Até ao final do ano são diversas as propostas em Portimão para assinalar os cem anos daquele que foi um grande momento de afirmação e reflexão regionalista, onde, pela primeira vez, foram apontadas as potencialidades e os constrangimentos do Algarve.
Os cem anos volvidos sobre o Congresso Regional Algarvio, que se realizou entre 3 e 5 de setembro de 1915, no Casino da Praia da Rocha, em Portimão, dá o mote para uma nova análise das mudanças, mais valias e fraquezas da região.
O debate «100 anos depois, que Algarve?» é apenas uma das muitas iniciativas que pretende assinalar a
efeméride, estando previsto que as celebrações se estendam por quatro meses, segundo a pretensão da Câmara Municipal de Portimão, através do Museu da cidade.
Mas hoje, dia 3 de setembro, relembra-se o evento marcante para a sociedade algarvia à época, através de uma nota informativa enviada às redações. Este foi o primeiro momento de afirmação regionalista, no qual se discutiram de forma aberta e frontal os problemas, a potencialidade ou as oportunidades de progresso, tendo acontecido numa altura conturbada. O ambiente era o da Primeira Grande Guerra Mundial. Já na altura, a imprensa regional deu grande cobertura ao acontecimento, que reuniu no Casino da Praia da Rocha, onde hoje se situa o Hotel Oriental, a elite do Algarve e de Lisboa, deputados, altos funcionários públicos, médicos ou advogados.
Nos três dias foi realizada uma verdadeira «radiografia» à região. Ao todo, foram debatidas 25 teses, onde se destacam as «Indústrias do Algarve», por Luís Mascarenhas, «O Ensino Elementar Industrial», por Aníbal Lúcio de Azevedo, «Crédito Comercial e Industrial», «Zonas de Turismo», «Posto Agrário e Ensino Móvel», «Escola Primária Agrícola» e «Questão Corticeira», por Tomás Cabreira, ou «Arte Algarvia», pelo pintor Falcão Trigoso.
Contudo, as festividades só terminam no Dia da Cidade, a 11 de dezembro. Fazendo a ponte entre passado e atualidade, o programa destas comemorações inicia-se com a ação «A Cultura Sai À Rua», no âmbito das Jornadas Europeias do Património, na Mexilhoeira Grande, a 26 de setembro.
Segundo adiantou ao «barlavento» José Gameiro, diretor científico do Museu de Portimão, no dia seguinte, Dia Mundial do Turismo, serão publicadas online as teses apresentadas por Tomás Cabreira no congresso de 1915. Está prevista a divulgação progressiva das restantes comunicações.
Já a 29 de setembro, será lançado, também online, «Cruzeiros Turísticos – Uma perspetiva sistémica e multidisciplinar», no Porto de Cruzeiros de Portimão.
No mês da implantação da República de 1910 é organizado, no dia 10, uma conferência inaugural sobre o primeiro Congresso Regional Algarvio.
A esta iniciativa, ainda segundo José Gameiro, associou-se também o Grupo de Amigos do Museu de Portimão, que lançam uma edição comemorativa de postais de início do século e organizam tertúlias, como a que está marcada para dia 12 de setembro, sobre «A Capela de Santa Isabel: uma intervenção arqueológica na antiga rua dos Arcos em Portimão».
Na calha está também a promoção de diferentes encontros de reflexão, devendo ser convidadas entidades de relevo da atual economia e sociedade algarvia. Também será homenageado o fotógrafo Vitorino Fonseca Dias, que, na altura do congresso, fez o registo do evento.
Para terminar com chave de ouro, a 12 de dezembro é inaugurada a exposição «O Congresso Regional Algarvio», no Museu de Portimão. Gameiro avançou que esta mostra contará com os documentos do Congresso, havendo ainda a ideia de recriar uma rua da Praia da Rocha, naquela época. Haverá também um espaço dedicado aos produtos agrícolas e do mar, com destaque para a inovação, à semelhança do que aconteceu há cem anos.
Em 1915, no final do Congresso, «houve uma mostra para divulgar os produtos» da região, até porque «a exportação, em especial para países como a Alemanha, atravessava uma crise enorme», sendo uma consequência da 1ª Grande Guerra Mundial», desvendou Gameiro.
Três dias históricos em 1915
A imprensa regional da época deu grande cobertura ao acontecimento, de que a revista «Alma Nova» (órgão oficial do Congresso) e os semanários republicanos «O Heraldo», «A Alma Algarvia» e «O Algarve» constituem um bom exemplo.
Durante os três dias em que decorreu, foi feita uma verdadeira «radiografia» à região, enumerando-se potencialidades, vantagens e aspetos a melhorar ou a eliminar.
O evento contou com a elite algarvia e mesmo a que vivia em Lisboa deslocou-se a Portimão para participar e assistir ao Congresso, desde deputados, altos funcionários da administração pública, senadores, médicos, advogados, professores, engenheiros, militares, agrónomos, entre outros.
O Congresso serviu para chamar a atenção do Governo Central para alguns assuntos que eram importantes resolver com alguma celeridade, mas que as condições políticas, a conjuntura económica, a guerra mundial, a burocracia e a ineficácia das organizações acabaram por não produzir o resultado esperado.
Quanto aos temas debatidos, foram criadas três secções: Agricultura e Indústria Algarvia, Comércio e Meios de Transporte, e a terceira, Turismo, Climatologia, Arte Algarvia e Assistência.
Ao todo, foram discutidas vinte e cinco teses, entre as quais se podem destacar: «Indústrias do Algarve», por Luís Mascarenhas, «O Ensino Elementar Industrial», por Aníbal Lúcio de Azevedo, «Crédito Comercial e Industrial», «Zonas de Turismo», «Posto Agrário e Ensino Móvel», «Escola Primária Agrícola» e «Questão Corticeira», por Tomás Cabreira, «Província Agrícola do Algarve», por Mário da Cunha Fortes, «Arte Algarvia», pelo pintor Falcão Trigoso, «Cantos, músicas e danças», de Jacinto Parreira, «Estradas», por Agostinho Lúcio, «Caminhos-de-ferro do Algarve», por Vasconcelos Correia, «Clima do Algarve», por Bentes Castelo Branco e «Hotéis», apresentada pela Comissão de Hotéis da Sociedade de Propaganda de Portugal.