Levaram pás, picaretas, papel, esferográficas e um sinal onde se lia «Nós Somos o Mar a Proteger-se a Si Próprio», nome dado à ação artística que juntou 18 pessoas semi-enterradas no areal da praia de Odeceixe, na manhã de sábado, 11 de junho.
A ideia partiu da performer Maria Lúcia Cruz Correia, natural de Odeceixe, que atualmente reside na Bélgica e que conta no currículo com vários projetos artísticos de cariz ativista ou de sensibilização para a preservação dos sistemas naturais.
«Tanto eu como a Celine Rodrigues», mentora do coletivo «Preservar Algarve», de Odeceixe, «acreditamos que a arte tem um forte potencial em criar sensibilização e mudança, de uma forma construtiva. Porque a arte pode ser inspiradora, inovadora e positiva. Um protesto pode ser feito numa linguagem visual criativa, até porque já existe demasiado pessimismo na nossa sociedade», explicou Maria Correia ao «barlavento».
Assim, «esta performance veio ao encontro da linha de trabalho que o grupo de Odeceixe tem vindo a apresentar e da minha vontade em contribuir» para a luta contra a exploração de petróleo e gás no Algarve.
Na verdade, o grupo «Preservar Algarve» tem auxiliado na sensibilização e informação à população daquela zona algarvia acerca desta questão controversa. As iniciativas têm sido bem recebidas e apoiadas por associações, Juntas de Freguesia e até pelo Concelho Municipal de Aljezur.
No momento da performance, que decorreu entre as 10 e 12 horas, os participantes redigiram cartas à Direção-Geral de Recursos Naturais, Segurança e Serviços Marítimos (DGRM).
A performance foi uma resposta ao pedido do consórcio ENI/GALP para obter um Título de Utilização Privativa do Espaço Marítimo Nacional (TUPEM) para uma sondagem de pesquisa de petróleo com início no próximo dia 1 de julho. O furo ficará a 46,5 quilómetros da Costa Vicentina, e a uma profundidade máxima de 1070 metros, ou seja em frente às praias da Arrifana, Monte Clérigo, Amoreira, Odeceixe, Carrapateira e Amado.
Para já, o grupo não pensa repetir a iniciativa noutras praias, mas gostaria que mais coletivos artísticos algarvios (profissionais e amadores) seguissem o exemplo.
«Tencionamos enviar a estrutura desta performance para todos os grupos do Algarve que estejam interessados em repeti-la, porque acreditamos na partilha, na união e na descoberta de novas formas de ação que inspirem a nossa sociedade», concluiu Maria Correia.
Segundo Celine Rodrigues, o grupo «Preservar Algarve» de Odeceixe é «um colectivo multicultural e intergeracional, antipartidário, e conta com cinquenta membros ativos. Foi criado no início deste ano como resultado da descoberta dos negócios de prospeção e exploração de gás e petróleo que estão em curso na região do Algarve».
«Mostra uma faceta muito orgânica, dado que a contribuição de cada elemento é voluntária dependemos muito da disponibilidade volátil de cada um, assim verificamos que nenhum elemento é insubstituível para que o trabalho possa seguir».
Por último, a performance serviu ainda como alerta aos banhistas, que foram incentivados a participar no processo de consulta pública que a Direcção Geral dos Recursos Marítimos (DGRM) tem aberto até 22 de junho.
MALP interpela Marcelo e «partidos da geringonça»
João Eduardo Martins, do Movimento Algarve Livre de Petróleo (MALP), no seguimento da carta aberta entregue em mãos a António Costa, a 14 de maio, em Loulé, remeteu nova missiva desta vez ao Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. A mensagem «vem mostrar a sua indignação pelo silêncio e pela ausência de resposta do senhor Primeiro-Ministro às preocupações apresentadas pelo
MALP e vem fazer um apelo para que o governo de António Costa acorde do seu sono profundo em relação à exploração de petróleo e gás no Algarve num momento em que as populações e as principais entidades oficiais da região já se manifestaram publicamente contra esta barbárie anunciada e em vias de concretização». «Como turista habitual das praias do Algarve o senhor Presidente da República que não pense que vai passar pelos píncaros da chuva da enorme contestação popular dos algarvios à expropriação ecológica da sua região», lê-se . O documento ameaça que «se persistir a inação», «nada mais resta aos algarvios do que radicalizar a luta» através de «vigílias e acampadas à porta dos partidos da geringonça».
Deputado municipal contesta perfuração ao largo de Aljezur
Sebastião Pernes, deputado Municipal do Bloco de Esquerda em Vila do Bispo é um dos ativistas que participou na consulta pública para a perfuração de petróleo e gás a realizar a 46,5km de Aljezur pela ENI-GALP. Pernes manifesta a sua total objeção à atribuição do Título de Utilização Privativa do Espaço Marítimo, com a finalidade de pesquisa, exploração e produção de hidrocarbonetos em offshore.
«O turismo constitui o motor principal da economia do Algarve, região que se estima ser responsável por 50% das receitas geradas pelos turistas estrangeiros no país, dando vida e sustento a milhares de empresas (micro, pequenas e médias) e aos correspondentes postos de trabalho (cerca de 70.000 directos). A Costa Vicentina vive do turismo, se bem que mais virada para o chamado turismo de natureza, mas também dos recursos marinhos que sustentam a pesca tanto costeira como local ou lúdica, com destaque para a apanha de perceves. A pesquisa, exploração e produção de hidrocarbonetos nos Blocos Gamba, Santola e Lavagante afetariam diretamente a boa qualidade e produtividade actuais do meio marinho da Costa Vicentina, de que dependem todas estas supracitadas atividades É inadmissível que, antes de avançar com as concessões, não tenha sido feito nenhum Estudo de Impacto Ambiental, como o exigiam várias diretivas da UE», defendeu.
Para Sebastião Pernes, «todo o processo de licenciamento tem sido conduzido a revelia da população e dos seus eleitos, surgindo agora este simulacro de Consulta Pública (com prazo curto e sem apresentar informação suficiente) para uma sondagem de pesquisa que implicaria obviamente produção de hidrocarbonetos, caso sejam descobertos em quantidade suficiente».
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