O S2AQUAcoLAB, em Olhão, já testa a presença de norovírus em ostras para garantir exportação segura e antecipar exigências legais do mercado europeu.
O S2AQUAcoLAB, laboratório colaborativo sediado em Olhão, desenvolveu serviços de deteção de vírus, entre eles o norovírus em ostras, que a lei não obriga em Portugal, mas que já é exigido em França e começa a ser pedido pelo restante mercado europeu. A análise permite aos produtores exportar com maior segurança, e reduzir o risco de bloqueios comerciais.
O norovírus não mata a ostra nem deixa rasto visível. Mas quando está presente, quem a consome pode ficar doente. A invisibilidade é a sua principal característica e justifica a criação de um serviço específico pelo S2AQUAcoLAB, após solicitação dos próprios produtores.
«Este protocolo foi desenvolvido porque os viveiristas da Ria Formosa vieram ter connosco e pediram-nos este serviço», revela Inês Freitas, técnica de Biologia Molecular do S2AQUAcoLAB.
«Na altura, começámos a testar para um produtor local, da zona da Ria Formosa. Entretanto já expandimos para outros produtos». O serviço chega agora a aquacultores de outras zonas de produção de bivalves do país e regista maior procura nos meses frios.
O norovírus está presente no ambiente de forma natural, intensifica-se com temperaturas mais baixas e reduz-se na estação quente. «Na altura do inverno tende a aumentar, e no verão, com as temperaturas altas, desaparece, tal como a maior parte dos vírus. Não é um problema de agora», esclarece Inês Freitas.
E também «não afeta a ostra em si, afeta depois é o consumidor», afirma. «Causa gastroenterites e diarreia se a ostra for consumida crua. A problemática não parece ser para a ostra, mas para quem a come», reforça.
Uma vez feita e confirmada a análise, o produtor recebe um relatório que indica se o vírus foi detetado e em que quantidade. Parece simples, mas a deteção deste patógeno requer capacidade técnica e processamento complexo através de técnicas de biologia molecular avançadas.
«Demora muito tempo a otimizar — e o processo é um bocadinho longo. O ano passado estivemos a otimizar o protocolo e só agora o temos a funcionar a 100% e segundo as diretrizes internacionais».
Mercado antecipa a lei
Em Portugal, «neste momento, a lei não exige que essa análise seja feita, mas em França já a requerem para poderem comercializar as ostras», explica Inês Freitas.
«Os produtores portugueses solicitam-nos a análise para ter a certeza de que estão a vender produtos seguros para os seus clientes e consumidores».
Pedro Pousão, diretor do S2AQUAcoLAB, enquadra esta decisão numa lógica preventiva. «Há muitas vezes a ideia de que se não se analisar, não existe. Mas depois (a ostra) chega à Europa, quem a compra analisa e verifica-se que afinal, existe. Isso pode dar cabo de todo um setor», alerta. E recorda um precedente: «Nós não tínhamos toxinas na costa até que começámos a analisar os mexilhões — e existia».
A origem e presença do norovírus na Ria Formosa não é clara. «Eu não sei se não havia, ou se não o detetávamos», reconhece. Admite que o crescimento e desenvolvimento da ostreicultura no Algarve e a introdução de produtos de diferentes origens podem criar condições para a introdução de patógenos, pelo que é importante a sua avaliação preventiva. «Se não prevenirmos aqui, os compradores analisam estes produtos à chegada e podem devolvê-los e criar-se uma má imagem do sector».
O norovírus é apenas «um dos vários patógenos que conseguimos detetar. Há uns que afetam as ostras, outros que afetam o ser humano. Alguns estão nos peixes também», esclarece Inês Freitas, que também realiza análises em amêijoa e outras espécies de bivalves e pescado. «O importante é analisar e diagnosticar.

Capacidade de carga da Ria Formosa «não é alarmismo, é bom senso»
A questão dos patógenos e da qualidade da água na Ria Formosa integra um debate mais amplo sobre o crescimento da aquacultura no sistema lagunar.
O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), através do projeto AZA4ICE, propôs e abriu à discussão e participação pública, um Plano de Ação para uma transição circular e sustentável do setor, que inclui a avaliação da capacidade de carga da Ria Formosa e o estabelecimento de «limites produtivos, ambientais e ecológicos».
«Os três na prática querem dizer a mesma coisa», afirma Pedro Pousão, que é direto sobre o que está em causa.
«Avisarmos que existem situações que têm de ser geridas não é alarmismo, é bom senso», afirma.
«É essencialmente bom senso e proteger as produções» que existem. «Dizer que é preciso respeitar os limites — é como avisar que não se deve construir casas no leito de cheias, ou chamar a atenção para a limpeza da floresta. É uma questão de prevenção para que não se chegue a um extremo».
Segundo dados citados no Plano de Ação para a Transição Circular e Inclusiva do Setor da Aquacultura na Ria Formosa, em 2022, a laguna concentrava 57% da produção nacional do setor e mais de 90% dos bivalves produzidos em Portugal.
Para responder a esse desafio, o documento propõe a monitorização contínua dos parâmetros ambientais, licenciamento baseado em evidência científica e a criação de um Gabinete de Apoio Local para a Aquacultura Circular (GALAC).
Para o responsável pelo S2AQUAcoLAB, «o limite é a quantidade de comida disponível no ambiente. Se escassear, o que vai acontecer é que os animais vão passar fome e morrer. Vamos ter mortalidades massivas, porque primeiro passam fome e depois vêm as doenças».
E é num contexto de crescimento da ostreicultura que a pressão sobre o ecossistema aumenta. «O primeiro cultivo era de amêijoas. Sempre foi tradicional no Algarve. No passado, nos anos 1960 havia cultivo de ostra portuguesa mas ocorreu grande mortalidade e praticamente desapareceu. Agora, voltamos a ter o cultivo de ostras. Ou seja, acrescentámos mais um à ria. E todos esses animais vão disputar o mesmo alimento».
Gerir é proteger, defende: «Estudar uma coisa não é criar um problema, mas uma solução». Quanto à situação atual, «acho que aqui não se está a fazer exagero» na produção, mas «há limites» e por isso se propõe que sejam estudados.
A consequência de os ultrapassar e esgotar o alimento natural, alerta, é que «pode morrer tudo. Ou pode haver muitíssima mais mortalidade, ou doenças mais frequentes — e depois espalham-se pela Ria, porque os animais ficam mais enfraquecidos, com menos capacidade de resistência», conclui.
O S2AQUAcoLAB é um laboratório colaborativo sediado em Olhão, fundado há cinco anos para aproximar a investigação científica do setor da aquacultura. Com cerca de 40 colaboradores, articula com instituições de ensino superior, laboratórios de Estado e empresas.
Presta serviços de investigação, analítica e assistência técnica à aquacultura nacional. Está em fase de instalação no Hub Azul de Olhão, novo espaço que centralizará as suas operações.
Ainda este ano, irá implementar o projeto AquaVAN, um laboratório móvel financiado pelo MAR2030, que prestará apoio à aquacultura do Sotavento, com atuação direta no terreno junto dos produtores.