Vêm dos tempos de Eça, o uso no léxico burguês e snob, fundamentalmente de Lisboa e Porto a importação de expressões que, vox populis eram batizadas como francesismos. Funcionavam como uma espécie de «faite la diference» de homens herdados e improdutivos que se passeavam no Chiado ou na Avenida dos Aliados.
Era o tempo em que se usava chapéu para se tirar de forma teatral quando se cruzavam com as senhoras, apresentavam-se no Dona Maria e no Rivoli com expressões como «enchanté».
Claro que o uso de tal adereço era em Portugal igualmente usado pelo povo, que só tirava a boina quando ia à missa, a casamentos, a batizados ou funerais.
Era igualmente o tempo em que as amas levavam os bilhetes das senhoras a marcar encontro com os seus amantes, dada a displicência de maridos marialvas e das suas concubinas bem trajadas. Tempos em que o povo escrevia cartas de amor, primeiro lidas à lupa pelos pais, e em se começava a namorar à janela.
Ex novo expressões, entre outras, como «homeless» e «silly season», entraram na linguagem dos «opinion makers» em debates, convenções, fóruns e outras exibições teóricas.
A primeira morreu, por se sentir ofensivo traduzir para inglês uma realidade cada vez mais vincada e transversal no dia-a-dia português. A segunda revela um certo «apartheid» em relação ao tecido social deste nobre povo.
Seria teoricamente um tempo para juntar a família mais alargado, ir de férias para uma praia, ler um livro, repensar o que se tinha realizado, repor energias para a nova temporada.
Isto resumia-se aos políticos, empresários e à extinta média burguesia. O homem sumário cá para as nossas bandas, na verdade, vive a única época ativa, produtiva e que pode apoiar a economia familiar até à próxima época alta.
Para quem andou pelo mundo à procura dele, de forma interiorizada, reflexiva e curiosa, tenho recordações únicas de palavras cuja tradução não existia noutras línguas e, igualmente expressões sem sinónimo na língua de Camões.
O eterno fado, a única e maravilhosa saudade, são expressões que nada tendo de piegas são um património que nos distingue, elogia e diferencia.
Numa das saudáveis noitadas que tive em Pequim, onde o meu saudoso amigo Morbey, então assessor cultural da nossa embaixada, que não deixava que pernoitasse em hotéis, depois de um jantar tipicamente chinês, servido de forma elegante pelo seu mordomo fardado (tinha sido mordomo do pai Bush), passamos para a sala contígua, onde entre carpetes mongóis e duas terracotas da Dinastia Tang, se iria repetir o nosso duelo numa mesa de xadrez de porcelana.
Dois Remy Martin em balão aquecido, um Romeu e Julieta tirado da charuteira com a humidade regulada, o cachimbo do Dr. Morbey, com música chinesa de fundo e a presença elegante e charmosa da sua mulher chinesa Ontim, professora universitária em Tóquio, que iluminada por um candeeiro de abajour, sentada numa poltrona lia Camilo Peçanha.
O jogo terminou aos quarenta e sete minutos com a vitória do meu amigo e a minha promessa de desforra. E lá começamos os três a visualizar slides da remota China e a falar sobre a respetiva influência das nossas culturas uma na outra.
Depressa passamos para o que nos diferenciava e, depois de um conjunto de vulgaridades por mim enumeradas, entre outras a estranheza do estar a mesa dos chineses e dos seus arroto sonoro depois das refeições, perguntei à Ontim o que é que achava de estranho no nosso comportamento(?).
Resposta tranquila, com naturalidade, quase a desculpar-se e com os ensinamentos e de Confúcio disse-me: «O que eu acho estranho é que os ocidentais quando se assoam dobram o lenço e guardam os micróbios no bolso». Mudamos de assunto. E a partir daí comecei a usar lenços de papel.
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Opinião de Adelino Nogueira Vaz, consultor de imagem.