Caro leitor,
Fernando Cabrita, poeta que vive em Olhão, a nove quilómetros de onde eu próprio vivo, costuma dizer que existe uma genealogia na escrita (na verdade acho que ele diz poesia) que leva a que na escrita de um escritor sejam sempre acolhidos muitos outros escritores. Isto porque o escritor escreve o que é, mas também o que lê. Assim, o que eu escrevo, o que qualquer escritor escreve, tem sempre raízes numa literatura que lhe é anterior e que lhe serve de estrume, porque o escritor é sempre e antes de mais um leitor. Se chegaste até aqui, caro leitor, tem paciência e segue-me até ao próximo parágrafo.
Ainda estás aí, leitor? Sim? Está bem! Dá-me então mais um pouco de atenção, para que tente explicar-te porque te considero tão importante. A língua define–nos como seres humanos, e o mesmo vale para a arte, comum a todos nós, que é a arte de contar histórias. Eu sou escritor, daí esta familiaridade contigo, leitor, daí a importância que te dou, porque só em ti o que escrevo se lê e existe verdadeiramente. Um grande escritor, Jorge Luís Borges, que cito de cor, correndo o risco de errar, disse que as bibliotecas são cemitérios. Na verdade, um livro que não é lido está morto e só o leitor pode dar-lhe de novo vida. Daí a tua enorme importância, leitor, daí a tua enorme responsabilidade. Permiti-me então que te convide para um novo parágrafo.
Procuro ainda um ponto de partida comum para estes textos, escrevo, mas na verdade já o tenho, ainda que só agora me tenha apercebido. É assim a escrita, cheia de dúvidas e de revelações. Escreve-se, escrevendo; e é assim que escreverei estas rubricas. Sei que o que escreverei estará à sombra de uma verdade que é a de que da minha janela se vê o Algarve, título e tema que afinal escolhi para estas conversas com o caro leitor.
Qualquer mentira deve, já dizia certeiro o poeta António Aleixo, trazer à mistura qualquer coisa de verdade. E é o que acontece neste caso. Da janela (do meu quarto) vê-se realmente o mar, vê-se o azul, e o Algarve é azul, disso não tenho eu dúvidas. Assim, da janela que será esta rubrica poderemos, eu e tu, caro leitor, espero eu, ver sempre o Algarve, o Algarve em letras, porque eu sou um escritor e estou no Algarve. Mas, caro e paciente leitor, tal como agora me seguiste parágrafo a parágrafo; se me quiseres continuar a ler, e ler o que mais direi, terás de me seguir até uma próxima vez, que agora vou ficar por aqui.
Desculpa-me ter dito tão pouco, é o que sinto, mas acredita que quanto mais eu me calar mais tu te dirás.
Até à próxima.
Luís Ene | Escritor