Quando começou a desenvolver o projeto de apoio às trabalhadoras sexuais, Elsa Cardoso, técnica do MAPS, colocava em causa o seu trabalho. «Foi difícil perceber porque é que eu ia a um apartamento entregar material de prevenção e apresentar o nosso projeto, se aquelas pessoas tinham dinheiro para aceder a cuidados de saúde». No entanto, percebeu que «isso não interessa para nada».
E explica porquê: «O que interessa é fazer a sensibilização e prevenção. É também difícil para o público perceber o trabalho que desenvolvemos. Porém, é preciso entender que o telefone destas mulheres toca de dez em dez minutos, e quem liga, são os pais, irmãos, filhos e maridos de muita gente! Com o nosso trabalho estamos a proteger uma comunidade inteira, dentro da dignidade possível», explica.
O projeto «As Madalenas» iniciou-se em 2004 e tem sede em Quarteira e uma delegação em Portimão. Em Quarteira, o projeto é coordenado por Vera Sebastião, a partir de uma casa discreta. O «barlavento» teve a oportunidade de conhecer as instalações e assistir a uma intervenção de rua.
Atualmente, o projeto é cofinanciado pela Direção Geral de Saúde e coordenado pelo MAPS, uma IPSS (Instituição Particular de Solidariedade Social) algarvia sem fins lucrativos.
Assistimos ao trabalho que desenvolvem junto das trabalhadoras sexuais que se encontram na «Rua da SIC», em Quarteira. No local, encontrámos quatro mulheres. «As que trabalham na rua não têm as mesmas condições nem ganham tanto dinheiro».
Existe o sexo comercial de rua, de bar e de apartamento. E cada um está associado a preçários e condições muito diferentes. Uma das trabalhadoras que abordamos solicita a marcação de uma consulta com a médica, e uma outra, 50 preservativos. Sebastião procura sempre saber como estão e do que precisam. Conhecem-se pelo nome e há visivelmente uma relação de confiança. «Muitas delas não têm retaguarda familiar ou com quem contar e ficam contentes por saber que há alguém que se preocupa». Num dos cruzamentos, uma outra trabalhadora afirma que há poucos dias foi assaltada e ameaçada com uma faca por dois indivíduos.
Independentemente da legalidade no país, dinheiro, ou condições de quem se dedica ao trabalho sexual, o projeto tem como principal objetivo «a minimização de danos e redução de riscos, ou seja, disponibilização do material preventivo e sensibilização para a prevenção do VIH e outras doenças», explica Osvaldo Coutinho, coordenador do MAPS.
Para isso, disponibilizam «serviços médicos e de enfermagem, balneário, lavandaria, banco de roupa e mediação linguística. Existe também um gabinete de psicologia e apoio jurídico. À disposição estão materiais como preservativos, lubrificantes, folhetos informativos, testes rápidos de VIH/Sida e testes de gravidez». Sempre que necessário, as utentes podem requisitar o serviço de transporte para a consulta médica que acontece todas as quartas-feiras. Às segundas e sextas são feitas intervenções de rua.
Coutinho é a favor da legalização da profissão: «ainda não é legal, mas também já não é crime. No entanto, a partir do momento em que é ilegal, não há proteção», sublinha.
Afirma que as «dificuldades económicas» são o principal motivo pelo qual se opta pelo trabalho sexual, mas «para outras trabalhadoras é uma opção de vida vir para um país estrangeiro angariar dinheiro, para depois investir no país de origem», explica.
Cardoso acrescenta que «falamos de pessoas que entram para este mundo por carências económicas, mas descobrem, no espaço de um ano, que podem adquirir uma qualidade de vida muito superior. Há quem tenha filhos em colégios privados, boas casas e carros e querem proporcionar-lhes a qualidade de vida que nunca tiveram. Associado a isso está uma profissão que não tem dignidade? Sim! Mas para elas isso não tem importância porque a vertente financeira compensa», evidencia.
No entanto a realidade está a mudar. «Existem também muitas mulheres traficadas. Temos contacto com estes casos. São identificados porque são denunciados pelas próprias mas logo depois surge um arrependimento. Ou porque há uma relação afetiva com a pessoa que a explora ou porque há ameaças», explica Coutinho.
Continua dizendo que «o nosso trabalho é a disponibilização dos serviços para a prevenção. Se interferimos numa rede perdemos o contacto com todas e perde-se a relação de confiança. Nós não somos polícias, mas claro que a partir do momento em que a trabalhadora diz “estou numa rede, preciso da vossa ajuda” nós estamos lá para ajudar», conclui.
«Defendemos a educação para a saúde. O nosso trabalho é sensibilizar, educar e informar. A palavra-chave é «acesso». Muitas das trabalhadoras que recorrem ao projeto estão ilegais. Não podem ter uma consulta médica. E mesmo as legais, não se querem identificar como trabalhadoras sexuais perante um médico. O nosso objetivo é prestar esse acesso de forma igual a todos. O ganho de saúde não é só para a trabalhadora, é para todos! As boas práticas replicadas garantem a saúde de muitas outras pessoas», sublinha. «Somos, muitas vezes, a única oportunidade que têm de ter uma conversa normal. Levamos connosco muito mais do que apenas preservativos», conclui.
Associação para o Planeamento Familiar (APF)
Lara Santos, coordenadora da APF Algarve, explica que o projeto iniciou-se em 1983 e conta atualmente com quatro colaboradores. «Em 2002 adquirimos uma unidade móvel de saúde sexual e reprodutiva equipada para atendimento de públicos vulneráveis, e em 2007 iniciamos a intervenção junto de trabalhadores sexuais». Também fazem assistência a trabalhadoras com a diferença que disponibilizam o teste rápido VIH/Sida no local.
Neste momento dirige o projeto «Aquém e Além Margens – Risco 0». Santos conhece de perto a realidade da prostituição de rua e oculta, em apartamentos e espaços de diversão noturna no Algarve, protagonizadas por imigrantes, quase sempre ilegais, mas também e em número crescente, por portuguesas «dizimadas pelo desemprego, pelo consumo de substâncias e por situações socioeconómicas deficitárias», descreve.
Preocupa-se sobretudo com a situação das trabalhadoras estrangeiras que se encontram altamente desprotegidas.
«Quando são assaltadas ou agredidas não conseguem queixar-se porque a polícia não faz nada. Fizemos um inquérito a todas as nossas utentes e perguntámos se se sentia protegida. Todas disseram que não! Se tiverem algum problema, não recorrem à polícia, porque não está sensibilizada para aceitar e apoiar. É uma profissão de alto risco».
A APF possui uma casa-abrigo para pessoas traficadas por fins de exploração sexual, o «Espaço Pessoa», na zona norte, e já encaminhou algumas trabalhadoras.
«É possível fazer a sinalização mas é muito raro e difícil. As trabalhadoras sexuais de leste, por exemplo, muitas vezes nem sabem que são traficadas. Pensam que são objetos e que têm um preço, até porque têm uma vida melhor do que quando estavam com as suas famílias, e nem comiam. Ou não têm noção ou são coagidas. São violentadas e torturadas, não falam», conclui.
«Eu faço dinheiro, mas o dinheiro não me faz»
Chama-se «Roberta». Tem 40 anos e é natural de Pernambuco, no Brasil. É filha de pai português e mãe brasileira. Foi mãe aos 17 anos e tem 25 irmãos. Chegou a ser professora. Vive em Portugal há 20 anos, e há sete que se dedica ao trabalho sexual no Algarve.
Tem um segundo trabalho, na hotelaria e já teve outras profissões, mas o dinheiro que ganha com o sexo é muito superior aos rendimentos do trabalho convencional e não está sujeito aos efeitos da sazonalidade.
«Quando chega o inverno fico desempregada. Moro sozinha com os meus filhos, e não tenho o apoio de ninguém. Tenho contas para pagar», afirma.
Trabalha apenas aos fins de semana e sobretudo em bares, embora confidencie que onde se ganha mais é nos clubs. Vilamoura, Albufeira, Carvoeiro, Portimão, Alvor, Silves e Messines são boas zonas para o negócio do sexo. Os meses de ouro são os da época alta do golfe, a partir de outubro, uma vez que «os golfistas» são alguns dos principais clientes.
«Chegam a pagar até 400 euros por um “programa” de uma hora». Já os holandeses, suecos e noruegueses chegam a pagar mais do dobro porque «não estão habituados e têm mais dinheiro».
Paga-se adiantado. «É como no cinema. Primeiro paga o bilhete, depois vê o filme», e num bom mês já chegou a receber 3000 euros. De acordo com a sua experiência, «30 por cento dos clientes são portugueses e 70 por cento estrangeiros». Principalmente ingleses, irlandeses e escoceses.
A nacionalidade também dita a preferência dos clientes. Os estrangeiros procuram uma companhia para se divertirem nas férias. Os portugueses «preferem um convívio, mais fugaz, em apartamento», explica.
Há ainda quem nem procure sexo, mas apenas conversar. «Há sempre uma psicologia envolvida. Eu faço dinheiro, mas o dinheiro não me faz», salienta.
«Há muitos homens carentes e frustrados, que não têm sexo aberto na casa. Há ainda muitos que gostam de se vestir de mulher, com fetiches e dupla sexualidade. É o caso da maioria dos ingleses, mesmo casados e com namorada», afirma. Já os portugueses têm motivações diferentes: «talvez até tenham em casa o que querem, mas gostam de trair. Não são fiéis!», sublinha.
Admite que toda a família no Brasil sabe o que faz aqui em Portugal. Salvaguarda os filhos. «É uma questão de respeito». Não quer que se revoltem.
Com o dinheiro que ganhou conseguiu pagar a formação superior de uma irmã e dos filhos. «Com muito sacrifício formei uma irmã», refere. Contempla toda a situação como «um projeto de vida». «Ajudei a minha irmã e filhos, e neste momento, tenho três propriedades no Brasil», fruto do dinheiro que investiu. Traçou o objetivo de trabalhar mais dois anos para depois viver das poupanças e investimentos. «Estabilizar a vida em Portugal com os filhos e ser feliz» é o que mais ambiciona.
Sobre o projeto «Madalenas II» do MAPS, sublinha: «precisamos muito dele. São pessoas fundamentais e fazem um trabalho sério. Sabem que todas chegam lá meio tímidas mas fazem sentir-nos à vontade».
«Sempre que posso vou buscar preservativos para mim e para as meninas. Não ‘fico’ sem preservativo!»
«Roberta» elogia ainda as consultas médicas: «a doutora sabe o que fazemos e consigo expor o que sinto! Sinto-me à vontade para falar abertamente de questões de saúde relacionadas com minha atividade profissional, sem estar sujeita a julgamentos. Infelizmente, muitas mulheres ainda não se cuidam».
A instituição surge como uma das principais fontes de apoio de «Roberta», que explica «tratam-nos bem e dão-nos muita força. Também já recorri ao apoio psicológico. Preserva-se muito a saúde. Sinto-me orientada. Se não fosse a sua existência, haveria muita gente a praticar sexo de forma incorreta e a contaminar-se. Se houver algum problema sei que posso contar com eles».
Projeto «As Madalenas»
• Utentes: 433
• Consultas médicas:143
• Citologias: 85
• Testes rápidos: 131
• Análises de sangue: 86
• Gabinete jurídico: 17
• Gabinete psicologia: 7
• Média utentes/mês: 105
• Material distribuído: 97.244