na criação de uma reação em cadeia, utilizando para isso a criatividade e engenhocaria que cada um de nós tem em si. Ao fim da tarde, será então desencadeada a reação em cadeia e sopradas as velas. Todos podem participar.
E em relação ao programa Ciência Viva no Verão, que podemos esperar este ano?
As nossas atividades na Ciência Viva no Verão contam com vários parceiros, como todos os anos, que permitem observar e participar em várias ações. Por exemplo, visitar as minas de sal-gema de Loulé, participar em observações de aves, passeios geológicos à descoberta da Ria Formosa, passando por visitas a vários laboratórios ou empresas. É ainda de destacar a nossa presença em algumas ilhas-barreira para observar o sol e ou as estrelas, mas também no Centro Azul da Praia de Faro, onde três manhãs por semana temos atividades desde observação dos fundos da Ria à construção de barcos.

Olhando para um pouco para trás, que balanço faz destes 20 de vida do Centro?
A essa pergunta ainda não posso responder.. pois só sou diretora executiva há quase três anos. Pretendo, contudo, recolher efetivamente este olhar de quem esteve ao início e de quem esteve ao longo destes anos, de perto ou de longe, a acompanhar esta história maravilhosa do primeiro Centro de Ciência Viva de todo o país, que só pode ser um sucesso, uma vez que hoje a rede conta com mais de 22 centros. Não há dúvida que o engenheiro Mariano Gago era um grande visionário.
