Não nasci no Algarve mas sinto-me e digo-me algarvio; é pois natural que me pergunte o que é ser algarvio, partindo do princípio que ser algarvio é muito mais um estado de espírito do que a simples consequência geográfica de aqui ter nascido.
Não nasci no Algarve, repito, e o mesmo aconteceu aos meus pais. No entanto, se quisesse alegar raízes ancestrais a ligar-me a esta região, é certo que poderia fazê-lo, invocando os meus avós maternos, algarvios da serra alentejana, bem como os seus pais e os pais dos seus pais. Porém, a questão em causa é outra.
A serra é uma fronteira natural que criou e acentuou durante muito tempo um Algarve que se fez diferente, destino turístico de muitos no verão, destino maldito dos que aqui vivem o resto do ano.
Mas, retomando a ideia de que ser algarvio é um estado de espírito, ideia inicial aqui avançada, em que consistirá então esse estado? Será ter o olhar sempre pousado no azul? Será falar a cantar? Será gostar de xarém e de berbigão? Será ser avaro e comer na gaveta? Ser irreverente? Ser aquele rabugento alegre que reclama de tudo e que com pouco se alegra? Ser doce como o figo e intenso como o medronho? Estar sempre de férias? Gostar de peixe grelhado?
Muitas perguntas e nenhuma resposta, pode o leitor dizer e terá razão, mas a verdade é que perguntei a muitos como eu o que é ser algarvio e as respostas raramente coincidiram. A luz e o azul apareciam em muitas respostas, no entanto referiam-se mais ao ser Algarve do que ao ser algarvio, apesar de se sentirem todos algarvios.
Ou será que ser algarvio é apenas estar aqui e querer e gostar de estar aqui. Mas o melhor é deixar que um escritor nos fale dessa sensação de sentir o Algarve na sua plenitude. E que melhor escritor do que um escritor algarvio que nasceu em Mar del Plata (Argentina) e tão bem diz o Algarve.
Penetro no azul
quero misturar-me com a paisagem
fundir-me com este lugar
fazer parte das salinas
das ilhas
dos pinheiros
dos cheiros vegetais
da vista da varanda da casa abandonada
estar nesta luz e neste vento
neste aroma
no monte próximo
na nora da casa destruída
Quero devorar a erva com estes cavalos
devorar a paisagem
voar com estas aves
ser este moinho
ser o comboio que passa
Este fragmento do poema Marim, de António Ventura, diz bem, na minha opinião, este sentir-se algarvio, ou sentir-se a sul, que também assim se poderia dizer, este devaneio que nos leva a desejar a fusão com este lugar.
A terminar, e de passagem, gostaria de manifestar o meu sentido desejo de ver nova edição de as Visões de Marim, um livro decididamente a Sul, de António Ventura e Fernando Cabrita, onde está o citado poema Marim.