Lídia Jorge alertou hoje para os riscos da Inteligência Artificial (IA) e pediu vigilância crítica para proteger o pensamento humano e a autonomia da linguagem literária, na entrega do Prémio Pessoa.
A escritora Lídia Jorge incitou hoje à vigilância sobre a Inteligência Artificial (IA), numa defesa do «pensamento autónomo e singular», durante a sua intervenção na entrega do Prémio Pessoa 2025, em Lisboa, distinção de que é a vencedora.
Para a autora do romance «Misericórdia» (2022), «no mundo de hoje, decomposto, à beira do estado de alucinação», a linguagem, a Poética e o pensamento são determinantes, tal como a vigilância sobre o poder das máquinas e a falsidade difícil de desmontar.
«A IA generativa imita, e a imitação pode passar por uma invenção emotiva saída de uma entidade que não experimenta emoção», afirmou. A IA «não tem nem aflição, nem espanto, nem dor, nem raiva, nem alegria, nem pranto», apenas «fornece linguagem como se os tivesse».
Segundo a escritora, assiste-se «a um corte epistemológico entre o criador e a criatura», numa intervenção em que evocou a importância de Fernando Pessoa, da sua obra e dos seus heterónimos.
Por isso, defendeu que «em nome do futuro, convém ficar vigilante».
«Provavelmente, estaremos à beira de obter benefícios fantásticos para as nossas vidas, mas convém perceber se o nosso pensamento autónomo e singular não será aniquilado de todo, no meio da inundação de benefícios. A nossa esperança é de que a linguagem, que na mitologia cristã nos funda como início, não tenha fim enquanto formos donos dela», advertiu.
Lídia Jorge relatou ainda uma experiência com os chats GPT e Gemini, que lhe «ofereceram gratuitamente duas soluções acabadas», «mas falsas», para fragmentos da «Ode à Noite», de Álvaro de Campos, que se suspende quando «a lua começa a ser real».
«Os ‘chats’ em questão imitaram o que era possível imitar, o tipo de linguagem. O resto é falsidade. No entanto, não é fácil desmontá-la», assegurou.
«Para avaliar o que se passa com o mundo de hoje, decomposto, à beira do estado de alucinação, é bom usar a Poética como campo de pesquisa», afirmou, acrescentando que «a Poesia corresponde à articulação mais sofisticada das línguas» e que «a metáfora corresponde a uma engenharia alquímica da linguagem», funcionando como «o último paredão que se ergue sem cedências contra a intervenção algorítmica na construção do discurso».
Numa intervenção em que citou anteriores distinguidos com o Prémio Pessoa, Lídia Jorge afirmou que «foi uma imensa surpresa» quando lhe comunicaram, em dezembro, que era a vencedora da 39.ª edição.
Um prémio que, «pela sua natureza e pelo nome do seu patrono», a «intimida», confessou, revelando que precisa «de imaginar que o anjo do bom humor se encontra pendurado» a rir para si no momento em que o recebe.
«Talvez a troçar de mim pelo facto de, durante uns instantes, ter sido estendido, sobre os meus vestidos literários comuns, a capa de um rei», disse, considerando que Fernando Pessoa, patrono do prémio, «é mais do que um rei, é o imperador da poesia do Século XX».
«Tudo na sua obra, de que a sua vida é um capítulo, e não o contrário, é poderoso e tocante. Até mesmo as suas contradições colossais», afirmou, citando o biógrafo Richard Zenith, que descreveu o autor de «Mensagem» como «aquele que, diante do visível, fosse de que género fosse, e de forma absoluta, procurava o invisível».
Assumindo-se como uma narradora surgida com a Democracia, declarou: «Nós, os que viemos nos anos oitenta [do século XX], tínhamos pressa em passar a faca pela lembrança de uma pátria pobre, amordaçada, que andou aos pedaços por África, e que de súbito queria parecer descolonizada, moderna e rica, mas ainda não o era, e ainda hoje demora a ser».
No início do discurso, Lídia Jorge, conselheira de Estado desde 2021, agradeceu a presença do Presidente da República na cerimónia, que considerou um presente a si mesma.
Dirigindo-se a Marcelo Rebelo de Sousa, afirmou: «Chamam-lhe o Presidente dos afetos, mas é pouco. O senhor foi e continua a ser o Presidente que soube explicar a engrenagem da Democracia ao povo. E esse é um legado extraordinário».
A escritora recebeu hoje o Prémio Pessoa numa cerimónia na sede da Caixa Geral de Depósitos (CGD), em Lisboa, que contou também com a presença da ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes.
Lídia Jorge foi distinguida em dezembro, numa edição do prémio cujo júri foi presidido por Francisco Pedro Balsemão e integrou, entre outros, Paulo Macedo, Ana Pinho, Ana Tostões, António Barreto, Clara Ferreira Alves, Diogo Lucena, Emílio Rui Vilar, José Luís Porfírio, Maria Manuel Mota, Pedro Norton, Rui Magalhães Baião, Rui Vieira Nery e Viriato Soromenho-Marques.
Em ata, o júri destacou a «escrita criativa e diversificada» da autora de «Misericórdia», que «tem sido capaz de revelar o poder da literatura para ajudar a compreender os grandes desafios do mundo contemporâneo», bem como «a sua intervenção cívica corajosa», que «tem contribuído decisivamente para enriquecer o debate democrático na sociedade portuguesa».
Segundo a decisão, «a obra de Lídia Jorge incide sobre um espetro muito amplo de temáticas, desde o impacto de situações vivenciais extremas nos seus personagens à recriação de contextos que evocam momentos históricos decisivos da vida portuguesa do último século», em particular no período pós-25 de Abril, como a descolonização, a transição da ditadura para a democracia, a exclusão social e a emergência de novos fenómenos de discriminação e fratura social.
Nascida há 79 anos em Boliqueime, no Algarve, Lídia Jorge estreou-se no romance em 1980 com «O Dia dos Prodígios». Ao longo da carreira, recebeu vários prémios literários portugueses e internacionais, entre os quais o Prémio Médicis de Melhor Romance Estrangeiro publicado em França, por «Misericórdia», em 2023, e o Prémio FIL de Literatura em Línguas Românicas, atribuído em 2020, em Guadalajara.
Ao Prémio Pessoa juntam-se outras distinções, como os prémios da Latinidade, da União Latina e Luso-Espanhol de Arte e Cultura.
O Estado português condecorou-a com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique e França com a comenda da Ordem das Artes e Letras.
O Prémio Pessoa tem um valor monetário associado de 70 mil euros.