Quando, em 1994, elegi a área científica em que queria fazer o doutoramento (Literatura Portuguesa), tive de tomar uma decisão consequente: a de também escolher a universidade em que o queria inscrever e defender. Sendo eu, desde 1991, Assistente Convidado na Universidade do Algarve, o debate, entre amigos, colegas e familiares, centrou-se nas seguintes questões:
• sendo a instituição de ensino superior onde eu lecionava tão jovem (15 anos, na altura) e, por esse motivo, não tendo ainda decorrido tempo suficiente para nela se ter desenvolvido, com pujança, a área científica em que queria realizar o doutoramento, faria sentido inscrevê-lo aqui?
• não seria muito mais prestigiante para mim poder vir a dizer que me tinha doutorado na Universidade de Lisboa (de onde era a minha orientadora e onde eu me tinha licenciado)?
Hesitei durante muito tempo, até ao dia em que a saudosa Professora Teresa Amado (da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), me disse que se tratava de uma falsa questão, porque o maior ou menor prestígio do meu doutoramento dependia exclusivamente da qualidade da tese que eu escrevesse, do mérito do júri escolhido para o apreciar – e não da universidade onde ele fosse defendido. Antes dessa conversa, quase tinha cedido ao argumento do prestígio da Universidade de Lisboa enquanto «sede» preferencial e óbvia para a conclusão do doutoramento, mas aquela apreciação tão sábia da minha orientadora desfez todas as dúvidas: acabei por inscrever a minha tese na Universidade do Algarve, tendo-me tornado o seu primeiro doutor em Literatura.
Do júri fez parte, entre outros académicos de grande relevo, o Professor José Mattoso, que assegurou uma das arguições principais. No final, porque o júri foi unânime no reconhecimento do mérito e da qualidade do trabalho que lhe apresentei, esse mérito e essa qualidade também se transmitiram à Universidade do Algarve.
Ninguém nega que há instituições, em Portugal e por esse mundo fora, cujo renome, associado ou não à antiguidade, contamina muito positivamente todos os seus diplomados, mas não nos devemos, por esse facto, deixar de interrogar sobre a seguinte evidência: por mais excelente que seja, globalmente, uma instituição, nunca os seus professores e os seus graduados serão todos igualmente excelentes. De facto, enquanto estudante da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, tive excelentes professores, mas também professores sofríveis e maus – e o mesmo poderia dizer de colegas de curso.
Tudo isto vem a propósito da Universidade do Algarve e da avaliação que pode ser feita da sua qualidade por todos aqueles que, tendo uma instituição de ensino superior público perto de casa, aqui na região, continuam a apostar em ir estudar para mais longe, à procura de uma «qualidade» que imaginam não conseguir encontrar aqui. Creio que esta perceção se deve, fundamentalmente, a dois fatores:
• à existência de experiências negativas ocorridas na Universidade do Algarve e passadas de boca em boca a partir dos relatos de quem as viveu, assim se criando uma poderosíssima publicidade negativa relativamente a alguns cursos, professores ou funcionários;
• ao preconceito de que numa «universidade regional e muito jovem» dificilmente se atinge a qualidade de uma «universidade central e mais antiga».
Quanto ao primeiro desses fatores, é nossa obrigação identificar os problemas (normalmente pedagógicos ou deontológicos) e agir, com vista à sua correção – e é o que temos vindo serenamente a fazer, cientes de que eles não são específicos da Universidade do Algarve, mas transversais ao sistema educativo.
Ultrapassar o segundo depende menos de nós e mais dos valores de quem avalia com base naqueles critérios. Ainda assim, intensificando o nosso programa de comunicação com a região, temos vindo a usar todos os meios disponíveis para dar a conhecer o que de bom, muito bom e excelente temos feito na Universidade do Algarve, no Ensino, na Investigação e na ligação à Comunidade.
A Universidade do Algarve só existe porque, ao longo de décadas, um conjunto de personalidade algarvias muito persistentes nunca deixou de lutar pela realização desse desejo profundo. Mal seria, então, que, depois desse enorme esforço de uma geração e depois do grande investimento que aqui foi feito, a única universidade do país criada por uma deliberação da Assembleia da República, em 1979, fosse progressivamente minguando por, afinal, quem cá vive, considerar mais prestigiante ir estudar numa das «grandes universidades».
Não sou algarvio. Licenciei-me na prestigiada Universidade de Lisboa. Sou aqui professor desde 1991, exercendo o cargo de reitor desde dezembro de 2013. Tendo em conta tudo o que disse, deixo duas perguntas aos leitores: ter-me-ei eu enganado, nos anos 90, quando decidi doutorar-me pela Universidade do Algarve e dedicar a minha vida académica a esta instituição de ensino superior tão especial? Ter-me-ei eu enganado outra vez quando, em 2013, decidi candidatar-me a reitor desta universidade?
Claro que não. Porque, quando hoje olho à minha volta, já vejo muita qualidade humana, científica e pedagógica na instituição de que sou o dirigente máximo (aproveito para recordar que, para haver muita nata, tem de haver muito leite). E para quem gosta de rankings, até posso acrescentar esta informação: no mais recente ranking das 1000 melhores universidades do mundo (Center for World University Rankings), só constam sete portuguesas – e a Universidade do Algarve é uma delas.
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António Branco é atualmente o reitor da Universidade do Algarve.