José Veloso | Arquiteto
Seria de extrema irresponsabilidade pensar Portugal, e o Algarve em particular, como imunes face à ameaça terrorista que pende sobre os mais diferentes locais do mundo. A natureza indiscriminada e global do terrorismo, embora esteja manifestando orientações específicas na Europa, não permite pensar que há espaços privilegiados libertos dos perigos daí decorrentes. A única proteção eficaz de que os cidadãos e as organizações pacíficas dispõem contra o terrorismo, é a exigência lúcida e firme, junto dos respetivos governos, da eliminação, na origem, das razões e dos apoios, quer no fornecimento de armas, quer no financiamento, que permitem a implantação e o desenvolvimento das ações terroristas, sejam quais forem os seus matizes. O envolvimento do Algarve só se deverá dirigir nesse sentido, para proteção das condições de vida da população.
Dália Paulo | Chefe de Divisão na Câmara Municipal de Loulé
Independentemente da nossa localização geográfica, num mundo globalizado como o nosso, é importante que estejamos atentos, para que saibamos ler a evolução dos acontecimentos. Quem estudou História sabe que as épocas novas não acontecem de repente, as últimas décadas foram construindo o Estado Islâmico (EI) ora com a complacência de Estados ora com um combate cego, atacando o outro sem o compreender. E mais grave, fomos assistindo, mais ou menos indiferentes, quando a carnificina era distante (pensávamos nós!), começamos a preocupar-nos quando a vaga de refugiados foi chegando à Europa, por vezes indignados ou receosos, até que atacaram uma cidade que representa a nossa sociedade. Horror. Sim, mas porque não reagimos assim quando ao longo do último ano assistimos à “longínqua” ação do EI e à criação do Califado? A preocupação com a vaga de terrorismo deve ser gerida com precaução e sem alarmismos! Temos, mais do que nos preocupar, que tentar, cada um de nós, contribuir para mudar o mundo que nos fez chegar aqui, é imperativo lutar contra fanatismos e não nos deixarmos dominar pelo medo.
Pedro Lopes | Administrador grupo Pestana
Os atos de terrorismo têm sempre que ser um motivo de grande preocupação quer para o nosso país, para a nossa região, quer para cada um de nós, enquanto cidadãos livres de um Estado integrado em organizações internacionais, como a União Europeia e a NATO que constituem o suporte do nosso atual estado de bem-estar, paz social e segurança. Mais ainda, quando a raiz destes comportamentos terríveis reside na grande instabilidade, porque passam uma série de países e regiões, sobretudo, no Médio Oriente. E não é previsível que os problemas que estão na origem do terrorismo se resolvam nos próximos tempos. É assim provável que os fluxos turísticos provenientes dos países europeus optem, cada vez mais, no futuro próximo, por permanecerem dentro do perímetro europeu e ocidental, quer para viver, quer para passar , por questões de segurança e de aversão ao risco.
Teresa Fernandes | Responsável de Comunicação da Águas do Algarve, S.A.
O mundo e a Europa, estão de luto pela gravidade dos atentados que demonstram uma crueldade monstruosa, diria até com requintes de malvadez totalmente incomensuráveis, que têm vindo a ocorrer nestes últimos dias pelo grupo jihadista do Estado Islâmico. As ameaças de novos atentados são também uma constante, e não podem nem devem ser ignoradas, sendo Portugal (quer pela localização estratégica, quer pelo passado muçulmano) um dos países que poderá estar na “mira” deste grupo. Todavia, o terrorismo combate-se com a união de forças e uma maior coligação entre os países aliados, a qual nestes últimos dias têm vindo a ser reforçadas. Veja-se que todos os países do G20, que reúne as 20 maiores economias do mundo declararam, recentemente, o combate conjunto ao terrorismo. Do que sabemos, também localmente, o estado português tem vindo a reforçar toda a segurança nos locais com maior probabilidade de ocorrência de atentados, muito embora, neste momento essa ameaça possa ser ainda muito reduzida. Devemos, contudo, manter-nos alertas, e confiantes de que tudo estará a ser efetuado pelas autoridades, para prevenir todos e quaisquer atentados terroristas no nosso país, e na nossa região.
Elidérico Viegas | Presidente da AHETA
O terrorismo islâmico constitui, de facto, uma preocupação crescente para a generalidade dos países à escala mundial. A dimensão global e planetária do terrorismo exige ações por antecipação a nível local e regional, envolvendo todos os atores, incluindo as forças policiais e serviços de segurança, mas também todos os cidadãos, organizações da sociedade civil e agentes económicos. O problema é de todos e todos são necessários para combater e erradicar o maior flagelo da modernidade. O fator segurança assume-se como uma das valências competitivas mais importantes da economia portuguesa em geral e da economia do turismo em particular, designadamente no Algarve. A instabilidade dos destinos turísticos concorrentes é, aliás, uma das principais razões para o bom desempenho da atividade turística, sendo mesmo responsável pela recuperação do sector nos últimos anos.
Samuel Mendonça | Diretor «Folha de Domingo»
Penso que sim, principalmente por três razões. Em primeiro lugar porque a própria organização criminosa já fez uma ameaça que inclui, concretamente, a Península Ibérica (referida como Al-Andalus, numa alusão à designação que teve durante a ocupação islâmica, antes da reconquista cristã). Ora, sendo o Algarve a «porta de entrada» da península (e da Europa), e dada a sua proximidade geográfica com o norte de África – cujos países têm sido uma opção na estratégia de progressão da organização –, essa possibilidade afigura-se como real. Em segundo lugar porque uma zona turística como Algarve parece também enquadrar-se nos critérios da organização ao privilegiar, como alvos de ataques, estâncias e unidades hoteleiras com muitos turistas estrangeiros. Um atentado nesses lugares – pese embora todas as vidas humanas valham o mesmo – tem sempre um forte impacto por atingir cidadãos de países que consideram como os seus principais inimigos. Em terceiro lugar, porque já se percebeu que esta guerra é mundial, sendo certo que por isso ninguém está a salvo, e que o daesh continua, incompreensivelmente, a crescer.
Carlos Campaniço | Escritor
Não sabemos. O terrorismo vive da imprevisibilidade. Presumo que os actos terroristas venham a aumentar a nível planetário, por três motivos: o primeiro é que há hoje uma parte do mundo islâmico com grande repulsa pelo Ocidente, uma repulsa sem retorno. Invasões do Iraque, Afeganistão, o sempre aceso conflito Israel-palestino, a posição do Ocidente na Primavera Árabe, etc, cimentaram uma propaganda anti-ocidente capaz de mobilizar milhares de jovens para o radicalismo religioso, muitos deles nascidos no próprio Ocidente. A ideia de que tudo o que é ocidental se opõe ao Islão é uma ideia basilar no modo de pensar do autodenominado Estado Islâmico. O segundo prende-se com a escalada do conflito entre a Europa, Rússia e EUA contra o Estado Islâmico. O Estado Islâmico quererá retaliar com mais atentados à perda, que se adivinha, do seu território e do seu exército. Quererá mostrar que está vivo, reconfigurando-se numa organização mais parecida com o que é hoje a Al-Qaeda. Terceiro, há já uma notória compita entre o Estado Islâmico e a Al-Qaeda. São organizações que se combatem, já, e quererão tornar-se hegemónicas através de actos terroristas. Tenderão a executar actos cada vez mais monstruosos e mediáticos. Portugal e o Algarve não parecem estar nas primeiras escolhas deste bárbaro terrorismo. Mas todos os alertas são poucos, pois atacarão os mais incautos.
Ricardo Oliveira | Docente universitário
Em regra, pensamos que o bem-estar e a segurança adquiridos ao longo de décadas são perpétuos, mas nem sempre é assim. Registos recentes na Dinamarca levam-nos a pensar como Tucídides (395 AC): «A paz, não é mais do que um breve armistício». O mundo que nos rodeia, mudou e nós, estávamos distraídos. A vida em sociedade transformou-se em caminhos individuais sem solidariedades. Este é um tempo novo que sugere valores. Knight (1921) definiu risco quando se pode definir uma probabilidade de ocorrência de uma situação. Caso contrário, incerteza. Calcular o risco de um atentado terrorista, face a aleatoriedade do fenómeno, não é tarefa fácil. A opinião de peritos também sugere reserva. O caminho da segurança é criar condições de prevenção. Sun Tzu (200 AC) referia que «O melhor plano de batalha é vencê-la de antemão através da estratégia». Na sua decisão, o visitante pondera o risco e em regra, opta por um destino seguro. Portugal, em regra, e o Algarve, em particular, devido à sua situação geográfica periférica (fora da rotas de transito de imigrantes) bem como o seu posicionamento político internacional (país pacífico), são dos locais mais seguros da Europa. Essa é a perceção de quem nos visita, constituindo fatores críticos de sucesso únicos, que convém manter. Afinal, a segurança constrói-se cada dia.







