Quando, em 1906, Eugène Hénard redesenhou a Étoile em Paris para resolver cruzamentos complicados, chamou-lhe carrefour à giration. Essa rotunda com o Arco de Triunfo no centro, transformou-se numa referência simbólica da maior importância; localiza-se aí o Monumento ao Soldado Desconhecido, convergem ou divergem 12 avenidas e cruzam-se várias linhas de metro. Em 1906 os cavalos com ferraduras estavam ser substituídos pelos cavalos dos motores dos automóveis e a modernidade era sinónimo de funcionalidade, velocidade e facilidade de giração. Aí está, os deuses nos livrem de fazer rotundas do tamanho da do Hénard!
Contrariamente às rotundas que são para o contrário disso mesmo, o tema da rotunda é incontornável (esperamos outras espacialidades, a espiral e a quarta dimensão). As rotundas são tantas, tão novas, tão diversas, resultado de decisões e obras de tanta gente, que podem ser entendidas como um texto coletivo em permanente construção. Por isso, já é tempo de por de parte aquele risinho de escárnio chapado na cara daqueles que pensam que são os donos da moral, do gosto e dos bons costumes, e interrogarmo-nos sobre o que nos dizem de nós e do mundo. Quando trocamos o GPS – porque não existe ou é aborrecido -, pela abordagem pessoal, dizem-nos, justamente – «Controle!» em vez de «contorne». É verdade, controlar é estar atento.
A rotunda é uma rótula, uma plataforma para onde se converge e diverge na cartografia complicada dos movimentos. Este giratório e o próprio ritual do movimento circular instauram um momento excecional nos labirintos das estradas e das circulações. Sendo a facilidade da mobilidade aquilo que aumenta a importância relacional dos lugares, as rótulas ou os nós dos percursos, adquirem uma importância específica, espécie de hiper-lugares ou lugares de múltiplas dimensões onde se podem condensar usos e apropriações, intensificar sociabilidades e signos. Daí esta especial atenção de que as rotundas são alvo.
Porque assim é e porque se tem, como na física, um certo horror ao vazio, a rotunda presta-se para que imediatamente se lhe ponha qualquer coisa no meio. A cinética do andar à roda, como em muitos rituais que assim também fazem, faz convergir a atenção para o centro. Fica assim criado o palco e a circunstância para o cenário, para o signo e para a significação.
Esta ideia da Câmara Municipal de Portimão de contratualizar com privados a manutenção da jardinagem das rotundas em troca de espaço publicitário, parece-me muito limitadora. Pode dar apenas delírios gráficos e luz psicadélica à noite com finalidades estritamente comerciais. Ora, no magma móvel dos movimentos e dos lugares em mudança permanente, a rotunda é um ponto fixo, uma imagem de marca, um referencial, um suporte de produção de sentido, um dispositivo semiótico para se perceber o que é estar em Portimão. Não é um problema de jardins e relvas porque em matéria de botânica e paisagismo, uma árvore frondosa bastaria para o prazer dos sentidos e a frescura da sombra.
Opinião de Álvaro Domingues | Geógrafo e autor de «Rua da Estrada» e «Vida no Campo»