Bonga e Arnaldo Antunes foram os grandes protagonistas da terceira noite do Festival MED, marcada também pelos concertos de Los Van Van e Orchestra Baobab.
O terceiro dia do Festival MED 2026 arrancou com a performance de uma formação absolutamente emblemática, no sábado, 27 de junho.
A Orchestra Baobab, fundada em 1970 em Dakar, a capital senegalesa, numa altura em que a cidade fervilhava após a independência, emergiu do palco do Baobab Club para se tornar numa das mais icónicas bandas da história do país africano. Sobretudo decisivos nas décadas de 70 e 80, quando gravaram inúmeros discos, acabaram por regressar ao ativo já no início do novo milénio.
Com uma formação que se foi renovando mas que mantém alguns dos músicos originais, exploram a interseção entre as músicas da África Ocidental e a inspiração cubana, como se não houvesse separação entre Havana, Dakar e outras capitais africanas relevantes para esta história sonora, unidas por uma ancestralidade partilhada, por ritmos que sobreviveram ao terror do colonialismo e da escravatura, de quem encontrou familiaridade num parente distante com um passado em comum. Ao vivo, experientes e completos, a Orchestra Baobab destaca-se pelas subtilezas, as nuances rítmicas e harmónicas que nos levam em mais uma viagem pelo mundo e que pedem o balançar dos corpos — sobretudo da cintura para baixo, claro está.
Estava feita a ponte para de seguida mergulharmos no som autêntico de Havana com Los Van Van. Histórica formação cubana com 16 elementos em palco, são uma verdadeira orquestra de pista de dança que tem como principais ingredientes a vibrante salsa e o inventivo songo — género fundado na década de 1970 pelo próprio grupo, ao cruzarem os sons tradicionais de Cuba com diversas influências pop, funk e jazz.
Ao longo dos anos, e depois da morte do líder Juan Formell e a sucessão do seu filho ao comando dos arranjos, o grupo foi modernizando a sua abordagem sem nunca olvidar o legado.
Perante uma ampla plateia subitamente transportada para um salão de baile da ilha caribenha, Los Van Van trataram daquilo que melhor sabem fazer: incendiar a faísca, incitar o movimento, sempre com um espírito de comunhão e uma atitude bem-disposta que os fez conquistar a audiência desde o primeiro momento.
Voltávamos depois ao Palco Cerca para outro dos grandes concertos do festival. Arnaldo Antunes é uma figura maior da música brasileira. Artista de São Paulo moldado pelo tropicalismo, o rock’n’roll e a poesia, co-fundou nos anos 1980 os Titãs, num período em que o rock dominava o Brasil, em paralelo com a abertura do regime da ditadura militar, que iria perecer precisamente nessa década. Já nos anos 1990, iniciaria uma prolífica e exploratória carreira a solo, antes de formar o supergrupo Tribalistas ao lado de Marisa Monte e Carlinhos Brown.
Artista indissociável das transformações da música brasileira ao longo dos últimos 40 anos, Arnaldo Antunes foi sempre um músico inconformado que procurou novos estímulos e abordagens — por isso mesmo, foi ao Mali gravar com Edgar Scandurra e Toumani Diabaté um disco de raiz afro-brasileira, «A Curva da Cintura», que vai beber aos blues do deserto, ao rock que está na sua matriz e a outros ritmos tradicionais africanos.
É este Arnaldo Antunes, criador imaginativo e irreverente, dotado de uma imensa experiência, que se apresentou perante Loulé na noite deste sábado, 27 de junho. Em palco, é uma figura carismática, rodeado por efeitos de luzes, algures entre David Byrne e Caetano Veloso, um músico sofisticado e sapiente que sempre esteve muito mais focado no futuro do que preso a uma memória nostálgica.
Acompanhado por uma formação talentosa, o concerto foi adquirindo diferentes tons, entre o rock’n’roll e a MPB, um artista de imenso mundo que ainda assim é tremendamente brasileiro. Nas filas da frente, várias dezenas de fãs dedicados vibravam intensamente com o ícone paulista.
Enquanto Portugal defrontava a Colômbia para o terceiro jogo da fase de grupos do Mundial de futebol, a música latino-americana fazia-se sentir na cidade algarvia com Calle Mambo.
Os chilenos exploram diferentes músicas populares da América Latina, entre a cumbia e o caporal, a timba ou o huayno, com uma preponderância para as inúmeras flautas que se foram sucedendo umas às outras, e com uma roupagem moderna e pujante que integra eletrónica e rap. É uma espécie de eletro-folclore pulsante, que foi mantendo a energia bem alta no Palco Chafariz.
De seguida, uma verdadeira lenda da música lusófona subia ao palco, recebido com o estatuto de rei, conquistado e merecido há largas décadas.
Bonga, figura fundamental da música angolana, mestre do semba que ainda assim não se restringe a fronteiras musicais, octogenário com uma aura muito particular, gingão que nunca perdeu a malandrice, foi acolhido por milhares de pessoas que ansiavam pelo «pai grande» da música angolana, o «cota» que resistiu ao regime colonial e acabou por cantar as dores (e também as alegrias, era o que mais faltava) de toda uma nação.
Entre as congas e o longo reco-reco que ia tocando ocasionalmente, Bonga mantém a voz rouca característica e que tão bem cola com os instrumentais tocados pela banda.
Hinos como «Mulemba Xangola» e «Mariquinha» geraram, como seria de esperar, fortes reações na plateia, naquele que foi um dos concertos mais dançados e entusiásticos desta edição do Festival MED.
A noite terminava ao som de Fidju Kitxora, identidade difusa, música (e catarse) pós-diaspórica, que parte de gravações de campo em Cabo Verde para uma viagem intensa movida a texturas eletrónicas, percussão orgânica e a presença indelével da vertigem rítmica do funaná.
Em palco, com o projeto desdobrado em quatro elementos, a energia é urgente e vital — há uma força que não se pode parar, uma tormenta remota, tensões para digerir, que espelha um país fundado pelo colonialismo, que vive muito para lá das suas fronteiras graças ao fenómeno das constantes migrações, que alberga contradições difíceis de resolver, entre a morabeza e o kasubody.
Reflexivo e provocador, Fidju Kitxora retrata particularmente bem essas sensações, sobretudo quando este ano foi lançado o segundo disco do projeto, «Ti Manxe».
Discografia à parte, esta é uma música que realmente ganha vida nos palcos, ao vivo, na interação humana com um público, e dificilmente haveria melhor experiência para concluir esta terceira noite do MED no centro histórico de Loulé.






