Quem entrevistar os turistas que deixam o Algarve, depois de uma temporada de férias, ouvirá certamente elogios à gastronomia e o acolhimento. Contudo, quem veio de carro ou alugou uma viatura na região, terá algo mais a dizer.
É que o turismo no Algarve, ao contrário do que diz Lisboa, não vai continuar a crescer. O aumento dos últimos anos apenas se deve à atual insegurança no norte de África, Grécia e Turquia e até dentro da Europa. A região não pode, portanto, face à concorrência que tem e que vai ter a médio prazo, dar-se ao luxo de continuar a ter uma EN125 que é uma armadilha mortal, e ao mesmo tempo, manter este sistema de portagens na única via alternativa disponível.
Recentemente, uma obra próxima de Boliqueime interrompeu o trânsito, causando grandes filas e atrasos durante os picos do horário de quem vai e regressa do trabalho. Disse ao Algarve Resident a empresa responsável, que não é sua obrigação informar a imprensa. Isto é uma atitude cível? É uma afronta a quem paga os seus impostos que são canalizados para os bolsos dessas empresas públicas e privadas que nos desprezam, nos atrasam, nos aleijam e nos matam com estas atitudes.
Poucos exigem a retirada total das portagens na A22, mas muitos criticam os valores e o complicado sistema de cobrança. É um absurdo ter apenas quatro dias úteis para pagar a portagem, após longas filas nos CTT. Parece propositado, de forma a abrir caminho para a Autoridade Tributária cobrar 700 milhões em multas. Pois é claro que as pessoas evitam multas a todo o custo, que muito pesam no orçamento austero que nos impuseram; e quando se chega a este volume de dinheiro é porque o sistema está (muito) errado.
Que fazer? Os protestos dos vários movimentos não têm surtido efeito. Penso que será necessária uma ação de desobediência cívica para mudar este sistema, já que os poderosos recusam-se a ouvir e aceitar argumentos. É certo que neste milénio o que vale em Portugal e em toda a UE é a filosofia «quero, posso, mando» e chamam-lhe «democracia».
Podemos falar, mas as sugestões não são ouvidas. Na verdade, muitos comentadores repetem na comunicação social o que os poderosos querem que seja dito, para nos iludir, para depois obterem tachos com salários e regalias que nem os países «pobres» da UE, Suécia e Alemanha, podem pagar a deputados e administradores de empresas públicas.
Portugal deve delegar a tomada de decisões sobre as suas infraestruturas, a nível regional, tal como acontece noutros países. O centralismo é a causa de muitas más decisões que resultam sempre em fatalidades: acidentes, desemprego, perda de competitividade nas pequenas e médias empresas, anemia na economia.
Basta de delegar as soluções para os problemas que mais nos afetam nos políticos. É urgente que as associações locais e a sociedade civil se mobilizem a sério. Não precisamos inventar a roda, apenas adaptar, aos nossos queridos Algarve e Alentejo, práticas que lhes assegurem um presente e futuro.
Opinião de Jack Soifer | Consultor internacional