Foi uma subida em fila pela escadaria da Assembleia Municipal de Loulé, para ouvir as várias vozes intervenientes anunciarem a saída do papel de um dos maiores projetos comerciais hoje em curso no Algarve. Contas feitas, vão ser 220 novas lojas servidas por 3500 lugares de estacionamento, num investimento de 200 milhões de euros que promete criar 3000 novos postos de trabalho diretos e indiretos (250 dos quais na loja IKEA).
Na brochura oficial distribuída aos convidados, a IKEA Centers identifica uma área de influência para o novo projeto que vai desde Sagres à raia da Andaluzia, abrangendo uma «população total de 756 503 habitantes», aos quais se somam mais «3,6 milhões de turistas (70 por cento estrangeiros) segundo dados de 2014». «Mais de 280 mil habitantes estão a uma distância de 30 minutos» sendo «uma população dinâmica com um poder de compra superior à média nacional», lê-se.
Christiane Thomas, retail manager da IKEA Portugal, e Richard Vathaire, managing director da IKEA Centres Portugal e Espanha, asseguraram aliás, o otimismo do grupo sueco na apresentação do projeto. «Configura-se como proposta comercial e de lazer capaz de competir com qualquer dos projetos comerciais de primeiro nível existentes não só em Portugal, como na Europa. Durante o período de construção, vamos envolver 10 mil empregos na economia local, potenciando os setores de hotelaria, restauração e comércio», contabilizou Vathaire.
Já o vice-primeiro-ministro Paulo Portas, no tom oratório que a ocasião mereceu, enalteceu a presença do grupo escandinavo com as três lojas já existentes no país, as três fábricas em Paços de Ferreira e a relação com os fornecedores portugueses. «Mantém uma parceria com a Vista Alegre para a produção de louça de mesa e há uma parceria com a Aquinos, em Tábua, para a produção de colchões». Portas deixou ainda uma palavra de elogio para a colaboração entre o poder central e local.
Projeto importante, mas…
Hugo Nunes, vice-presidente da Câmara Municipal de Loulé, também teve a oportunidade de discursar. Contudo, assumiu um tom mais realista, fazendo a ressalva que é preciso ter cuidado com os danos colaterais de mais um mega centro comercial.
«É um investimento muito volumoso e muito importante não só para o concelho, como para a região. Agora é também verdade que esta alteração na organização do comércio tem um efeito terrível para as dinâmicas dos centros urbanos das nossas cidades. Não é só Loulé. É também Almancil, Quarteira e mesmo Faro, que têm uma dinâmica própria, construída em torno do comércio e dos serviços. Vão ter uma aqui uma força que suga um pouco do que são os seus clientes e sua atividade económica», admitiu em declarações ao «barlavento».
«É preciso perceber que não podemos parar estas dinâmicas. Mas é também preciso encontrar e ir à procura de um conjunto de alternativas que permitam que os nossos centros urbanos e alguns dos seus espaços comerciais continuem a ter a vida que precisam de ter. Para que continuem a ser as vilas e cidades que conhecemos e que desejamos para o futuro», considerou.
«Começa aqui um projeto muito grande, que trará retorno e não tenho dúvida que irá ajudar muita gente e muitas empresas», já a curto prazo, durante todo o processo de construção já em marcha. «Mas há um reverso desta medalha e que não podemos deixar de o ter presente todos os dias, para que nas medidas políticas e nas decisões que tomamos, irmos à procura de certa forma, de mitigar e de diminuir os efeitos negativos que este tipo de equipamentos também têm», concluiu o vereador que detém o pelouro da economia e empreendedorismo.
Segundo Hugo Nunes esta questão não é alheia ao grupo, que tem proposto formas de compensar a comunidade. «Confirmo que há conversas já muito avançadas entre o IKEA e a Câmara Municipal de Loulé para um projeto de intervenção responsabilidade na área social», embora sem dar mais pormenores.
António Machado, diretor de expansão da IKEA Portugal, confirmou está no prelo um projeto conjunto com a autarquia «orientado para crianças em risco», e a anunciar muito em breve.
Ambições e inovações
O «barlavento» questionou o António Machado sobre a possibilidade do projeto ser demasiado ambicioso? «Fizemos um estudo de mercado durante os últimos anos. Não são os anos mais favoráveis a nível do retalho, mas mesmo assim sabemos perfeitamente que que os nossos vizinhos de Espanha também virão aqui a este centro comercial», respondeu.
Interrogado sobre a sustentabilidade, sublinhou que «temos a nossa experiência própria e na IKEA, até hoje, nunca fechamos nenhuma loja nem nenhum centro comercial. Temos um bom exemplo em Portugal, que é o espaço de Matosinhos que está a dois quilómetros de um centro comercial de referência. E é um centro que está sempre em crescimento», comparou.
Por outro lado, o diretor de expansão do IKEA Portugal sabe que este complexo tem sido muito contestado quer por parte de associações ambientalistas, quer por parte de lojistas e sócios da ACRAL – Associação do Comércio e Serviços da Região do Algarve. «Um projeto desta dimensão tem sempre opiniões diferentes e é sempre tema de debate. Mas temos visto que, a nível da IKEA, por exemplo, na redes sociais, a maioria dos algarvios está ansiosa de ter uma loja aqui», desdramatiza.
Machado sublinhou que «a partir de agora as coisas serão mais rápidas e fáceis», estando a abertura prevista para os primeiros meses de 2017, com algumas surpresas.
«O layout vai ser inovador. O cliente pode dar uma primeira volta na loja IKEA, pode sair ao centro comercial e voltar a entrar em qual dos dois pisos, coisa que não é possível noutras lojas», concluiu.
A loja de Loulé vai ser a quinta a abrir em Portugal. Junta-se assim às duas na zona de Lisboa, à loja que serve o Porto, e à que será inaugurada em 2016, em Braga.
Futuramente, o objetivo é atingir uma meta de 10 lojas em Portugal, à semelhança do que acontece na Suécia, país que demograficamente, António Machado compara a Portugal…