O Museu da Cortiça da Fábrica do Inglês vai reabrir «como era» e com «algumas inovações». Recuperação prova que projetos de «vanguarda» vencem o tempo.
Olhando um pouco atrás, quando abriu, em 1999, «já se falava que este museu tinha de responder às exigências modernas. Participávamos em congressos, colóquios e encontros internacionais e estávamos na vanguarda. E, por isso, hoje, não perdeu as suas capacidades», começa por explicar Jorge Custódio, referência nacional no estudo da cortiça e do património industrial.
Em entrevista ao barlavento, o ex-presidente da Associação Portuguesa de Arqueologia Industrial (APAI), descreve o trabalho de preparação que tem vindo a executar nas últimas semanas, para a reabertura do Museu da Cortiça da Fábrica do Inglês, em Silves, do qual foi, aliás, coordenador geral do projeto original de museologia.
Acontecerá em dois momentos: um primeiro para entidades oficiais, parceiros e convidados, no dia 4 de julho, e depois para o público, no dia 11, ambos sábados.
«O que me foi dado para fazer, e a proposta que apresentei, foi restituí-lo à comunidade e ao novo proprietário, com a segurança e a credibilidade indispensáveis para termos, de novo, o Museu da Cortiça da Fábrica do Inglês ao serviço de Silves, do Algarve, de Portugal e da Europa. Porque restituir é voltar a devolver à comunidade aquilo que ela tinha e perdeu. Esta ideia requer uma atenção muito maior, mas, para mim, é sagrada», sublinha.
Apesar de ter sido um dos pioneiros do género, na altura, este equipamento cultural «cumpriu as regras específicas dos museus industriais e, por isso, ganhou logo um prémio europeu», o Luigi Micheletti, em 2001.
A exposição permanente foi pensada para poder ser atualizada e é por isso que a narrativa «não ficou desatualizada, nem perdeu capacidade de atualização», apesar do interregno de 16 anos.
Custódio lembra que a Lei-Quadro dos Museus só viria a ser publicada em 2004, mas o projeto museológico que criou já antecipava algumas preocupações atuais. Por exemplo, «qual era o museu português que, em 1999, tinha legendas bilingues em português e inglês?», opção que foi assumida de forma a convidar os turistas e todos os visitantes estrangeiros à descoberta do património corticeiro nacional, tal como a inovadora mezzanine possibilitava um percurso alternativo para pessoas com mobilidade ou reduzida.

«Aliás, ainda hoje existem muitos museus municipais que nem sequer têm o que está aqui», garante. Custódio revela ainda que estes dois primeiros eventos de abertura ainda não correspondem à verdadeira abertura do museu. «Tem de ficar claro que os trabalhos continuam».
Por exemplo, vai ser revista toda a comunicação. A sala do arquivo vai transformar-se numa sala de ação cultural e educativa, a pensar nas crianças e no público escolar, «porque os museus também são espaços de educação».
Algumas zonas da entrada principal terão de ser «modificadas porque envelheceram naturalmente devido ao desgaste do próprio edifício. Têm de ser recuperadas, ampliadas e, provavelmente, enriquecidas com novos objetos. Também quero introduzir novas técnicas de apropriação das coleções. Mas isso só poderá ser visto mais tarde».
Esse trabalho, diz, «ainda está a decorrer. Está praticamente tudo preparado, mas exige investimento». A iluminação está a ser atualizada com LEDs, assim como o sistema de climatização.
«Que idiota compraria?»
Em setembro de 2025, o empresário e investidor holandês Erik De Vlieger, sediado e residente no concelho vizinho de Lagoa, surpreendeu tudo e todos ao anunciar que tinha comprado o icónico imóvel, através das suas promotoras imobiliárias Antrix e Carvoeiro Branco.
De Vlieger nunca conheceu a Fábrica do Inglês quando ainda estava aberta ao público. «Nessa altura, estava a trabalhar nos Países Baixos», mas desde que se mudou, há cerca de uma década, passava por ali e «ficava zangado, mesmo zangado» ao ver o permanente estado de abandono e desleixo.
Descobriu que era um ativo de uma instituição bancária e tentou comprar o imóvel durante cerca de três anos. «Comecei a investigar e vi que um dos maiores bancos portugueses, que também é detido pelo Estado, tinha esta propriedade na carteira de ativos. Sei que já tinha sido vendido a pessoas que, deixe-me dizer isto de forma simpática, não estavam muito preparadas» para a recuperar.
Quando se abriu a possibilidade de compra, avançou. Recusou, contudo, que a mesma instituição financiasse o negócio. A motivação foi, sobretudo, restituir dignidade àquele espaço. «Fomos à Câmara Municipal de Silves manifestar a intenção de compra. Claro que não acreditaram em nós. Que idiota faria isso?», brinca.

Na verdade, «se não se colocar o fator amor, e apenas se olhar para uma folha de Excel, tudo acaba. Não sou filantropo. Quero ter lucro e não há nada de errado nisso. Mas há um grande mas», admite. É que antes de qualquer projeto hoteleiro ou nova construção no perímetro, «o Museu da Cortiça tem de abrir!».
O empresário sabe que «em termos de negócio, esta fórmula não funciona. Mas depois de abrir o museu, as coisas acontecem por si. Recupera-se de novo o estatuto. As pessoas vêm. Queremos fazer um hotel agradável, alguns apartamentos – não uma torre – e restaurar uma parte» do edificado original. Apesar de muito danificada por anos de negligência, «gostaria muito de ter a Casa de Chá, de novo, operacional. Aberta a todos, onde se possa tomar um bom café», diz.
«É inacreditável. Quem a deixou chegar a este estado devia estar na prisão. Era tão bonita e agora há mais de 150 mil euros de danos», sobretudo no telhado, «que vou ter de recuperar, seja como for».
Questionado sobre a dimensão do investimento realizado até hoje, recusa revelar montantes. «Não quero falar de dinheiro», responde. Mas é «mais do que esperava» gastar…
«Não havia chaves!»
De Vlieger admite que «foi uma compra às cegas». Ainda espreitou pelas janelas quando o museu estava fechado, mas só quis realmente ver já na qualidade de proprietário. E quando chegou o grande dia, «não havia chaves».
Então, «pegámos num pé-de-cabra e entrámos. E, claro, estávamos de respiração suspensa. Pedi à minha mulher e a alguns amigos: vamos fazer isto, porque isto é excitante». Entraram com receio e expetativa. «O que vi foi incrível», recorda.
Na bilheteira do Museu estava um jornal aberto, tal como foi deixado por quem lia as notícias de há 16 anos. Havia danos no telhado. As fotografias estavam amarelecidas pela luz.
Ainda assim, a descoberta foi melhor do que esperava. «Quase chorei, porque pensei que ia ser um trabalho enorme. Ficámos muito felizes por não ser um desastre. Assim tínhamos uma boa base», afirma.

Espólio quase intacto
Jorge Custódio confirma que encontrou uma espécie de cápsula do tempo. «Não houve perdas relevantes», afirma. O antigo coordenador já tinha visto as instalações no fórum que discutiu o futuro da Fábrica do Inglês. Na altura, o proprietário anterior abriu as portas aos participantes e permitiu perceber que a situação do era bem distinta da do resto do complexo.
«A fábrica ficou toda estragada. Ninguém a guardou, ninguém a protegeu. Ficou abandonada, vandalizada e saqueada», recorda. Custódio acaba de concluir a conferência de bens, «peça a peça», baseada nos inventários existentes, incluindo um realizado pela Câmara Municipal de Silves. Concluiu que «poucas peças foram alteradas ou mexidas. Demonstra que o património continua válido».
Os amigos do alheio também por ali andaram, mas procuram, por norma, outras coisas, diz, dando como exemplo o caso da antiga fábrica de fiação de Tomar, onde «chegaram a lançar explosivos durante a noite para retirar tudo o que tivesse valor de sucata, como cobre e ferro. Aqui, não havia muito desse material».
Ainda assim, «se olharmos ao redor, parece quase uma zona de guerra. O museu foi poupado, também porque houve um cuidado de acompanhamento por parte do município que tinha isto classificado. Houve um interesse claro em evitar o seu desaparecimento e isso tem de ser reconhecido», sublinha.

Iniciativa privada mas de interesse público
Jorge Custódio desdramatiza a privatização deste património e explica que «um museu privado também pode ser um museu público. Há muitos exemplos. Paga-se bilhete, mas qualquer pessoa pode entrar. Existem vários em Portugal, de empresas e associativos. No património industrial isso é muito frequente», explica. «O importante são os valores que o museu serve».
Agora, «o que se espera para o futuro é que as peças e os espaços onde se encontram possam oferecer mais informação. Que qualquer pessoa que venha visitar o museu possa compreender melhor aquilo que está a ver. Isso será feito em conjunto com a equipa de comunicação e marketing das empresa proprietárias. Poderão existir visitas guiadas, temáticas, programas turísticos e educativos. Estamos a falar sobre essas possibilidades. Isto é apenas o arranque».
Erik De Vlieger concorda e diz que tem recebido todo o tipo de ideias e sugestões. A grande novidade é que «o museu vai estar aberto em julho, agosto e setembro, gratuitamente. Vai ser apenas obrigatória a inscrição no novo website» que em breve estará online.
O empresário vai assumir os custos de funcionamento, incluindo do pessoal.

Passado bastante presente
Jorge Custódio confidencia que acompanhou, embora à distância, o encerramento em 2009, a falência, a transferência do espólio para mãos privadas e a degradação progressiva do complexo. A esperança de uma reabertura, essa, nunca a perdeu.
«Não estava cá, mas lutei sempre», e recorda a proposta de classificação da Fábrica do Inglês como monumento industrial que redigiu, entregue à então Direção Regional de Cultura do Algarve. Recorda a mobilização pública que, durante anos, procurou impedir que a memória corticeira não desaparecesse.
«Não entrei neste projeto por acaso. Houve uma grande luta para que este museu estivesse ao serviço da comunidade desde 5 de outubro de 1999. E que estivesse ao serviço da comunidade no sentido de ser um museu útil para Silves, para o Algarve, para Portugal e para a Europa».
Olhando para trás, no catálogo da exposição permanente, há uma passagem que terá sido escrita pelo fundador da Fábrica do Inglês, onde se lê: «partindo de uma iniciativa empresarial privada, alicerçada num projeto económico-financeiro virado para um mercado específico do turismo, vai conseguir, através deste, os recursos financeiros necessários à preservação de um património industrial cuja importância é reconhecida pelos melhores peritos nesta matéria».

Para o antigo coordenador geral, «não falhou o enquadramento. O que falhou foi a empresa. Porque o museu teve um número suficientemente grande de visitantes na altura». O então coordenador local, José Manuel Castelo Ramos, «analisou, estudou e até publicou os números», que chegaram aos 100 mil em 2001.
«O museu era uma espécie de alavanca para a empresa. Mas a empresa acabou por deixar de ser uma alavanca para o museu. Não foi capaz de ter uma organização suficientemente forte para estabelecer o paralelo» entre a sua exploração comercial e o valor cultural.
Antes do colapso, Custódio tentou que todo o património ficasse protegido por escrito. Diz ter alertado o empresário José António Silva, ligado ao extinto grupo Alisuper, para a necessidade de garantir que, mesmo perante qualquer problema empresarial, o museu não se perdesse.
«O senhor agora tem de fazer um documento para que, caso haja aqui algum assunto, o museu não se perca, para que esteja sempre aberto e para que sirva à comunidade», pedido que diz não ter sido satisfeito.

«Não assinou. Não teve essa preocupação. E uma pessoa sabe que uma empresa pode estar bem e pode morrer».
No entanto, diz, «este museu marcou uma geração. Muitas pessoas visitaram-no. Muitas escolas, muitos estrangeiros passaram por aqui. Houve pessoas que conheceram a história da cortiça e a história industrial do Algarve através deste museu. Portanto, existe uma memória coletiva associada a este espaço. E essa memória não desapareceu. Ficou adormecida».
Mas, repete, «não basta abrir a porta. É preciso voltar a comunicar. Voltar a criar atividades. Um museu vive das pessoas. Não vive apenas das coleções. Um museu sem público é um museu incompleto. Estamos a recuperar uma ligação que já existia. E isso faz toda a diferença, porque existe uma memória, uma identidade. E tudo isso continua aqui presente».