Cativo nestas horas de afã laborioso como investigador, que me envolvem na última pesquisa que conduzo sobre a evolução histórica dos sistemas de distribuição de água na cidade de Tavira e pelas recorrentes leituras que tenho feito no Arquivo Histórico Municipal (onde desenvolvo actividade, deixando uma nota de particular apreço, a todos os seus excelentes técnicos e funcionários), em concreto das remessas da correspondência recebida pela edilidade local, deparei-me com um precioso documento, datado de 1917, que pelo seu valor humano e carga emocional, não poderia passar em claro.
Um carta… sim, apenas uma carta! Mas muito mais que uma soma concatenada de palavras pejadas de erros, que denotavam a baixa instrução do seu autor.
No seu âmago mais profundo, uma exortação à plenitude de sentimento com que as cartas de soldados mergulhados nos horrores da barbárie da guerra, procuram a luz da esperança e normalidade, nas notícias dadas e recebidas a suas gentes e seu solo. Uma carta que se perdeu. Fosse por ironia de qualquer destino, como uma morada incompleta ou com caligrafia ilegível; um funcionário camarário que a perdeu; um erróneo colocar num qualquer molho de papéis, onde irremediavelmente se extraviou…Quem sabe?
Num impresso-tipo da Young Men´s Christian Association(YMCA) – associação anglo-saxónica cristã, que desde tempos da Guerra Civil norte-americana e transversalmente às deflagrações maiores do século XX promovia a moral e bem-estar dos soldados, o soldado ferrador algarvio integrado no Corpo Expedicionário Português (CEP), de nome Jacinto Custódio -, endereçava-se à sua «cerida inspoza» (querida esposa), para lhe dar novidades sobre a sua localização, em Winchester, Inglaterra.
Ainda hoje existe, numa área central do parque desta cidade, o «esqueleto» de alvenaria de uma chaminé e lareira, conhecida localmente como The Portuguese Fireplace, onde uma antiga placa coberta de zinabre e perpassada pelo passo inexorável do tempo, louva de forma reconhecida os soldados portugueses, pelos serviços de apoio à população da cidade, mais concretamente pelo transporte de madeira, em tempos de carestia de disponibilidade de jovens ingleses, pugnando em qualquer lugar hediondo do continente europeu.
Da narrativa do «nosso» soldado sobre a beleza da referida cidade, da boa salubridade do acampamento onde se encontrava, das «destraçoens e divertimentos» e sobretudo, que estando destacado neste local, se abria a possibilidade para que a família lhe pudesse escrever a enviar «novas». Isto porque, até então, pela provisoriedade da sua localização, até à chegada a terras da velha Albion, não havia sido possível ter uma morada para que o desejado contacto vindo de Portugal, acontecesse.
O mester de um historiador, não cessa no facto estático e com a ferramenta da curiosidade e munidos de entusiasmo (do étimo do grego «entheos» – e da forma de aproximar-se à divindade), a seguinte tarefa passa sempre por aprofundar, o mais e melhor possível.
Questões se levantaram: quanto tempo transcorreu até ao contacto entre o soldado e a família, atendendo a que esta carta perdida, por estar numa remessa de correspondência da Câmara Municipal de Tavira, indicia que nunca foi entregue ao destinatário? Quem era a 4ª Bataria (assim, designadas à época) de Artilharia do 2º Batalhão do Corpo Expedicionário Português? Onde haviam estado os soldados desta bataria? Teriam corrido a infausta sorte dos tombados, desaparecidos e feitos prisioneiros em La Lys, no «desastre» de abril de 1918? Quem era afinal Jacinto Custódio? Onde nasceu? Viveu antes e depois da guerra? E porventura, onde e como morreu? Quem era a querida esposa que tanto desejava abraçar?
Na busca que se impôs, a chegada da verdade plasmada em diversos registos – entre livros de recenseamento militar, registos paroquiais de baptismo e averbamentos de casamento e morte – e nesse dever de aprofundar que nos cabe, a nós historiadores, entra a história de vida do soldado ferrador algarvio. Ao tempo da carta, em 1917, com 26 anos, havia nascido na Conceição de Tavira em 1891; recenseado militarmente, na cidade de Gilão, em 1911; integrado no CEP em 1916, o mesmo ano do seu casamento na Luz de Tavira – freguesia de nascimento da sua esposa – e embarcado semanas após este, em Janeiro de 1917, para Inglaterra.
Descobri, que para venturosa sorte do «nosso» soldado, a bataria de artilharia à qual pertencia, nunca foi chamada à batalha nos «campos do apocalipse», do nordeste de França e de fronteira da Flandres. Que o «nosso» soldado correu, não obstante, enormes riscos, não pela lei de fatalidade de obuses inimigos, ou das cargas de infantaria, mas sobretudo porque os nossos soldados da I Grande Guerra ficaram retidos, em condições atrozes, até ao meados de 1920, tanto em França como na Inglaterra, por falta de capacidade financeira para os fazer retornar à pátria, nos tempos dos atribulados governos da nossa, então, jovem República. E porque o surto de influenza de complicações pneumónicas (também, infamemente, conhecida como gripe «espanhola») tratou já em tempos de paz, de ceifar pela soez gadanha da morte, muitos milhões de sobreviventes do horror das trincheiras, assim como a uma miríade interminável de civis, nas mais diversas latitudes da Europa e América do Norte.
Por certo, voltou a Portugal, onde se reencontrou com a sua «cerida inspoza» chamada Olívia da Cruz, no sítio da Torre de Aires, junto à Luz de Tavira. Seguramente seguiu em frente pela vida, não obstante as sempre presentes marcas de horror e angústia que a guerra deixa a quem por ela passa – directa ou indirectamente – e assim, juntos, passaram através da «espuma dos dias», por horas de trabalho honrado e das «pequenas» grandezas e misérias quotidianas até 1953, ano em que o «nosso» soldado-ferrador cessou sua existência, mas deixando a este vosso servidor historiador e agora, a todos os leitores do «barlavento», uma história épica. Começou nessa carta que nunca chegou ao destino, quiçá acarretando que durante a sua permanência em terras britânicas, o tenham julgado perdido para sempre. Agora e aqui, na proximidade ao centenário da data, encontrado na sua história e recordado para a toda a posteridade, a marca do homem Jacinto Custódio permanecerá. Faltaria, apenas, para que se completasse o ciclo, que quando despindo as vestes de historiador e através de registos patentes, no registo civil da cidade de Tavira, pudesse encontrar, na Luz de Tavira ou em qualquer outra parte, algum dos seus filhos, ainda vivo, (ou netos ou bisnetos), para poder fazer-lhes a entrega do documento perdido – o qual lhes pertence por inteiro e para por um epílogo nesta história, possa haver a sublimação de um exercício pleno de humanidade, pelo legado da perenidade material desta recordação.
Texto de João Tomás Rodrigues | Investigador/Historiador