Cinco anos depois da fundação, o S2AQUAcoLAB tem 40 colaboradores, 26 projetos em execução, financiamento europeu ativo e uma nova sede em construção no Hub Azul de Olhão.
«Acho que o balanço é francamente positivo», afirma Pedro Pousão, presidente da direção do S2AQUA – Laboratório Colaborativo, Associação para uma Aquacultura Sustentável e Inteligente, com sede em Olhão.
«Em cinco anos conseguimos criar um corpo de investigadores e técnicos altamente especializados, montar infraestruturas e consolidar uma relação forte com as empresas do setor», resume.
«Os recursos humanos que temos são altamente qualificados, muitos com doutoramento, e isso implica uma estrutura salarial exigente que temos de conseguir suportar», confirma Letícia Domingues, diretora financeira.
Para assegurar este encargo, a estrutura apresentou uma candidatura ao Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), através da Missão Interface do Pacto para a Bietecnologia Azul, Vertical Algas, e contou também com fundos do Programa Regional ALGARVE 2030.
Para já, «estamos bem. Temos crescido todos os anos, tanto ao nível de serviços como de clientes novos», revela. No entanto, «é muito importante a questão do financiamento base, porque, como somos uma estrutura recente, ainda não nos conseguimos financiar a 100% sem qualquer apoio. Agora é necessário garantir sustentabilidade».
Alexandra Marques, gestora de projetos, confirma que «temos assistido ao incremento, quer do número de candidaturas submetidas e aprovadas, quer do número de projetos em execução», com 26 em curso, vários dos quais de dimensão nacional, transfronteiriça e europeia, distribuídos por diferentes tipologias e fontes de financiamento.
Uma peça fundamental para a Economia Azul
Os laboratórios colaborativos existem em Portugal desde 2017. Criados para fazer a ponte entre o setor privado e a comunidade científica, têm como missão gerar conhecimento aplicado que ajude as empresas portuguesas a competir nos mercados internacionais e a criar emprego qualificado no país. São associações sem fins lucrativos, no caso do S2AQUAcoLAB com estatuto de utilidade pública, integradas no sistema científico nacional.
O modelo foi desenhado para ter um terço de financiamento público estrutural, complementado por financiamento competitivo e serviços prestados. Ao contrário de laboratórios de Estado ou centros universitários, um CoLAB pode desenvolver projetos exclusivos para empresas associadas, mantendo enquadramento científico e contratual.
«O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) ou a universidade têm de manter equidistância institucional. Eu, como CoLAB, posso dizer: vou fazer aquele trabalho só para aquela empresa que quer o exclusivo», explica Pedro Pousão.
No entanto, o financiamento base termina em junho. A nova Lei da Ciência, que deverá definir o enquadramento futuro, ainda não foi publicada, o que está a causar alguma «expetativa» na equipa.
«Estou a trabalhar, a contratar pessoas e a candidatar-me a projetos com base num pressuposto. Se mudam as regras do jogo a meio, isto causa complicações. Evidentemente que há quem tenha melhor ou pior tesouraria. Mas nenhum CoLAB, seguramente, resiste até ao fim deste ano se não houver um enquadramento que mantenha os pressupostos para os quais foram criados», alerta.
No plano empresarial, o apoio é declarado. No âmbito do último Fórum dos CoLABs, 109 empresas subscreveram uma declaração pública de apoio à continuidade do modelo. No caso do S2AQUAcoLAB, todas as empresas associadas assinaram a missiva.
«É fundamental que a Lei da Ciência saia. E que chegue em tempo», diz. A avaliação formal está prevista para 2027. Pedro Pousão não recusa o escrutínio. «Não nos assusta que venham ver se o dinheiro está bem empregue pois produzimos ciência e soluções», afirma o presidente da direção. «Agora, espero que não mudem as regras do jogo, sem nos darem tempo de adaptar».
Alface do mar e cabelos de velha
Por detrás dos números estão equipas em laboratório. Numa bancada, a bióloga Raquel Quintã investiga a produção sustentável de algas marinhas, num trabalho que cruza ciência aplicada com economia circular, em três frentes simultâneas.
«Neste momento, temos três projetos em curso: o Vertical Algas, que faz parte do Pacto da Bioeconomia Azul, o Blue Boost e o AlgFlavor», detalha.
O Blue Boost, financiado pela Sustainable Blue Economy Partnership (SBEP), iniciativa cofinanciada pelo Horizonte Europa que reúne 16 instituições de 7 países e a Comissão Europeia, trabalha o princípio da aquacultura multitrófica integrada.
«Estamos a cultivar ulva, a chamada alface do mar, com a água que vem do cultivo dos peixes, que é mais rica em nutrientes. A ideia é potenciar o crescimento das algas que, em simultâneo, melhoram a qualidade dessa mesma água», explica.
O projeto BlueBoost decorre em tanques na Estação Piloto de Piscicultura de Olhão (EPPO) e o projeto Vertical Algas em contexto offshore, em parceria com a Seaculture, empresa do grupo Jerónimo Martins com jaulas de produção de dourada e robalo ao largo de Vila Real de Santo António.

Apesar de terminar em junho, os resultados são promissores, embora ainda inconclusivos para escala comercial. «Há algumas espécies que têm mais potencial para as nossas águas, mas ainda há muito trabalho a fazer». A escala offshore tem vantagens de espaço, mas implica desafios logísticos que ainda carecem de solução.
Além disso, ambos os projetos trabalham a circularidade. «Estamos a limpar a água ao mesmo tempo que criamos um produto novo e valioso. É um dois em um muito interessante» para as empresas.
Já o AlgFlavor, financiado a 100% pela SBEP [MA1.1], com orçamento de 127.500 euros atribuídos ao S2AQUAcoLAB e vigência até julho de 2028, aborda os desafios do sabor que dificultam a inclusão das algas na alimentação diária.
«O que vamos investigar é, por exemplo, como uma luz diferente ou um nível de nutrientes diferente afetam a composição da alga e o seu sabor», explica Quintã.
O projeto trabalha com ulva e perspectiva incluir a gracilaria, alga vermelha conhecida como cabelo de velha, numa fase posterior. A Gracilaria gracilis está autorizada apenas como suplemento; a Gracilariopsis longissima, outra espécie do mesmo grupo que a equipa pondera estudar, já pode ser consumida diretamente.
A Ulva Ohnoi passou a integrar o catálogo europeu de alimentos de consumo tradicional, sem necessidade de testes adicionais para aprovação.
Alimentar melhor para produzir mais
Noutra bancada, Michael Viegas, investigador formado em Bioquímica, participa na conceção e implementação de ensaios experimentais, na análise de dietas e na medição de parâmetros bioquímicos e moleculares em peixes e camarões.
Quando chegou, vindo da Sparos, empresa associada do S2AQUAcoLAB onde realizou o doutoramento, identificou uma lacuna: não existia no Algarve uma estrutura capaz de realizar composição proximal de forma rápida e eficiente. As amostras de rações seguiam para o Porto.
«Um dos meus objetivos, quando entrei aqui, foi montar esta estrutura para dar apoio ao setor», dedicada à análise da composição proximal, que determina os teores de proteína, gordura, matéria seca, cinzas e energia, tanto em rações como nos próprios peixes. Trata-se de informação essencial para formular dietas e avaliar a eficiência nutricional dos ensaios. «É dos pilares da nutrição», resume.
O passo seguinte é a acreditação laboratorial, que permitirá prestar mais serviços a produtos comerciais, prevista para coincidir com a mudança para o novo Hub Azul de Olhão.

Em construção no perímetro do porto de pesca da cidade, o edifício permitirá concentrar a maioria das valências do S2AQUAcoLAB. A ambição é alargar a carteira de clientes, afirma Pedro Pousão, referindo que alguns associados enviam amostras para o estrangeiro por falta de alternativa. A inauguração está prevista para junho, mas «o que fica pronto é o edifício, não os equipamentos», precisa. «Até dezembro poderá estar tudo a funcionar», prevê.
O espaço integrará também uma incubadora de startups de biotecnologia. «Já há umas ideias, mas ainda não anunciamos», diz Pousão. O modelo de governança está a ser ultimado com os parceiros: a Câmara Municipal de Olhão, a Docapesca, o IPMA e a Universidade do Algarve.
Desafio do caranguejo de casca mole
Outro projeto em curso é o Softcrab, que pretende desenvolver um modelo de produção sustentável de caranguejo de casca mole no sul da Europa, explorando duas espécies: o caranguejo azul, espécie exótica e potencialmente invasora invasora no Guadiana, e o caranguejo verde, espécie nativa até agora subvalorizada.
«O caranguejo verde aqui é utilizado principalmente como isco», explica a investigadora Renata Gonçalves. A ideia de lhe dar outro valor partiu da professora Alexandra Teodósio, reitora da Universidade do Algarve.
O produto tem uma janela biológica muito estreita: as duas a três horas que se seguem à muda da carapaça, quando o animal ainda está mole. Nesse momento é ultracongelado e vendido a restaurantes como produto de elevado valor gastronómico.
O desafio está em controlar as condições que aceleram e sincronizam esse processo. Os ensaios em laboratório mostram que os 24 graus aceleram a muda, mas aumentam também a mortalidade.
«Se calhar o ideal é escolher alturas do ano em que a água ronde os 20 graus», diz Renata Gonçalves, mas até ao momento, os resultados obtidos sugerem que, no caso do caranguejo verde, 20ºC é a temperatura mais adequada.
A próxima fase é replicar os ensaios nas instalações da piscicultura Atlantik Fish, em Castro Marim, em ambiente industrial, com águas provavelmente mais ricas em nutrientes.
Ciência algarvia à escala europeia
Letícia Domingues e Alexandra Marques destacam a projeção europeia da ciência realizada no S2AQUAcoLAB. No âmbito do Programa Horizonte Europa, o CoLAB participa em dois projetos:
- REALM — Reusing Effluents from Agriculture to unLock the potential of Microalgae — com um orçamento global de mais de 8 milhões e financiamento a 100% para o período 2022–2027. O projeto desenvolve soluções para produção sustentável de microalgas com reutilização de efluentes agrícolas;
- FEASTS – Fostering European cellular Agriculture for Sustainable Transition Solutions – com um orçamento global superior a 7 milhões de euros e financiamento a 100% para o período 2023-2026. O projeto proporciona uma sólida base de conhecimento inovador sobre a sustentabilidade da indústria da carne cultivada (cultured meat – CM) e do pescado cultivado (cultured seafood – CSF), promovendo ativamente o envolvimento de múltiplas partes interessadas e atividades de cocriação baseadas num diálogo transparente e em práticas de ciência aberta.
No plano da cooperação regional europeia, no âmbito do programa Interreg Atlantic Area, integra o projeto AQUAFISH 0.0, em curso desde novembro de 2023 e com conclusão prevista para outubro de 2026, com orçamento de 80.000 euros atribuídos ao laboratório e cofinanciamento FEDER de 75%. A iniciativa centra-se na valorização de subprodutos da pesca e aquacultura para desenvolvimento de novos produtos com filosofia de desperdício zero.
É ainda parceiro no projeto UPWELLING que aborda desafios críticos que a economia azul do espaço atlântico enfrenta, estabelecendo uma rede transnacional de stakeholders e uma academia para formação especializada em tecnologias marinhas emergentes, e com um orçamento total superior a 2,5 milhões de euros.
Lidera ainda o DigiATLA, com orçamento total de 2,1 milhões de euros, dedicado à digitalização da aquacultura atlântica, com arranque operacional no início deste ano, tal como o barlavento noticiou.
Outra novidade é o desenvolvimento de serviços de deteção de vírus na aquacultura, entre eles o norovírus em ostras, que a lei não obriga em Portugal, mas que já é exigido em França e começa a ser pedido pelo restante mercado europeu. Esta análise permite aos produtores exportar com maior segurança, e reduzir o risco de bloqueios comerciais.
Ainda este ano, irá implementar o projeto AquaVAN, um laboratório móvel financiado pelo MAR2030, que prestará apoio à aquacultura do Sotavento, com atuação direta no terreno junto dos produtores.
O S2AQUAcoLAB é ainda entidade reconhecida pelo Sistema de Incentivos Fiscais à Investigação e Desenvolvimento Empresarial (SIFIDE), estatuto que permite às empresas que invistam no laboratório deduzir em IRC uma percentagem das despesas aplicadas em investigação e desenvolvimento