Pretende-se que os atos eleitorais, para além de se traduzirem em luta política, sejam, também, uma festa da democracia, sobretudo com as análises aos respetivos resultados, onde se satisfazem os mais variados gostos, com perdedores transformados em vencedores e vencedores em perdedores ou em que todos os candidatos ganham e ninguém perde.
Sendo assim, permita-se que, democraticamente, este modesto escriba entre, também, na dita festa, especulando sobre o seguinte: hoje em dia, como será sabido, viveremos numa sociedade cada vez mais mediatizada, em que um produto se venderá, mais do que pelas suas qualidades intrínsecas, pela publicidade gerada em sua volta ou, se se quiser e como alguém um dia terá dito, onde a televisão consegue vender um Presidente com a mesma facilidade com que vende um sabonete!
Ora, não o professor Pardal, de Walt Disney, mas o professor Marcelo, das televisões, na sua candidatura à Presidência da República, terá partido com clara vantagem nesta matéria em relação aos seus adversários, fruto de, ao longo de anos, entrar, regularmente, na casa dos eleitores enquanto comentador televisivo, com a relevância de se apresentar a solo, isto é, sem poder ser sujeito a contraditório por parte de outros comentadores, que, porventura, pudessem com ele estar em estúdio.
Em consequência, consciente de toda a vantagem de que usufruía, o dito terá optado, tacitamente, durante a campanha eleitoral, por imitar aquela equipa que, sabendo bastar-lhe um empate para a conquista do troféu, se limita a queimar tempo, jogando à defesa, nada arriscando.
E quanto ao outro professor, o Sampaio da Nóvoa, que se revelou o seu mais direto adversário? Para além da desvantagem «publicitária» com que haverá partido, terá tido contra si, nomeadamente, o facto de, por um lado, enfatizar em demasia a sua qualidade de «independente» e, por outro, contraditoriamente, se ter colado ou deixado colar demasiado ao PS ou parte considerável dele.
Assim, no espetro partidário, enquanto uns terão entendido demarcar-se da sua candidatura por não quererem subscrever a ideia de que a denominada «classe política» se encontrará cada vez mais desacreditada, havendo necessidade dum «salvador» fora dela, outros, num xadrez político onde, permanentemente, se medem forças, não terão querido, por via da mesma, «alimentar» o Partido Socialista (PS), avançando com candidaturas próprias, acabando todos por contribuir para o seu esvaziamento e, como tal, mais facilitar a vitória do professor Marcelo logo à volta primeira.
Finalmente, a, certamente, maior derrotada do ato eleitoral e com a qual, poucos, aparentemente, se preocuparão, talvez da embriaguez provocada pela festa: a própria democracia! Quando cerca de metade dos eleitores não vota, sequer, em branco, mas, pura e simplesmente, vira costas ao ato eleitoral, será porque, decididamente, algo irá mal com ela, que não se conseguirá fazer entender e aceitar por tal metade. Apesar de tantos professores, para não falar de «Tino de Rans».