O que muitos julgavam impensável aconteceu Do lado do povo britânico existe uma atração por uma demagogia nacionalista, estimulada pelos problemas da emigração descontrolada, e um sentimento nostálgico pela uma história rica de influência no palco mundial. Do lado externo, não há dúvidas que o fundamentalismo neoliberal conduzido pela Alemanha transformou toda a União Europeia (UE) numa máquina castigadora e burocrática.
O que é certo é que o Reino Unido tanto se afastou da UE que escolheu sair, ignorando os avisos dos economistas e do próprio governo. O país entra agora em território desconhecido, onde já se vislumbram consequências da abertura desta caixa de pandora. A queda da Libra Esterlina para os valores mais baixos dos últimos 30 anos é apenas o começo, sendo expectável a queda do PIB até 6 pontos percentuais, menos emprego, menos receitas fiscais, e ironicamente, mais austeridade. Toda a economia internacional será contagiada (UE e principais parceiros inclusivé, como a China).
O escoceses escolheram permanecer no projeto europeu, podendo esta saída significar o aceleramento dos desejos de independência, o que terá grandes consequências, atendendo à importância do petróleo escocês para as contas britânicas e para o sector energético do Reino Unido Não concebendo o seu futuro fora da União, a Irlanda tem agora um problema a braços. Os eurocéticos ganham também um novo fulgor, ameaçando a estabilidade e a permanência de países-base imprescindíveis à EU, como a França. O populismo e a xenofobia estão de vento em poupa, dando razão à máxima que a história é uma repetição de si mesma.
E há outras lições a tirar: os europeus não podem continuar a fugir à sua realidade demográfica. Mais tarde ou mais cedo, todos chegarão à conclusão que a emigração e a mobilidade interna dos europeus é imprescindível para a solidez das contas nacionais dos Estados-membros.
E no que toca a Portugal? Quase 3000 empresas portuguesas exportam para o Reino Unido, o quarto destino mais importante no nosso comércio internacional. As projeções para perda de PIB português chegam aos 0,5 por cento. A principal preocupação é a evolução negativa da taxa de câmbio e a perda de poder de compra dos britânicos, com impactos no turismo e no imobiliário, sectores cruciais no Algarve, que concentra a maior fatia de investimento britânico no nosso país. Agora, é preciso reforçar a aposta no mercado britânico e ajustar os serviços e a oferta turística à nova realidade conjuntural, para que esta transição não se torne dramática para a economia algarvia.
O referendo não é definitivo. Não sabemos ainda se o Reino Unido sai efetivamente da UE, nem em que termos sairá. Os britânicos mais jovens não querem abdicar de poderem estudar e trabalhar no espaço da UE. Demarcam-se assim da opinião dos seus compatriotas mais velhos a quem um projeto de vida futuro numa Europa unida, pouco importa. A contestação ao referendo promete continuar. Outra consequência inesperada é a própria capital britânica, Londres, símbolo do multiculturalismo em terras de sua majestade, vir falar em independência espelha bem a fratura dos britânicos.
Opinião de Miguel Braz | Licenciado em Relações Internacionais