Seun Kuti, Tiken Jah Fakoly, Arooj Aftab, Mário Lúcio e Expresso Transatlântico marcaram uma segunda noite de grande diversidade musical no Festival MED, em Loulé.
Mesmo num festival com diferentes palcos, ao ar livre, com um espírito animado, circulação de milhares de pessoas e muitas conversas e momentos de convívio pelo meio, é importante haver espaço para performances mais introspetivas e intimistas, que foi aquilo a que Arooj Aftab se propôs num dos primeiros grandes concertos do segundo dia de Festival MED 2026, esta sexta-feira, 26 de junho.
A cantora de raízes paquistanesas, criada entre os Estados Unidos da América e a Arábia Saudita, é autora de uma música singular que cruza a tradição devocional sufi que cresceu a ouvir com uma linguagem contemporânea que estudou e aprofundou na prestigiada Berklee College of Music. Há muitas vezes um lamento, mesmo uma tristeza, certamente um mistério, nas canções que Aftab traz para o palco.
São o resultado de uma abordagem experimental, da convergência do jazz modal e das paisagens eletrónicas, de arranjos sublimes de cordas, feita com uma delicadeza e uma rara sensibilidade artística. Acima de tudo, a virtude performática de Arooj Aftab está nas subtilezas — a beleza da contenção, a raiz espiritual, a contemplação musical. O Palco Cerca serviu de templo a este ritual sonoro que soa profundamente moderno ao mesmo tempo que carrega séculos de história.
A viagem pelo mundo continuou a bordo do Expresso Transatlântico. Cada vez mais madura, a banda composta por Rafael Matos (bateria) e pelos irmãos Gaspar (guitarra portuguesa) e Sebastião Varela (guitarra elétrica) apresentou uma formação alargada ao vivo, com a integração de Zé Cruz (teclados, saxofone) e Tiago Martins (baixo). O comboio sonoro ganha peso e densidade, entra em velocidade turbo rock’n’roll sem nunca perder o caráter dançável das composições, perante uma vasta plateia.
Mesmo com um disco soturno que reflete os problemas do mundo contemporâneo, um Trópico Paranóia editado este ano, os Expresso Transatlântico dançam e agitam na cara da opressão e da injustiça. Pelo meio, houve tempo para uma homenagem sentida ao mestre Carlos Paredes — não temos dúvidas de que, dentro de umas décadas, Gaspar Varela merecerá ter o nome na história com uma reverência semelhante.
As sombras deram lugar à luz quando foi a vez de Mário Lúcio subir ao palco com a sua Pan-African Band. Referência maior da música e cultura cabo-verdiana, o artista veterano de 61 anos veio apresentar Independance, um disco editado em 2025, por ocasião do 50.º aniversário da independência do arquipélago, e que o levou de volta às suas raízes na música de baile, sobretudo movida pelas cordas quentes (ou do Sol, como se chama outra grande banda cabo-verdiana) das 10 ilhas atlânticas.
São canções que respiram leveza e celebração, de alguma maneira nostálgicas, uma espécie de bálsamo relaxado para um povo que, como Mário Lúcio fez questão de sublinhar em palco — também antevendo o jogo no Mundial da Seleção cabo-verdiana contra a Arábia Saudita, que iria acontecer logo de seguida e que ditou a passagem dos tubarões azuis à próxima fase da prova —, tem uma longa história de provações e sofrimento. Que a alegria do presente seja o oásis merecido para a nação crioula prosperar e se celebrar.
Seguia-se outro ícone da música africana. Tiken Jah Fakoly é uma referência incontornável do reggae, músico que canta a sua Costa do Marfim mas também a diáspora espalhada por Paris ou Montréal, assumindo-se igualmente como um herdeiro dos cânones do reggae e dos griots da África Ocidental, os ancestrais contadores de histórias, guardiões da sabedoria e do conhecimento, líderes espirituais que preservam uma memória coletiva, e que só podemos adivinhar como influenciaram e moldaram a música popular moderna.
Ladeado por uma formação consistente, com um reggae autêntico que estava a soar particularmente bem, um concerto de Tiken Jah Fakoly — um dos nomes mais desejados pela direção artística do Festival MED, já há vários anos — é também um profundo manifesto político. O músico de 58 anos usa o reggae como forma de fazer a sua intervenção social, pedindo uma África livre e com menos contradições. “Como é possível ser um território tão rico com uma população tão pobre?”, questionou o artista, que em palco é uma figura carismática, movendo a multidão ao sabor do seu magnetismo.
Ainda teríamos o prazer de presenciar outra faceta brilhante — e fundamental — da música da África Ocidental. 15 anos depois, Seun Kuti regressou a Loulé com a banda de sempre, os Egypt 80, prolongando o legado do pai, o lendário Fela Kuti, figura fundacional do afrobeat, que a partir da Nigéria dos anos 70 moldou o mundo, misturando os polirritmos locais com a bagagem funk, jazz e soul da música afro-americana, conferindo-lhe um caráter profundamente político na conturbada era pós-colonial.
Num momento em que os afrobeats, um som mais pop e eletrónico, um dos muitos filhos que a música nigeriana deixou no mundo, se alastram pelo planeta e pelos topos das tabelas de vendas, com uma grande expressão em Londres ou Paris, contaminando inúmeras estrelas pop, Seun Kuti manteve-se sempre fiel ao estilo original do pai, expandindo o legado desde que é um adolescente, mas incorporando nuances mais jazzísticas ou até próximas do reggae, mostrando, tal como o pai já tinha feito, que as músicas são feitos de movimentos constantes de vai-e-vem, entre a terra mãe do continente africano e a comunidade negra nas Américas, ciclos perpétuos, mas sempre distintos, que só têm originado joalharia sonora da mais alta categoria.
Em palco, Seun Kuti é o líder destemido de uma banda experiente e completa, alguém que carrega uma herança sem nunca deixar de acrescentar ingredientes próprios à mesa. O MED continua a fazer-nos descobrir o mundo sem nunca deixarmos o centro histórico de Loulé.