Até ao final deste ano, o areal da praia de Monte Gordo será um estaleiro de máquinas, camiões e destroços dos antigos restaurantes. Mas desta vez, as demolições até são alvo de consenso. «Hoje dá-se início à segunda fase do projeto de requalificação da praia de Monte Gordo. É uma parceria entre a autarquia, a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e a Capitania do Porto de Vila Real de Santo António. É uma obra estruturante para nós. É a primeira que vamos fazer neste mandato. Serão demolidos 19 apoios de praia. E daqui por cinco meses, esperamos ter os novos a funcionar. Esperamos dar mais qualidade a esta praia que já é das melhores do país», disse aos jornalistas Conceição Cabrita, a recém-eleita presidente da Câmara Municipal de VRSA.
Os futuros 18 apoios de praia, a construir entre janeiro e maio de 2018, serão concessionados aos empresários, «que pagaram sempre tudo e que tem as contas em dia. Todos os que detinham atividade na praia e possuíam a sua situação fiscal regularizada, não necessitaram de submeter-se a concurso. Isto põe fim ao sistema de licenças precárias que vigorava até hoje», sublinhou a autarca. Terão uma arquitetura modelar em materiais uniformizados e ficarão bem integrados na cota e no layout do passadiço de madeira, inaugurado no passado dia 14 de julho.
O processo começou no mandato do ex-presidente Luís Gomes, com a construção do passadiço pedonal, «uma obra que nos trouxe muita chatice. Parece que a oposição nunca quer que o concelho avance e disse que era uma obra ilegal», lamentou Conceição Cabrita. «Já temos o visto do Tribunal de Contas e, portanto, por muito que queiram que nós não avancemos, a verdade é que não vão conseguir. Para todos os concessionários será uma vida nova», sublinhou.

Na verdade, não foi apenas a oposição que criticou. João Santos, dirigente da associação ambientalista Almargem, em entrevista ao «barlavento», em maio passado, elogiou alguns aspetos da reabilitação em curso, sobretudo na melhoria das condições de salubridade dos restaurantes e dos apoios de praia. «Pena é que o carácter tradicional esteja a ser substituído por edifícios de traça modernista e de qualidade duvidosa. E o pior, no meio disto tudo, é a construção de um passadiço sobrelevado com dois quilómetros de extensão», que, segundo considerou, é «uma aberração dissonante e uma barreira visual para os banhistas e utentes dos apoios de praia» de Monte Gordo.
Conceição Cabrita aproveitou agora a ocasião para responder. «A Almargem devia entender que estamos a fazer uma obra a favor do ambiente. Se calhar não querem entender o que é o progresso, de acordo com todos os parâmetros ambientais atuais. Porque sou da área da geologia, sei que isto é uma reconstituição do cordão dunar».
Sebastião Teixeira, da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), corroborou o argumento da autarca. «O que se está a passar agora em Monte Gordo é o que se passou há 10 anos na Praia da Rocha. A duna costeira é o primeiro elemento natural de resistência à ação do mar e às alterações climáticas. Isto é uma intervenção a pensar na reconstrução do cordão dunar nos próximos 20 a 50 anos. Vamos deixar o vento e a areia trabalhar», até porque a natureza «não tem ciclos políticos».
«Este é um processo que remonta a 2005, com o Plano de Ordenamento da Orla Costeira (POOC), cuja ideia é requalificar globalmente o Algarve. Temos vindo a executar este plano, devagar, pois implica muita concertação. Na Praia de Monte Gordo, a situação que está aqui demorou quatro anos. Este é o semestre final», explicou.
Fernandes da Palma, comandante do Porto de VRSA, assegurou aos jornalistas que «este projeto tem qualidades ímpares. É uma praia escolhida pelas famílias portuguesas e, neste contexto, fazia falta a requalificação. Foi percebida desde o início pelos utentes e pelos concessionários. E, portanto, toda esta renovação tem sido pacífica e tem tido a aceitação de todos».
Paulo Calvim, concessionário de um restaurante há nove anos e sócio de outro apoio de praia, concordou. «Há que evoluir e mudar as coisas para melhor. Esperamos ter uma praia com mais qualidade. Aliás já se nota pelo número de pessoas que estão a visitar o novo passadiço, tanto agora, como no verão». Ao longo do processo «houve várias reuniões, quase todos os concessionários estão satisfeitos. Claro que não se consegue agradar a gregos e troianos».
Segundo o «barlavento» apurou no local, os novos apoios de praia vão custar mais de 400 mil euros aos concessionários. Um proprietário dos mais antigos, mostrou-se desagradado por ter tido de fechar portas mais cedo que o previsto e, sob anonimato, garantiu que quem vai pagar tudo isto «são os clientes, nos próximos anos».
«Esta é a maior alteração feita no Algarve nos últimos 20 anos. Esperamos que corra bem e que na próxima época balnear estejam todos os apoios a funcionar», disse ainda Sebastião Teixeira, da APA.
As demolições são suportadas pela autarquia e estarão concluídas até ao final de dezembro. Com esta obra, ficarão concluídos todos os acessos até ao areal (quer da marginal, quer dos novos restaurantes), finalizando-se assim todas as estruturas e equipamentos associados ao passadiço. A intervenção total está avaliada em 10 milhões de euros.


