O caranguejo azul (Callinectes sapidus) começou a surgir nas águas do Algarve como um intruso inesperado. Em breve, poderá passar de invasor agressivo a iguaria gastronómica.
O projeto Softcrab, liderado pela Atlantik Fish, pretende criar uma nova oportunidade para os pescadores do Sotavento algarvio: introduzir no mercado nacional um produto inovador e, ao mesmo tempo, contribuir para controlar uma espécie invasora.
O caranguejo azul (Callinectes sapidus) começou a surgir nas águas do Algarve como um intruso inesperado. Originário da costa americana, este crustáceo robusto e agressivo cedo despertou alertas: multiplica-se depressa, compete com espécies nativas e é uma enorme ameaça ao cultivo de bivalves, atividade que na região tem uma importância económica significativa.
«Já sabemos que é um problema. Verificámos que, por exemplo, em Itália, dizimou os cultivos de amêijoas. Há, inclusive, um comissário especial só para estudar o assunto. Entretanto, começa a surgir no sul de Portugal, com alguma abundância no Guadiana. Como é que o podemos controlar? Fomentando e valorizando a pesca controlada destes animais», começa por explicar Pedro Pousão, diretor do laboratório colaborativo S2AQUAcoLAB e da Estação Piloto de Piscicultura de Olhão (EPPO) do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA).
Apesar do risco, Alexandra Teodósio, investigadora da Universidade do Algarve (UAlg), viu uma oportunidade. «Pensamos em dar continuidade a um trabalho anterior financiado pela Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD), desenvolvido em parceria com a Universidade de Maryland».
Nos Estados Unidos da América (EUA), o caranguejo azul não é apenas tolerado: é valorizado. Existe toda uma indústria dedicada à sua «captura, transformação e consumo, sobretudo na versão soft crab», quando o animal muda de carapaça e fica mole, totalmente comestível.
«Fomos a Baltimore para ver como é apreciado. Este caranguejo, para crescer, tal como outros crustáceos, tem de mudar a carapaça. Nesse momento, fica muito mole e atinge o preço máximo no mercado, porque é comido inteiro. Sem carapaça é quase como um guerreiro que despiu a armadura. Fica desprotegido», acrescenta Pousão, que elogia o pitéu.
«É muito bom. Nos EUA comi-o numa sandes, tipo hambúrguer, com as patinhas de fora. Chega a custar 30 dólares o quilo», diz, descrevendo não só o potencial económico, mas também uma experiência gastronómica que Portugal ainda não conhece.
É com este fim em vista que surge o projeto Softcrab, cujo objetivo é transformar uma ameaça em recurso, mas não só com o caranguejo azul.
O projeto abrange também o caranguejo verde (Carcinus maenas), uma espécie nativa da costa portuguesa, mas que, no jogo da ecologia global, é considerada invasora em Maryland.
«Ambos partilham um potencial de valorização através da técnica do caranguejo mole, e pode haver uma nova dimensão de aproveitamento sustentável», adianta a investigadora.
O projeto será implementado nas instalações da Atlantik Fish – Pescado da Maré, Lda., no Esteiro da Lezíria, em Castro Marim.
«Não vamos fazer uma aquacultura, mas quase que um centro de expedição, ou depuradora. Há um tanque de passagem para podermos identificar bem se os caranguejos estão no momento da muda ou não, e protegê-los uns dos outros», explica Pousão, até porque o caranguejo azul é canibal.
Nalguns mercados do Algarve, como é o caso de Olhão, o caranguejo azul já vai aparecendo à venda. «Mas queremos fomentar ainda mais a apanha para o controlar. Não queremos que seja uma atividade ocasional. Queremos que no futuro haja uma atividade de controlo, bem feita, para que não haja um bycatch que destrua o ecossistema ao mesmo tempo».
Por outro lado, «queremos que os pescadores tragam este caranguejo para os tanques, para que possa ser vendido quando é mais valioso. Resumindo, este é um projeto importantíssimo porque, por um lado, permite-nos produzir um alimento e, por outro lado, controlar esta espécie que, potencialmente, pode vir a ser uma invasora perigosa», conclui Pedro Pousão.
Técnica engenhosa, legislação no limbo
Os investigadores já têm uma base científica sólida. Existe pelo menos um doutoramento feito na UAlg sobre o caranguejo azul. Alexandra Teodósio também tem trabalho feito sobre a sua biologia e reprodução. A técnica é engenhosa. Os caranguejos são animais com exoesqueleto (casca dura), mas para que possam crescer há, sazonalmente, um momento em que o animal sai da sua casca e aguarda que uma nova endureça. Este é o momento-chave de todo o projeto. O processo já está a ser testado no Sotavento algarvio, adaptado às condições locais de marés, salinidade e temperatura.
É aqui que entra a Atlantik Fish. Situada numa zona de sapal, entre Castro Marim e Vila Real de Santo António, junto à foz do Rio Guadiana, é nos tanques desta empresa de aquacultura de robalo e dourada que os animais ficam depois de pescados, até porque são já bem conhecidos por lá.
«Nós apanhamo-los quando pescamos os nossos peixes nos tanques. Eles já lá estão. Entram ainda pequenos com a água das marés e crescem», aponta André Lima Cabrita, proprietário da empresa.
Assim, o caranguejo é pescado e mantido em tanques de salinas, em pequenas unidades individuais que impedem o canibalismo. Sem necessidade de alimentação suplementar, aguarda-se o instante certo. O objetivo, reforça, não é produzir mais uma espécie, mas dinamizar um modelo que permita capturar o invasor, valorizar também o nativo e gerar rendimento para as comunidades piscatórias vizinhas. «Só conseguimos convencer os pescadores a apanhar uma coisa dessas se ganharem dinheiro», afirma Pedro Pousão.
A maior batalha, contudo, tem a ver com a legislação. Sendo o caranguejo azul uma espécie invasora, não existe ainda autorização clara para a sua captura e comercialização.
«Apesar de possuirmos licenças de pesca para investigação, os pescadores continuam impedidos de capturar legalmente estas espécies», lamenta Alexandra Teodósio. O diálogo com as autoridades divide-se entre a maior abertura da Direção-Geral de Recursos Naturais, Segurança e Serviços Marítimos (DGRM) e a rigidez do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), sobretudo nas áreas protegidas, onde os caranguejos abundam.
Sem este enquadramento legal, todo este potencial económico e ecológico pode ficar suspenso. Noutros países mediterrânicos, a pesca de invasores «já é permitida como forma de controlo das populações», revela. Em Portugal, essa discussão ainda está em curso. «O processo tem baixo impacto e permite obter um produto de elevado valor comercial, como acontece nos EUA e na Ásia», explica a coordenadora científica do projeto.
É graças ao financiamento do Programa Regional ALGARVE 2030 que o Softcrab está em marcha.
«Sem este apoio, dificilmente a empresa poderia assumir sozinha os riscos e os custos da investigação aplicada», sublinha André Lima Cabrita. O investimento público permitirá montar tanques, testar as melhores práticas e, sobretudo, ensinar os pescadores a identificar os caranguejos em pré-muda, trazê-los para terra e mantê-los nos pequenos contentores nas salinas, até ao momento certo.
A rede de parceiros completa-se com o S2AQUAcoLAB e o apoio científico do Centro de Ciências do Mar (CCMAR)/Ecoreach da UAlg.
No futuro, o desafio passará também pelo consumo. O mercado português ainda não está habituado a comer caranguejo inteiro e mole, como acontece noutros países. Por isso, o projeto apostará em sensibilizar chefs de cozinha e consumidores, dando a provar algo que ainda pode parecer exótico.
O Softcrab é, no fundo, um exercício de criatividade económica diante da crise ambiental: controlar o invasor através da sua valorização e, ao mesmo tempo, descobrir um novo potencial no caranguejo verde. «Transformar invasores em recurso é uma estratégia lógica e urgente», defende Alexandra Teodósio.
Se a experiência resultar, Portugal poderá escrever uma história singular na economia azul: a do invasor e do esquecido nativo que, ao trocar de casca, abriram caminho para uma nova oportunidade. O custo total da operação ronda os 870.932,32 euros e tem um fundo total aprovado de 702.151,20 euros do ALGARVE 2030, isto é, uma taxa de cofinanciamento de 80,62%.




